V.4

Demasiado humano. Vejamos, por exemplo, o capitel da sétima coluna do lado esquerdo a contar da água:

c6

Um rapaz e uma rapariga namoram à janela.

namoro

Casam-se.

casam

Têm um filho.

bebe

A criança morre.

morte

Luis M. Jorge

Anúncios
Com as etiquetas

26 thoughts on “V.4

  1. henrique pereira dos santos diz:

    Grande post, muitíssimo bom.

  2. caramelo diz:

    Belas imagens. Veneza perdeu todo o encanto sem a malária e a bubónica. Toda a Itália, aliás. Gosto de imaginar a Itália como uma mistura de morte e luxúria, como no Decameron. A irritação dio Brodsky resolvia-se fechando os canais no Verão, deixando-os estagnar, e colonizandos-os com anopheles e ratazanas. E fazia-se ressugir a bela arte da cantaria de capitéis.

    • O que o caramelo quer dizer, creio (e engano-me com uma frequência atroz), é que esta atracção pela decadência (teremos alguma vez conhecido outra coisa?) transporta de facto o seu contrário: a fúria da criação. A marca de água do Ruskin, por exemplo.

      • No caso de Ruskin não era a decadência mas a castidade.

      • caramelo diz:

        Alessandra, por acaso, não gosto nada do Ruskin, nem dos que gravitam à sua volta (pre-rafaelitas, arts and crafts e demais carpinteiros virtuosos). Lembra-me as orelhas do prince charles. Não gosto do gótico pelas mesmas razões dele. Toco-lhe à tangente: gosto de ruinas e pedras, em geral. Mas sou mais peste negra. A partir daí, só aproveito de Veneza o Casanova a saltar de telhado em telhado. Espero que tenha morrido tísico.

  3. Não me enganei, então. Grazzie.

  4. henedina diz:

    Líndíssimo. Eo post muito bem conseguido.
    Fui lá e não vi. Mais uma razão para voltar a Veneza.

  5. caramelo,

    Eu sou alexandra, não me meta em acordês.
    Depois, é perfeitamente possível ler o Ruskin (li pouco, atenção) sem o resto em volta (a minha educação bicéfala?). Mais: as orelhas do prince charles nem por isso o tornaram menos principezinho para as moças. Ainda: é peste negra. Para a malta da conservação e restauro é fácil: biocida. Quanto ao Casanova de telhado em telhado: literatura e os tempos, conforme os lemos 🙂

  6. caramelo diz:

    Oh, Alexandra, a alessandra podia ser uma menina veneziana pintada pelo Bellini, foi só por isso. Eu até tenho um fraquinho pela poesia do Ruskin, aquele estilo noiva do sepulcro, ruínas da abadia e tal. Mas comecei a prestar mais atenção a uma outra dimensão, quando fiz há uns anos uma pós graduação que metia património cultural. Fui desfiando e comecei a perceber a dimensão ideológica do seu gosto pelo gótico: a exaltação da vida simples, da hierarquia, do corporativismo. Era anticapitalista, mas há várias formas de ser anticapitalista e a do Ruskin não é a minha preferida. Eu sou mórbido, gosto de imaginar o gótico como uma época de catástrofes, de duras transições (… por falar nisso, não tarda estamos outra vez a esculpir gárgulas no topo dos edifícios por essa Europa fora), e gosto de casas velhas e ruínas, e de as conservar, sem restauro, porque gosto de imaginar a vida de quem lá vivia. De preferência bem. Mas apesar de o homem ser reaça, não tenho dúvidas de que era bom homem, se bem que, sendo inglês vitoriano, tinha de certeza um baú na cave com o esqueleto da nanny com uma faca espetada no craneo.

    • O caramelo faz dos comentários mais deliciosos desta lusa bloga, mas consegue, quando quer, ser um grande chato.
      Raios, ora raios, deixe-se lá de pós-graduações, quero lá saber disso. O interessante nesta vida é cruzar ogivas com peras, aceleradores de partículas com poemas, etc. Quero lá saber do resto, que já me lixou a vida toda e delegou em mim dívidas que nunca cometi e parece que tenho que pagar.

      (ou Brodsky com Ruskin, claro, ressabiados, exiladinhos da silva, one way or the other, o que, em italiano é muito mais aromático 🙂

      • caramelo diz:

        Senhora Grã Duquesa Alexandra Alexandrovna, eu já estou velho, já corri mundo, entrei em muitas guerras e fiz muitas pós graduações, e os velhos são chatos. Há que ouvir os velhinhos com paciência, porque são um repositório vivo das memórias da Humanidade.

  7. henedina diz:

    Faca no craneo entorta, no possibly. Machado?

    • caramelo diz:

      Henedina, usou uma daquelas facas baratas dos chineses, foi? Sim, obviamente agora vai ter de acabar o trabalho com um machado. Se tivesse usado uma boa lâmina, de aço, e enfiado numa sutura entre o osso parietal e o frontal não estava agora com esse problema.

  8. henedina diz:

    meu caro na sutura entre estes 2 ossos posso usar faca se a nanny estiver a fazer trabalho infantil

  9. henedina diz:

    Palpei a minha própria cabeça e acho que tem razão depende da lamina. No meu caso até no meio do frontal (sou dos 10% com sutura metópica).

  10. henedina diz:

    É lactente…;)

  11. joão diz:

    Estive em Veneza e não me lembrava onde estava o Capitel dos enamorados.
    É lindo pensar que houve um tempo em que a vida imitou a arte
    Adorei o post!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: