Erros.

Clausewitz recomendava que se delineassem estratégias simples contra adversários fortes. A logística é dura, a informação limitada, os maus presságios arruinam a moral dos rapazes, pelo que dois ou três princípios bem aplicados — com a força dos números e panache napoleónica — valiam bem toda a astúcia da tradição helénica. Julgo que era este o argumentário.

Desde o princípio que a direita no poder teve o tempo do seu lado. Uma economia não cai para sempre ou, pelo menos, não cai para sempre sem oscilações. E o guião era de uma puerilidade tocante, memorável e papagueável por todos os cronistas do reino, taxistas e exegetas da bola: Sócrates — homem muito mau — tinha habituado o país a viver acima das possibilidades. Mas graças aos nossos amigos da troika e ao sacrifício benevolente do melhor povo do mundo, estava ao alcance da choldra arrepiar caminho, pagar as dívidazinhas e regressar ao colo brando e afectuoso dos mercados. Neste linguajar infantil se exprimiu diariamente, ao longo de dois anos, a estratégia da fronda de Massamá. E essa estratégia, para triunfar, só precisava de uma confirmação. Chegou agora, com o milagre de 0.2% de crescimento trimestral.

Já a esquerda tinha uma tarefa bem complexa do seu lado. Lá irei no próximo post.

Luis M. Jorge

20 thoughts on “Erros.

  1. XisPto diz:

    Falta a geografia por onde os exércitos se movimentam. Não existe estratégia pura sem circunstancialismos. O erro da esquerda foi/é repetir um conjunto de fórmulas propagandísticas sem conteúdo de gestão alternativa (PCP, BE) ou ficar longe do problema esperando a alternância (PS) procurando ignorar de as circunstâncias e a geografia o farão aplicar a mesma austeridade, ou fazer de Hollande. Mas admiro o seu post a vários títulos. Muito superior à atitude blasé do António Costa e verdadeiramente enjoada do JPP na quadratura. Meu Deus, o que 0,2% podem fazer.

  2. Leitor diz:

    Como o Luís é melhor analista do que eu, gostaria de saber o que pensa sobre um ajuste de contas recente http://abrupto.blogspot.pt/2013/11/como-entao-se-disse-quatro-da-retratam.html e http://corporacoes.blogspot.pt/2013/11/central-de-contra-informacao-vida-e.html.

    Em relação ao crescimento do tamanho de um resíduo estatístico de uma regressão linear, daquelas que os economistas ortodoxos gostam é espera que o OE-2014 entre em vigor.

    Neste intervalo, o FMI deixa o governo fazer de bonzinho http://www.ionline.pt/artigos/dinheiro/governo-diz-se-tem-oposto-propostas-reducao-salarial-fmi, espécie de foguetório para português temer http://pedrolains.typepad.com/pedrolains/2013/11/o-relat%C3%B3rio-do-fmi.html.

  3. jj.amarante diz:

    Errata: Clausewitz

  4. Ra-Ta-Ta diz:

    Escreva o seu comentário aqui…

  5. Jörg diz:

    Desculpe lá, mas isto parece argumento da lampionada quando tudo justificam com o Apito Dourado e o Sistema. Esperava mais, pois jogos florais de tarefeiros da ‘prensa’ desportiva de Lx não são bem análise.
    Na politica. este mal perder encontra correspondência numa síntese que ouvi nas Beiras – é a chamada “dor canhota de chavelho”.
    Para mais eu – e muito boa gente (não estou a falar do empreendedor ministro ou do senhor de feiras e mercados – ainda não estou nada convencido de “pernas para andar”, pois ainda caminho de canadianas e cadeira de rodas.
    Ou seja, tenta ainda insuflar as virtudes do tempo – o tal aliado das direitas, porque os devires positivistas são o que são, sem grandes ajustes a realidade onde o tempo é parâmetro – para acumular o “leverage” que lhe permitirá dizer, amanhã, que hoje se falava em ganhar desde os 100 metros até á maratona nos jogos Olimpicos do Rio.
    Por mim ja topei a ‘ténica’….

