A prova dos professores, versão B

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Anteontem, nas jornadas parlamentares da maioria, Nuno Crato voltou à carga com a prova de Português e Matemática para os docentes do 1º Ciclo. Só que agora, em vez de uma prova no fim da licenciatura, Crato promete outra à entrada da licenciatura – que mais não é, se bem percebo, que o respectivo exame do 12º ano. Ou seja, os sindicatos e os politécnicos, que tanto protestaram contra a “prova de avaliação dos conhecimentos” dos candidatos à docência, confrontam-se agora com uma prova de acesso à própria licenciatura, sem muitos argumentos para a contrariar.
Como jogada política, marca pontos. Mas temo que o essencial da anterior proposta (a maior exigência na formação dos professores do 1º Ciclo) se perca com a transferência do ónus da prova para os exames do 12º ano e, poratnto, para o ensino secundário.
É pena. A formação dos professores é absolutamente vital para um ensino de qualidade. E os sindicatos e os politécnicos não podem defender os seus interesses corporativos à custa do bem comum. Quem não deve, não teme. Se a formação dos cursos de Educação Básica é boa, se os candidatos a professores do 1º Ciclo são bons, nada justifica que recusem a prova de avaliação de conhecimentos no fim da licenciatura.
Estou à vontade: sou professor num curso de Educação Básica. Uma limitação às saídas profisionais dos meus alunos pode diminuir a procura do curso em que lecciono. Mas também sei, oh se sei, que alguns deles não têm competência para ensinar língua portuguesa nem sequer ao 1º Ciclo. E imagino o resto. Porque é um erro trágico acreditar que qualquer pessoa, só porque tem uma licenciatura, pode ensinar Português e Matemática, mesmo a um nível elementar. Como não me canso de repetir a alunos e colegas. O que está em jogo é demasiado sério para cálculos paroquiais. Crato pôs o dedo na ferida – e fez bem. Resta saber se tem o remédio.

PP

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21 thoughts on “A prova dos professores, versão B

  1. Mas a questão não será antes “quem é suficientemente desmiolado para ir inscrever-se numa qualquer ESE, sabendo que as hipóteses de trabalho nos próximos – largos – anos andam próximo de zero? E sabendo mais ainda que, ao contrário de outras licenciaturas, essa só desemboca aí e em mais nenhuma outra saída?”

    • ppicoito diz:

      Suponho que a resposta seja: alguém que julga erradamente ter emprego assegurado por ser professor ou alguém que acredita realmente ter vocação para ser professor. para o bem de todos, espero que a segunda hipótese seja mais frequente que a primeira.

  2. Bone diz:

    Não entendo. Se as universidades e as escolas superiores estão acreditadas para formar professores, são reguladas, fiscalizadas, avaliadas, não são responsáveis por garantir a adequada selecção e preparação dos professores?

    Diz que alguns dos seus alunos não têm competência em língua portuguesa para ensinar. Mas então:
    1) O que estão a fazer na universidade? Serão os critérios de selecção suficientemente rigorosos?
    2) Como é que vão concluir o curso com aproveitamento se não adquirirem ao longo da formação os conhecimentos e competências necessárias? Das duas uma, ou chumbam ou a escola não está a cumprir o seu papel e tem que rever os critérios de avaliação.

    É um erro trágico acreditar que qualquer pessoa só porque tem uma licenciatura pode ensinar Português e Matemática? Mas se estudou para ser professor de Português ou Matemática é “qualquer pessoa”? As escolas são desresponsabilizadas?

    • ppicoito diz:

      1) Refiro-me a um número limitado de alunos, pela minha experiência pessoal. Alguns ficam pelo caminho, outros, quase por milagre, concluem o curso. Regra geral, porém, os critérios de selecção não são suficientemente rigorosos na esmagadora maioria dos cursos superiores (universitários e politécnicos, públicos e privados, de letras ou de ciências), que abdicam às vezes do rigor na selecção dos candidatos por razões de sobrevivência. Compreendo, mas lamento.
      2) A avaliação é matéria da competência de cada professor. Há-os mais rigorosos e menos rigorosos. Na minha opinião, os professores das matérias científicas (nomeadamente língua materna e matemática) deviam ser especialmente rigorosos. Por várias razões, uma das quais o fim da ilusão de que se pode dar uma educação de nível superior a alunos que não tiveram um secundário em condições, nem sempre é o que sucede. Compreendo, mas lamento.

