O efeito de Coriolis

A bigbrotherização de um caso de alegada violência doméstica pode beneficiar a causa das mulheres espancadas? Não.

Walter Benjamin conta a história de um padre, acusado de comportamento imoral, que foi conduzido pelas ruas de Nápoles em cima de uma carroça. As pessoas seguiam-no e iam soltando imprecações. Numa dada esquina encontram  um cortejo nupcial. O padre levanta-se e abençoa-os –  todos os os que o seguiam caem de joelhos.

Os resíduos de pólvora das vinganças, os detalhes sórdidos e a conflitualidade das versões são elementos que acabam por conferir à peça um carácter de diversão. A história de Benjamin mostra como é possível destacar a película do contéudo. Na bigrotherização da violência doméstica todos caímos de joelhos.

FNV

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30 thoughts on “O efeito de Coriolis

  1. Olhe que não, olhe que não, Filipe.

  2. josé serra diz:

    apesar de tudo – e de subscrever a genuflexão geral – as revelações «exuberantes» dele chocam com a contenção – talvez envergonhada – dela.
    ele é doutorado em golpe baixo até na maneira como revela as fragilidades dela. e se isto é assim em público imagine-se me privado.
    não me interessa, mas interessa-me: os dramas dos outros são, em parte, tb nossos.

  3. Não me parece, Filipe. E depende de nós que não aconteça isso.

    • fnvv diz:

      Veremos, Carla. Neste assunto não me tenho, infelizmente enganado.
      Há uns anos contrariei a tese de que só havia aumento da visibilidade, mais tarde previ efeito nulo para as campanhas ( aborreci gente, coitada).
      Escrevo sobre isto há muito, até cheguei a vencer a simposiofobia e participei em coisas, tenho-o quase todas as semanas na consulta,mas não me parece que o BB ajude.

  4. Não é Big Brother, Filipe. E se o é, vem da parte do Carrilho, que já se tornou um problema de saúde pública. Não me lembro de nenhum caso parecido. Este caso pode fazer mais pelas vítimas de violência doméstica do que mil campanhas de “sensibilização” (na maioria inúteis, no meu entender). Pode mudar a maneira como as pessoas falam sobre o problema, o que não é nada pouco. Não há que temer a mediatização do caso. Ela é previsível, dada a exposição mediática de ambos. Há que o enfrentar, falando abertamente sobre o que se desenrola há uma semana na imprensa à frente dos nossos olhos e tomando uma posição muito clara.

    • fnvv diz:

      Posição clara tomo, e tomei, sobre o assunto, sempre do lado delas. Sobre este caso específico não tomo nenhuma porue não sei ( nem tu, calculo) o que se passou em sede de violência ( da educação do senhor professor nem falo).

  5. Como não sabemos? As “declarações” de Carrilho são a prova da violência. Uma pessoa que é capaz de fazer aquilo e de dizer o que disse, é capaz de tudo. Não preciso de ver mais nada.

    • fnvv diz:

      Bom, isso, ao fim de tantos anos enfiado nas vidas das pessoas,aprendi que pode não ser assim. Um canalha ( a declaração pública sobre um abuso infantil ou lá o que era define uma personalidade tanto quanto o espancar de uma criança,não precisamos de o entrevistar) pode não ser um torturador…

  6. Bone diz:

    Por falar em simpósio, importa-se que pendure um poster neste cantinho? É já amanhã: http://milrazoes.no.sapo.pt/index_ficheiros/2013nov02Cartaz.jpg

  7. “Palavras são acções”, Filipe. Wittgenstein dixit.

    • Wittgenstein diz:

      Peço encarecidamente que não me metam no assunto. Recordo que também disse que as fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo e eu há anos que não me ausento de Cambridge. Não faço por isso ideia se o senhor Carrilho bateu na sua esposa.

    • miguel serras pereira diz:

      Pois são. Mas agredir fisicamente uma pessoa é uma acção diferente da pergunta que se lhe faça: “Queres levar na tromba?”. E não há nexo causal necessário entre a segunda e a primeira. Nem vice-versa (há quem leve pancada sem aviso prévio). Em certo sentido, todas as palavras são acções (são actos), mas nem todas as acções são palavras.

      msp

      • fnvv diz:

        É isso , Miguel. Digamos, portanto, que o torcionário conhece sempre o nosso Blanchot : o desejo é a distância tornada sensível.

  8. cristiana fernandes diz:

    Fico sempre admirada com a rapidez com que as pessoas julgam os outros e as situações e tomam logo partido…mesmo sem conhecerem os factos…
    Olhem que não é nada fácil, julgar….

    • fnvv diz:

      Não sei se isso é para mim, mas aceito o repto:
      Um homem vai na rua à sua frente com uma criança de quatro anos. A criança deixa cair o gelado. O homem dá-lhe uam lambada e , já no chão, ferra-lhe um pontapé na cabeça. Julgamento: um canalha.Quem discordar: canalha e meio.
      Sobre situações,é outra louça e por discordo da Carla.

      • manuel.m diz:

        Alguém que viu diz-me que não foi bem assim : A criança ía a comer o gelado quando o deixou caír ao chão. Escorregou nele e ao caír bateu com a cabeça no chão.
        Mas há outra testemunha que disse que quem ía a comer o gelado era o homem e foi ele que o deixou caír e que a criança ainda o tentou agarrar no ar mas sem querer bateu na cara do homem tendo na confusão indo os dois parar ao chão,tendo-se ambos aleijado na cabeça.

      • cristiana fernandes diz:

        Giro e desconcertante ( o seu raciocínio argumentativo às vezes é desconcertante). Mas então…está a concordar comigo…O Filipe ( posso tratá-lo assim ? ) viu e presenciou o FACTO! O que eu disse é que julgamos sem ver e sem conhecer os factos.

        Mas ainda assim ( e só para desconcertar ), há que ter em conta que “toda a violência tem atrás de si uma história relacional” ( esta frase é de outrem, mas eu concordo inteiramente com ela ). e quiçá, o homem estava no uso das suas faculdades mentais, era dono da sua vontade ?( olhe, basta lembrar aquele de ontem, o álcool…)

      • fnvv diz:

        Pois claro e nada desconcertante, cara Cristiana: no meu texto não há uma linha sobre apreciação de facto/responsabilidade.
        Já o Rui foi por aí. No comprendo.

  9. Rui Alexandre diz:

    Curioso “julgamento” este, caro Filipe. Sobre o assunto a “alegada” violência doméstica “sempre do lado delas” (claro, se são suas pacientes!). E a verdade, quem que tem a seu lado?
    Já agora, este espectáculo beneficia qual dos protagonistas?
    E os filhos do casal, são actores secundários ou meros adereços!

    • fnvv diz:

      Eu não sou os nossos comentadores, caro Rui. Não percebo por qu em edirige essas perguntas. A única que acuso é a “sempre do lado delas”. Claro, costumo estar do lado de quem vai parar ao hospital ( ou à morgue).

  10. Rui Alexandre diz:

    Expliquei-me mal. Mas, já agora, como o Filipe bem sabe, as vítimas (sem aspas) não tem género e não só aquelas que vão parar ao hospital ou à morgue. Não há santos, só defuntos, mesmo fieis!
    Um abraço tipo, esta noite esteve dividido.

  11. Rui Alexandre diz:

    por falar em santos faltou-me o “são”, entre o “não” e o “só”

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