  6. caramelo diz:

    Já desdenha os 0,2%, XisPto? Está a ficar blasé😉 Ânimo, homem, o cinismo é contra-revolucionário. A máquina é uma das sete maravilhas do mundo. Não há lá parolos, são verdadeiramente génios, unidimensionais, mas por isso mesmo altamente especializados. Nenhum faria passar com mais eficácia a mensagem de que nenhum outro partido, ou terráqueo, faria diferente do nosso governo. Primeiro passo, despachando o mais fácil: coloca-se o Bloco e o PCP a falar do fundo de um poço. Renegocia-se a dívida e mais quê? Digam? Isso não é sério e para mais estão a ficar sem rede. Siga. Segundo passo, chama-se o sócio minoritário, o PS, para o diálogo e pergunta-se: corta-se aqui 5% ou 5,2%? Concordam que estas medidas sejam permanentes, ou falta-vos patriotismo? Têm de responder depressa, que estão lá fora uns homens de preto impacientes à espera. Reúne-se com os parceiros sociais, uma espécie de casamento à moda antiga. O marido comunica ao jantar como vai ser gasto o orçamento familiar e deixa a mulher emitir uns suspiros, uns leves protestos e umas propostas, encerrando, no fim: está então decidido e vou-te comprar uns brinquinhos novos. Ora, sim senhor, Maria Amélia, gostei desta nossa conversa. Vês como somos um casal diferente? Se eu fosse outro, já tinhas levado um par de lambadas, filha.

    • XisPto diz:

      Touché, Caramelo, mas não creio que seja cinismo. Não desdenho nada e não tenho muitas ilusões, tendo a ser cético, por isso os militantes convencidos ou os homens políticos profissionais me causam urticária, mas temos de viver com isso enquanto não se encontrar melhor sistema, o que inclui apreciar a sua descrição da situação que capta aspectos que não me custa subscrever, para que não tenho a sua arte e engenho. Os números dizem unicamente que deixamos de cair e isso é objectivamente bom no meio de tanta desgraça. O foguetório que vai por aí por parte do governo e a reação azeda das oposições são chocantes. O meu ponto é que continuamos básicamente na situação que a carta do Gaspar retrata: falhamos as metas do programa e podemos estar em vias de falhar o programa (crise Portas, impossibilidade de cortar despesa, recessão internacional, segmentação do mercado bancário, paralização da união bancária e de outras formas de renegociação soft da dívida, tantos outros etc que podem determinar se saímos do euro ou não).

      • caramelo diz:

        XisPto, é nossa obrigação enfiar-lhes um foguetório com foguetes e fogo preso pelo cú acima, tal como fosse o fim de ano na madeira, coisa linda, porque eles não sabem o que andam a fazer e ainda nos lixam a vida.

  7. polittikus diz:

    O Governo é mau, porque oposição ajuda com a sua incompetência. O problema base do Partido Socialista é o seu fraco líder, a ausência de convicções e de um programa capaz de mobilizar alguém em sua volta. Ou seja, em Portugal, como em França, o socialismo carece urgentemente de um líder carismático e convencido das suas ideias.

    Todos dizem que é pouco, todos dizem que está mal, mas ninguém apresenta soluções crediveis para o problema. Parecem, António José Seguro, sempre do contra, sempre a dúvidar, mas sem apresentar qualquer alternativa credível.

    • Pois. Deve ser aquela coisa do “carisma”.

    • caramelo diz:

      Pá, politikus, isto assim também já é democracia a mais. Parece um professor que tive no ciclo que fazia assembleias gerais de turma para decidirmos que notas dar aos colegas.. Haja um mínimo de autoridade, senhor! Eles não têm a maioria absoluta, um presidente, um povo e convicções fortes? É um poker de ases. Então, governem, caminhem. O PSD para governar precisa que o PS tenha um líder forte? E lá o Viriato precisava que o totó do monte ao lado tivesse um líder forte, para governar? Assim, não saímos da cepa torta. Só por causa desse seu comentário, subiram os juros 10%.

    • Miguel diz:

      Com carisma há o Jean-Luc Mélenchon. O único problema (para alguns) é que ele destoa com os socialista actuais pois é mesmo socialista.

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