      • Bone diz:

        Razões de sobrevivência? Não quero massacrá-lo, mas então a livre concorrência não era a panaceia para melhorar a qualidade do ensino?

        Ao contrário de si, eu não compreendo, mas também lamento muito. O ME tinha que se orientar era para a avaliação e acompanhamento do trabalho que é feito nas escolas, é esse o seu papel e não inventar mais um exame porque não tem coragem/vontade de assumir o seu papel de regulador junto das instituições de ensino. No limite, o aluno que paga, estuda e se forma é que é depois responsabilizado pelo eventual mau trabalho feito pelas escolas, tendo que fazer mais um exame. Se se trata de um bom aluno, é um desperdício de recursos, se se trata de um mau aluno, vai descobrir a posteriori que foi enganado pela escola que o formou e que lhe disse que ele estava apto. Poderá processá-la?

      • Nos últimos anos, fruto das circunstâncias profissionais, tenho conhecido principalmente jovens (incluo aqueles na faixa dos 30 aos 40 anos de idade) licenciados na área das ciências. É dramática a falta de interesse pelas matérias ditas científicas, e aqui incluo aquela curiosidade permanente pela investigação científica nacional e internacional, que actua como um despertar permanente, refrescando a acuidade intelectual, e é pavorosa a quase total ausência de outra, chamemos-lhe assim, cultura. Navegam, creio, num vazio de interesses pessoais, aptos para a mais elementar manipulação, da qual resulta um vazio de interesses pelas questões colectivas.

        Este comentário serve para dizer que a sua afirmação

        “Regra geral, porém, os critérios de selecção não são suficientemente rigorosos na esmagadora maioria dos cursos superiores (universitários e politécnicos, públicos e privados, de letras ou de ciências), que abdicam às vezes do rigor na selecção dos candidatos por razões de sobrevivência. Compreendo, mas lamento.”

        é lamentavelmente incompreensível e que os professores são, em regra, péssimos alunos, ou jamais teríamos chegado a este ponto.

  3. caramelo diz:

    “é um erro trágico acreditar que qualquer pessoa, só porque tem uma licenciatura, pode ensinar Português e Matemática”

    É até um erro trágico acreditar que qualquer pessoa, só porque tem um doutoramento, pode ensinar português e matemática. A primeira coisa que me vem à cabeça, quando penso em ensino, é pedagogia, e talvez um exame de conhecimentos de português e matemática não seja a melhor forma de avaliar a capacidade de um professor para transmitir conhecimentos dessas matérias. Ou para gerir a educação. Por exemplo, o Crato será um génio da matemática, mas é um mau pensador do ensino. A avaliação da sua politica não se faz pela sua capacidade de impor exames a alunos ou professores, ou meter os professores na ordem, ou limitar o uso de papel higiénico nas escolas, mas sim pelo que acrescenta à preparação humana e científica da população. Bem pode impor exames todos os meses aos alunos.
    Eu nunca tive razões nenhumas de queixa do conhecimento matemático dos professores do meu filho. Desconfio que se lhes meter uma equação à frente, a resolvem facilmente. E, no entanto, o meu filho acha a matemática a coisa mais aborrecida do mundo. Eu próprio sempre tive professores de matemática que fariam um exame de matemática com uma perna às costas, mas nunca nenhum deles me conseguiu transmitir um átomo de interesse pela matemática. Consegui começar a gostar de matemática há poucos anos, pela via da história da matemática, quando li um livro de divulgação de matemática e descobri a história fascinante do teorema de Fermat. Continuo a saber praticamente o mesmo que sabia antes, mas já consigo descobrir uma beleza na matemática que antes desconhecia.
    A mesma coisa, basicamente, para o português, as ciências da natureza, etc.

    • fnvv diz:

      Na faculdade tive uma cadeira de psicopedagogia.Supostamente, ensinar a ensinar. Sabes como é que a cavalgadura ( doutorado)dava todas ( TODAS) as aulas? Ligava o retroprojector e lia os acetatos .

