O Homem que Era Quinta-Feira

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A propósito do Meeting de Lisboa: Sejam Realistas, Peçam o Impossível, a decorrer este fim-de-semana, os meus amigos do movimento católico Comunhão e Libertação pediram-me um artigo sobre O Homem que Era Quinta-Feira, o mais famoso romance de Chesterton. Aqui fica, esperando que dê a alguém a vontade de o ler (ou reler).

G.K. Chesterton publica O Homem que Era Quinta-Feira em 1908, curiosamente o mesmo ano de Ortodoxia, outro dos seus grandes livros. O inglês não era então um desconhecido. Escrevera já crónicas, contos, poesia, um romance (The Napoleon of Notting Hill) e sobretudo Heretics, volume de crítica a Kipling, H.G. Wells, Oscar Wilde, George Bernard Shaw e outros contemporâneos ilustres. A popular série policial do Padre Brown, que inicia em 1911, confirma-o como um mestre da ironia e do paradoxo. Nas décadas seguintes, viria a tornar-se um dos mais influentes autores do mundo anglófono e a sua obra marcaria Tolkien, C. S. Lewis e Jorge Luís Borges, entre muitos outros.
Mais de um século depois, O Homem que Era Quinta-Feira parece ter ganho nova actualidade com o 11 de Setembro e a “guerra ao terror”. Mas engana-se quem o leia apenas como uma história de espiões. A acção decorre em Londres e tem por protagonista Gabriel Syme, poeta e agente secreto da Scotland Yard que consegue infiltrar-se no Supremo Conselho Anarquista graças à imprudência de Lucian Gregory, o poeta da revolta. O Conselho dirige “uma conspiração intelectual que ameaça a própria existência da civilização”. Presidido pelo terrível Domingo, todos os seus membros têm o nome de um dia da semana. Syme é Quinta-Feira. A aventura que se segue é uma revelação. Ou a Revelação. Syme descobre que nenhum dos anarquistas é o que parece, que Domingo não é o que parece e que o mundo não é o que parece. Por fim, depois da mais delirante sucessão de acontecimentos, encontra resposta para a pergunta que o tinha levado a comprometer a vida na “batalha do Armagedão”: porquê? Porquê o mal? Porquê o mistério? Porquê a realidade, tão espantosa que “talvez nem os arcanjos compreendam o tucano”?
O Homem que Era Quinta-Feira é, pois, um thrilller metafísico. Os polícias são filósofos: não perseguem apenas criminosos, mas a verdade. A sua aventura é a busca de sentido. A defesa da lei e da ordem é a defesa do universo contra o absurdo. Quem é Domingo, que diz de si próprio “conhecereis a verdade sobre a última árvore e a mais alta nuvem antes de me conhecerdes, compreendereis o mar e eu serei ainda um enigma, sabereis o que são as estrelas e não sabereis o que eu sou”? Deus? A natureza? A Humanidade? E se Gregory é “o verdadeiro anarquista”, pois todos os outros – incluindo Domingo – não o são, significa isso que não podemos distinguir o bem e o mal? E as referências constantes ao sonho, desde o bairro de Saffron Park, para o qual somos convidados a olhar “na sua “atractiva irrealidade”, até ao jardim da última página onde Syme “acorda de uma visão”, caminhando ao lado de Gregory e “na posse de uma impossível boa nova que fazia de tudo o resto uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade”? E o intrigante subtítulo: Um Pesadelo? Um pesadelo para quem? Para Syme? Para nós?
A solução do enigma seria dada, em parte, pelo próprio Chesterton na Illustrated London News, um dia antes de morrer. A 13 de Junho de 1936, horas antes da “boa nova” definitiva, Chesterton confessava ter querido “descrever o mundo de dúvida e desespero dos pessimistas, mas com um raio de esperança no sentido incerto da dúvida que até os pessimistas sentem de modo vagamente certo”. O pesadelo é o nihilismo do seu tempo, essa visão de um mundo sem sentido do herege moderno.
A este pesadelo, só a fé na realidade, a que chama “patriotismo cósmico” na Ortodoxia, pode responder. Contudo, não é uma fé que o homem se dê a si próprio. “Desde o princípio do mundo todos os homens me acossaram como um lobo – reis e sábios, poetas e legisladores, todas as igrejas e todos os filósofos. Mas nunca me apanharam e os céus hão-de cair quando eu voltar a casa”, proclama Domingo. “O mistério de Domingo e o mistério do mundo”, em que vemos as costas das coisas e pensamos que o rosto não passa de uma máscara, ou vemos o rosto por instantes e pensamos que as costas são apenas uma piada, segundo Syme, só à luz de uma fé revelada ganha sentido. Quando os membros do Conselho chegam ao baile de máscaras final e vestem os trajes designados, sentem “uma curiosa liberdade e naturalidade de movimentos”. Estas roupas fantásticas “não escondem, revelam”, e a narrativa da Criação do Génesis explica a verdade de cada dia da semana, ou seja, a verdade cada homem na história.
Mas a fé sobrenatural não poupa os crentes ao sofrimento. É um salto tão heróico no desconhecido como a luta de qualquer revolucionário contra injustiça. Após a festa, Gregory comparece diante dos “filhos de Deus” e amaldiçoa-os “porque estais a salvo e nunca descestes dos vossos tronos de pedra”. Syme diz que é uma “mentira” e uma “blasfémia”. Ele esteve só no “terrível Concílio dos dias”, desceu “até ao inferno” e experimentou “a glória e a solidão do anarquista”. A dor humana ganha razão de ser no combate, nunca definitivamente vencido, por um bem maior. Um combate na incerteza porque nasce de um mistério: a encarnação. Fazendo-se homem, Deus participa no seu mistério das criaturas O Homem que Era Quinta-Feira termina no mesmo jardim de Saffron Park em que começara. Syme vê ao longe o cabelo ruivo da irmã de Gregory, “um motivo musical recorrente em todas as suas loucas aventuras”. Mas, antes, Domingo ascende aos céus e o seu rosto cobre o firmamento. Então, Syme ouve “uma voz distante repetir um lugar-comum que já ouvira algures: Podeis beber do cálice que eu hei-de beber?” Na cruz, a experiência do mal e o desejo do bem unem-se na pessoa de Cristo. O Criador é a resposta ao mistério da criação.

PP

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