Cunhal

Nos anos 90, depois da queda do Muro de Berlim e do golpe dos ultras soviéticos contra Gorbachov, todos concordámos – finalmente – que o PCP estava do lado errado da história. A morte, ou pelo menos o espectacular aggiornamento, era uma questão de tempo. Não havia alternativa. Sucediam-se as dissidências, o colapso dos partidos irmãos, a queda dos impérios vermelhos, a defenestração dos grandes líderes… Na Europa, o eurocomunismo desviara há muito os PCs francês, italiano e espanhol da órbita de Moscovo. Só o PCP resistia ainda e sempre à mudança, como a aldeia gaulesa. Um anacronismo que muitos atribuíam ao punho férreo de Cunhal.
E eu também. Parecia-me evidente que, se o PCP não se modernizasse, estava condenado. Tão evidente como a profecia da autodestruição do capitalismo para qualquer órfão de Marx. O PCP, verdade seja dita, ensaiou uma tímida abertura com Carlas Carvalhas. E, durante algum tempo, a lenta mas constante descida de votos pareceu uma inevitabilidade histórica.
Depois veio Jerónimo de Sousa e outra vez a linha dura, o voto de protesto, a recusa de compromissos – o velho PCP. O partido resistiu (uma especialidade da casa) e até cresceu (uma novidade da casa). A agonia do Bloco, que não soube orientar-se no tal mundo pós-político e sem ideologia, ajudou muito. A degenerescência dos “partidos do arco constitucional” fez o resto. A austeridade, como Salazar, foi uma coroa de glória. Hoje, o PCP vale 16% nas sondagens. Mais do que no PREC. Se não desse uma alegria aos poucos camaradas que me lêem, estava capaz de dizer que é a vingança póstuma de Cunhal. Não acredito que este número se mantenha nas próximas eleições, mas já me enganei muito na matéria. Fui dos que previram a extinção do dinossauro, lembrem-se. Ora, ao contrário do que profetizava Marx, não há inevitabilidades históricas. Nem mesmo a extinção de dinossauros.

PP

17 thoughts on “Cunhal

  1. manuel.m diz:

    Antes da queda do muro tinhamos dois sistemas em confronto , o do socialismo dito cientifico e o capitalismo. Com o colapso da urss deixa de haver essa competição e para os capitalistas a social-democracia, e o seu corolário o welfare state, deixam de ser necessarios para combater a expansão do sistema rival.
    O neo-liberalismo não é mais do que o desmantelamento do estado assistencial, tornado demasiado caro para o capitalismo triunfante que dele já não necessita. Mais importante ainda foi retirado ao estado o papel de redistribuidor da riqueza, e o de promotor da mobilidade social, pois a acumulação da riqueza nas mãos de uma minoria passou a ser possivel, aceitavel e até desejavel para o modelo social que as elites metódicamente poem em prática ,(já deverá ter ouvido falar nos ninety nine percenters que se manifestam contra os one percenters, que são aqueles que detêem a quase totalidade da riqueza mundial).
    A votação no PC revela isso mesmo, a revolta da maioria condenada ao empobrecimento, e nos países onde não existe um partido como ele, outras alternativas surgirão e não serão provavelmente pacificas.Veja a entrevista de Jeremy Paxman a Russel Brand na BBC: No espaço de uma semana tinha tido mais de oito milhões de visitas no youtube.
    Portanto PP enganou-se mas não por o PC se ter revelado uma fénix inesperada. Enganou-se sim foi por não ter previsto a ganância cega,desmesurada, cruel e injusta dos seus correligionários.

    • XisPto diz:

      Já o PCP nem vc, suponho, se enganaram quando proclamaram ano após ano o empobrecimento mundial sob o imperialismo capitalista e assistimos ao período histórico em que uma parte substancial da humanidade acede a um mínimo de poder económico criado pelas soluções “neoliberais”. A globalização capitalista nivela o acesso à riqueza, precisamente o contrário do que afirma repetindo uma fórmula propagandista e evitando ler o que os próprios comunistas chineses e cubanos reconhecem.

  2. fernando antolin diz:

    Até nisto estamos atrasados…

  3. joshua diz:

    O PCP faz sentido quando a Corrupção atira com Portugal para a valeta. Dizem que nada têm tido a ver com ela. E é verdade.

    O fogo fátuo da narrativa comunista baixa de volume e de intenções de voto assim que a sociedade se organiza, se acalma e se faz mais justa nos salários, no emprego, no bem-estar.

    Bastarão desempenhos formidáveis na nossa Economia, bons sinais e boas notícias, mês após mês, bastará a justa homologação da nossa vida laboral e económica à dos países mais competitivos e prósperos da Europa e o PCP esvazia o tesão protestatório: na Suécia e na Noruega, por exemplo, não é preciso o cenho sisudo e grave do nosso PCP, a sua falta de humor ou gravitas política, a grande toada dolente e trágica dos grandes pretextos para se zangarem. Ali bastam sindicatos e patronatos construtivos, federadores, do lado da riqueza e não dos direitos a ela antes dela o ser, sem ela, para além dela, como cá, tiques do PREC e das grandes expropriações desastrosas e desastrosas nacionalizações.