      • caramelo diz:

        Eu tive um professor de liceu que fazia assim: chegava às aulas e abria um livro, rebeubeurebeurebeubeu,.rrrrrrrrrrrrrrrrrr, a gente lá atrás a jogar à batalha naval e os da frente de olhos desfocados a ver quatro professores e a sonhar com a praia. Chegava ao fim e era: Ide em paz e o senhor vos acompanhe, amen. Um retropojector teria sido uma revolução pedagógica. Isto passou-se num liceu com um pedigree que alto lá com ele e bem podia ter sido o tipo a escrever os livros. E tive um professor de história que passava parte das aulas a falar de banda desenhada, de que era fanático, o saudoso professor Monteiro, e que foi um dos melhores professores que tive na vida.

      • fnvv diz:

        Não me terei explicado bem. Essa cavalgadura tutelava a componente psicopedagógica de outros cursos, ou seja, ensinava os matemáticos, os de letras etc a dar aulas.

      • caramelo diz:

        Já tinha percebido perfeitamente, Flipe. E o que queria dizer no meu comentário é que a psicopedagogia é de facto uma coisa a que nunca se deu excessiva importância neste país. Mas acrescento que também é verdade que ainda que se ensinasse bem a ensinar, com a forma como as escolas e as turmas estão organizados e com os programas que existem, métodos, etc, não vale a pena perder-se tempo com cursos de pedagogia. E os pequenos pormenores de se pagar decentemente aos professores, dar-lhes estabilidade na carreira, etc, também talvez fossem importantezitos.

    • ppicoito diz:

      A pedagogia sem conhecimentos é vazia. Niguém dá o que não tem. Uma das tragédias dos nossos cursos de professores é que se investe muito na preparação pedagógica e pouco na preparação científica. O resultado é que temos professores do 1º Ciclo que sabem tudo sobre recursos pedagógicos multimédia (ainda bem) e dão erros de português (ainda mal). É impossível entusiasmar os alunos por uma ciência que não se domina.Simplesmente impossível.

      • fnvv diz:

        Dei aulas 15 aos com a regra do Steiner: Estás num comboio parado e avariado ao meio-dia no deserto e tens de captar a atenção de uma carruagem cheia.

      • “A pedagogia sem conhecimentos é vazia. Niguém dá o que não tem. Uma das tragédias dos nossos cursos de professores é que se investe muito na preparação pedagógica e pouco na preparação científica”

        Completamente de acordo. Agravado pelo facto de a “pedagogia” injectada, na maioria dos casos, ser a peçonha do mais rasteiro eduquês (eu sei que começa a ser mal visto utilizar terminologia cratense mas continuo convencido que o ministro da educação resultou de bodysnatching praticado sobre o professor Nuno Crato).

        “É impossível entusiasmar os alunos por uma ciência que não se domina”

        Ou – pior – por uma ciência (ou outra qualquer matéria) que já não entusiasma ou nunca entusiasmou o próprio prof.

      • caramelo diz:

        O Nuno Crato sofreu bodysnatching? Óóóó…parecia tão sábio e competente, escreveu um livro e tudo sobre educação, que fez a sua glória.. realmente, só pode ter sido bodysnatching.
        João Lisboa, acredite que o termo eduquês continua a ser a palavra mais acarinhada, nunca mal vista, um fenómeno de marketing. O que estraga tudo é…. sei lá, o sistema, que não deixa, é aquele tipo de bigode, o Nogueira, o bodysnatcher.

  4. ppicoito diz:

    Mas qual livre concorrência? O problema é que não há mercado… Nunca ouviu falar na diminuição da natalidade e do número de alunos universitários?
    O Estado já é teoricamente regulador das escolas superiores de educação e dos politécnicos, como aliás de todos os estabelecimentos de ensino superior. Não julgo que deva ter um papel mais interventivo nas escolas. Então e a liberdade de ensino e a autonomia das escolas? Mas a entrada na docência é outra coisa, porque aí o Estado é o principal empregador. Nada mais natural que tenha critérios de acesso à profissão.

    • Bone diz:

      Não defendo a livre concorrência no ensino, pensava que o Pedro a defendia, mas terei feito confusão. Se não há “mercado”, mais uma vez, é o Estado que tem que garantir o ajustamento (bela palavra) do número de instituições e a oferta de cursos. E não exercer apenas teoricamente mas de facto a sua função reguladora. O Estado não deve ter um papel mais interventivo nas escolas? Mas se o ME parece achar que as escolas não estão a cumprir a sua missão nada faz? Cria um exame e deixa-as sossegadas a laborar em erro? Que eu saiba, o Estado já tinha critérios de acesso à profissão, por isso os cursos de formação de professores incluem exames e estágio pedagógico. Se se trata de cursos orientados apenas para essa saída profissional, deveria ser suficiente. Se não é, algo vai mal no reino da Dinamarca.

