Reflexões sobre a violência*

violence
O que me surpreende nos apelos mais ou menos discretos à violência no conciliábulo da Aula Magna não é o tom antidemocrático da coisa. Em Portugal, desde o 25 de Abril que a esquerda põe em causa a legitimidade de qualquer maioria que não seja sua. Foi assim no PREC, foi assim com a AD, foi assim com os governos de Cavaco e foi assim com Cavaco na presidência. Para a esquerda, a democracia parlamentar só é “o pior sistema exceptuando todos os outros” quando o voto a coloca no poder. Se, por qualquer razão perversa e misteriosa, a direita ganha as eleições, então o governo tem de ouvir “a voz da rua” e a legitimidade formal de uma maioria em Belém ou em S. Bento cede de imediato a uma difusa legitimidade moral que, convenientemente, apenas os profetas canhotos sabem ler no céu. Em Portugal, a esquerda considera-se dona do regime democrático – sem compreender que a democracia é um regime sem donos. A direita tem de provar continuamente o seu direito de cidade. Qual é a diferença entre isso e as democracias censitárias do século XIX, em que só os ricos tinham o privilégio de votar e governar? Uma: os ricos tinham melhores maneiras.
Nada disto me surpreende. O que me surpreende é que gente sempre tão modesta a lembrar-nos o seu papel na construção do regime (inegável) não se aperceba do seu contributo para destruir o regime com os apelos à “paulada”. Já se esqueceram que houve outro capitão de Abril que passou das palavras aos actos, fundando uma organização terrorista? Já se esqueceram do PREC? De que a retórica era a mesma, mas os alvos eram eles – Soares, o PS, Vasco lourenço, o Grupo dos Nove, em suma, todos os moderados vendidos ao grande capital e à contra-revolução? Já se esqueceram da Primeira República, com os discursos incendiários que acabavam, tarde ou cedo, em golpes militares e “noites sangrentas”? E que levaram o o país, fartinho dos republicanos, a suspirar de alívio quando chegou a ditadura que prometia a ordem?
Talvez se tenham esquecido. Oxalá não tenham que recordar-se da pior maneira. E se isto parece uma ameaça, corram-me à paulada.

*Com a devida vénia ao Sr. Sorel.

PP

28 thoughts on “Reflexões sobre a violência*

  1. Miguel diz:

    Pedro, o seu post ganhava em pertinência se quisesse aqui deixar devidamente citados os apelos à violência que quer denunciar.

    • ppicoito diz:

      O de Vasco Lourenço: ou o o Governo sai ou é corrido à paulada.
      O de Soares: se não se vão embora pelo próprio pé, serão responsáveis pela onda de violência que também os atingirá.
      O de Helena Roseta: quando o poder é violento, a violência do povo é legítima.

      • Miguel diz:

        Se essas citações forem exactas, nem a segunda nem a terceira são incitamentos à violência. A primeira citação, tomada assim isoladamente, é ambígua.

  2. João. diz:

    Desde 1976 parece-me que o PSD é o partido com mais anos de governo, sendo com certeza o que tem maior número de PMs.

    • ppicoito diz:

      Claro. Só não seria ambígua se fosse o Le Pen a dizê-la.

      • Miguel diz:

        Você está pior que o Vasco Gonçalves se pensa que o Mário Soares e a Helena Roseta andam por aí a apelar à violência. Quanto a incoerências, imprecisões e baralhações na argumentação o Pedro vai fazer boa companhia à Marine Le Pen. Primeiro, a Helena Roseta foi durante muito tempo militante do PSD. Segundo, na sua linha de análise esquerda-direita, a direita tem muito que agradecer ao Mário Soares pelo contributo que ele deu para a pacificação durante a transição para a democracia em 1974-1976 e até em outros momentos menos criticos como em 1985-86 e em 1987 quando Mário Soares recusou o governo alternativo à esquerda e abriu a porta à primeira maioria absoluta da direita. Ficamos conversados quanto à validade de: “a esquerda põe em causa a legitimidade de qualquer maioria que não seja sua”.

  3. ppicoito diz:

    Talvez, não fiz as contas. E então?