    Num Estado carcomido de corrupção e injustiça crassa, como o nosso, o PCP faz todo o sentido antes de eleições. Sob eleições, o PCP perde sempre com grandes vitórias de décimas em comparação com eleições passadas homólogas. A verdade é que há um reduto de protesto, de patriotismo, de ética, no PCP, valores que foram desbaratados pelos partidos do alterne do Poder, na sua avidez, incompetência e dano ao País.

    O dinossauro PCP terá saúde e muitos anos pela frente, como reduto do nosso descontentamento, enquanto os partidos do poder continuarem a acertar na dose e na receita das sucessivas desgraças políticas e nos escândalos e vergonhas em que nos têm mergulhado. Dir-se-ia que esta crise e esta pré-falência é a última oportunidade do Bloco Central se Ajustar ao Severo Juízo que a História e as Gerações querem e podem fazer. Se eu fosse Passos, Portas e Seguro, não perderia a oportunidade.

  4. gandavo diz:

    Claro, claro, o PCP anacrónico, o Bloco em agonia, mas veja-se como era e como pensava a sociedade (e os partidos políticos todos) em Portugal há 30 anos e veja-se como se pensa hoje. Agora rastreiem-se a origem das “causas fracturantes” e digam o que descobriram.
    Veja-se, a título de exemplo, a unanimidade em torno do assunto do Crivelli do Pais do Amaral, esse rico que ousou vender um quadro que era dele.

  5. caramelo diz:

    Para não se ficar perplexo, convém tentar perceber. O nosso comunismo é tão português como o galo de Barcelos (como a louça de Extremoz, pronto). O PCP nem precisou de alinhar com o Berlinguer, naquele célebre congresso em que alguns PC se afastaram do internacionalismo. É por ser português e por Portugal ser português, que o PCP tem agora 16%, enquanto noutros paises praticamente desapareceu, sendo substituído em muitos casos pela extrema diireita (ou onde se misturam, em alegre e fraterno convivio). Deem graças.

    • fnvv diz:

      O nosso PCP era igual aos outros, talvez com menos gindungo e mais jantes especiais.
      O que houve de diferente para Espanha França e Itália foi o 25Abril, que deu ao PCP uma letra de lei. Em nenhum desses países houve Constituintes em que todos os partidos afirmavam caminhar para o socialismo e quase todos queriam privatizar até os snack-bars ( sim tenho os programas do partidos).

      • caramelo diz:

        Então, e isso explica o quê, Filipe? O PCP teve o 25.A, mas o PCF teve o front populaire, o PCI teve o pós guerra, e qualquer um destes teve mais poder efetivo, e mais prolongado, do que o PCP. A constituição já foi descomunistada há muitos anos, resta lá esse apêndice do preâmbulo. Mais socialista e mesmo mais estatizante era a França, com as régies e essas cenas.

      • fnvv diz:

        O PCI foi no pós -guerra, o 25 de Abril foi em 1974, o conselho da revolução durou até aos anos 80. Quantos países havia com essa originalidade?

      • João. diz:

        O PCF teve o Maio de 68.

      • caramelo diz:

        Lá está, originalidades portuguesas, chegámos tarde ou nunca a tudo, ao bom e ao mau, nem fuzilamentos de padres, nem democracia e estado social e finalmente, já o século ia avançado, uma revolução com um conselho da revolução que serviu basicamente para varrer o que estava atrás. Quando se finou, em 82, este país estava longe dos anos de chumbo da Itália e da RFA, por exemplo. A única coisa que eu queria mesmo era acentuar o caráter nacional do PCP, para além das bases teóricas que partilhava com os outros. Também o PC grego, por exemplo, é uma subespécie balcânica diferente da nossa, moldada na guerra da resistência, que teria tomado o poder pelas armas, se não tivesse sido feito entre as potências um arranjo diferente no pós guerra.
        Encontrei as atas do CR:
        http://casacomum.org/cc/arquivos?set=e_3538

  6. caramelo diz:

    “A globalização capitalista nivela o acesso à riqueza”, XisPto? O que eu tenho lido, em benefício da coisa, é que é melhor ter um emprego ainda que mal pago, do que não ter nada. Isso do nivelismo já me parece uma heresia que pode meter coisas na cabeça ás pessoas. Em Portugal já subimos de milionários e temos um resto de população feliz, diz o expresso, porque baixámos as expectativas. Entre dois ou três palhaços e estudantes para palhaço, aparece um senhor que diz que é feliz porque há alturas em que não tem dores. … pensando bem, acabamos por chegar ao nivelismo, sim.

    • XisPto diz:

      Claro que é melhor ter um emprego mal pago do que morrer à fome. Pode não ser politicamente correcto dizê-lo mas é uma evidência e é por isso que p PC chinês ainda não foi corrido. Os cubanos, rumbas à parte, vão pela mesma via, basta ler os discursos do Castro mais novo. Quanto a nós, a globalização também foi boa e começou com a EFTA, embora o Dr. Salazar sempre desconfiasse da coisa, uma evolução tão distante do ideário original, pobres mas honrados, passe a simplificação.

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