  5. caramelo diz:

    É óbvio que não se pode ensinar o que não se sabe, nem ninguém disse o contrário. Mas a pedagogia é uma disciplina própria, que sempre foi aqui um bocado descurada. Continua a dizer-se que se dá importância desproporcionada à pedagogia, mas eu não sei o que se ensina por aí de pedagogia, porque as crianças continuam a ser ensinadas basicamente como eram há cem, duzentos anos. O meu, senta-se na carteira, aponta o que a professora diz e escreve no quadro, responde a perguntas, leva e faz os trabalhos de casa. Reload, todos os dias. É a matriz. Há por aí um mito urbano de que as aulas são uma girândola de pirotecnia multimédia e mimos às crianças. Treta. A maior parte dos professores, descontando as dificuldades logísticas e de programa, são pedagogicanente conservadores. O Verney, se tivesse agora um blog, todos os dias teria centenas de comentários a mandá-lo calar com a treta do eduquês.
    O meu professor Monteiro tinha uma sólida preparação científica. Mas tinha muito mais. Tinha estado no Egito e Médio Oriente e passava horas a ensinar-nos escrita árabe e hieróglifos, mais uma série de inutilidades sortidas. Provavelmente nunca chegou ao fim do programa oficial, mas havia um acordo tácito para não o chibarmos aos inspetores e à direção. Era um comunicador, que nem fazia questão que nos mantivéssemos sentados Vários colegas vieram, por causa dele, a seguir História por gosto da História, o que é a melhor homenagem que se pode fazer a um professor.
    A grande maioria dos professores não tem esse sentido inato de pedagogia. O mundo é feito por pessoas de capacidades médias, que não enfeitiçam um auditório de centenas de pessoas. Não se pode exigir a um professor médio que ensine tão bem uma turma de trinta e tal alunos, como ensina uma turma de vinte, ou que ensine um grupo tão bem como ensina um só menino, ou que esteja atento ao mesmo tempo a um grupo e a um menino com dificuldades de apresendizagem. É preciso ensinar as técnicas.
    Quanto à ciência versus a pedagogia, uma pequena provocação: eu consigo conceber perfeitamente um pastor analfabeto a despertar-me o gosto pela astronomia 😉

    • “O mundo é feito por pessoas de capacidades médias, que não enfeitiçam um auditório de centenas de pessoas. Não se pode exigir a um professor médio que ensine tão bem uma turma de trinta e tal alunos, como ensina uma turma de vinte, ou que ensine um grupo tão bem como ensina um só menino, ou que esteja atento ao mesmo tempo a um grupo e a um menino com dificuldades de aprendizagem”

      De acordo. Acontece que, havendo, agora, tão poucas hipóteses de emprego para futuros professores, era capaz de ser o momento ideal para uma muito mais apertada selecção em que apenas os de capacidades francamente acima das médias chegassem à profissão.

      • caramelo diz:

        Ah, mas isso é excelente, muito bem. Eu sou pela excelência. Melhor ainda, que merecemos tudo: Ressuscita-se o Aristóteles e o seu Liceu, agora no estádio da Luz, com um bom sistema de som.

  6. caramelo diz:

    O ministro Crato tem uma missão. Uma. Tem os cortes e o que acrescenta, que é tudo: Os Exames. Tinha a Liberdade de Escolha, mas teve dificuldade em aplicar na prática à população uma geometria não euclidiana, com um espaço-tempo quadrimensional. Tem um grupo de sábios a estudar uma solução e teremos que esperar. Por enquanto, os exames já nos aproximam rapidamente e em força da Coreia do Sul. Nós vamos e eles voltam. Já há sinais de descompressão no sistema sul coreano de ensino, porque a coisa atingiu dimensões ridiculas, para não dizer dramáticas. Parece que visto de fora é um prodígio, mas cada vez mais sul-coreanos dispensam tanta admiração. Parece que os finlandeses têm menos horas e dias de escola e pouco trabalho de casa, fartam-se de brincar, são mais relaxados em exames, e espantosamente não se saem muito pior do que os seus coleguinhas sul coreanos.

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