    • João. diz:

      É que parece, pelo que você escreve, que a direita mal conseguiu governar em Portugal. E contesta também a ideia, não propriamente sua, mas mais da militância do actual governo, que foi o socialismo que falhou em Portugal – é que cerca de metade dos governos desde 1976 foram de direita.

      • Jorge diz:

        de direita poucos,

      • João. diz:

        Interessante. Você aparece com uma choradeira que a esquerda não deixa a direita livre para governar. Eu aponto-lhe o facto da direita,ou seja o PSD, ter governado tantos ou mais anos que o PS e você acha que não tem nada a ver?!

  4. ppicoito diz:

    Pois não, é uma chatice. Era muito mais giro se eu tivesse dito aquilo que diz que eu disse, não era?

    • fnvv diz:

      E quando o Soares achava que a violência era uma vergonha? Ora vê:
      http://dre.pt/pdfgratis/1983/10/24502.pdf
      ( via insurgente,mas qualquer maduro se recorda – em minha casa chamavam-lhe lacaio do capital))
      Bem, é claro que em 1983 quem pagou o “ajustamento” foram os ricos. Soares temia que os rico soltassem os iates nas ruas.
      É só rir.

  5. caramelo diz:

    A direita tem primeiro que se libertar do seu antigo complexo de esquerda. Que pareça á direita que a esquerda está constantente a dizer que não tem legitimidade, é sintomático. A esquerda diz, como é óbvio, que tem um melhor projeto de sociedade e também, mal fora, quer que votem nela. Que muitos de esquerda digam também que a sua politica é moralmente superior, é natural e não vem mal ao mundo por causa disso. Também a direita diz que a esquerda quer corromper as criancinhas e destruir os alicerces da família e da sociedade, etc. Os juízos sobre a moral sempre fizeram parte da politica e antes assim. Eu, como gajo de esquerda, digo isto: antes a direita histórica, moralista, do que a direita dos economistas, as dos camilos lourenços. Com a primeira a conversa é dura, mas ao menos há conversa.
    Quanto aos avisos sobre a violência, é uma tradição antiga e nobre e não há que ter medo. Até o Thoreau, um dos apóstolos da desobediência civil, pacifista, defendeu que em certas circunstâncias a violência deve ser usada. Mas nem sequer foi isso que aconteceu, nem a violência surge numa sociedade como a nossa através de incitamentos. Ninguém vai sair de casa à paulada por causa do que ouviu no congresso. Se alguém sair à paulada é simplesmente porque tem razões para isso. O Soares e a Roseta fizeram avisos que, no máximo, podem ser considerados infundados, e o Vasco Lourenço é… o Vasco Lourenço, um tipo um bocado desbocado e com um bocadinho de vaidade a mais. Se não fosse ter de facto razões para se envaidecer, aí sim, seria insuportável. Mas as palavras de todos eles eles vão entrar na mitologia como aquela célebre frase truncada do Otelo sobre o campo pequeno. Correu de boca em boca, até se assentar como facto que o Otelo tinha um plano para colocar a direita no campo pequeno e fuzilá-la.
    Mas se a direita está de facto tão preocupada com o que se disse no congresso, e isto tudo não é “fazer género”, como dizem os brasileiros, tem uma solução.é ir fazer queixa daquela gente á policia.

    • XisPto diz:

      Caramelo: desculpe, mas, mesmo descontando a forma com que normalmente aborda os assuntos (abaixo o cinzentismo e a simples reverberação do comentário mainstream!) penso que a maneira como relativiza e desculpabiliza as afirmações de pessoas que têm peso e responsabilidades no espaço público vai parra além do que é aceitável Não se trata só da retórica e disputa política normais. Estamos a falar de coisas muito sérias e embora os paralelos com a I República não sejam mecânicos e as circunstâncias sociais e históricas muito distintas, convém não esquecer aonde conduziu o jacobinismo, como muito bem é lembrado na parte final do post.

      • Daniel diz:

        As pessoas têm a responsabilidade que lhe atribuírem. Não conheço muita gente que ligue ao Mário Soares nos dias que correm, muito menos sabem que houve algo na Aula Magna. Como cereja em cima do bolo, até a minha avó de 86 anos diz que o homem está velho e senil…

      • caramelo diz:

        Xis, eu não sou realmente maluco, sou um tipo ponderado, até por deformação profissional; como jurista aprendi a pesar bem os conceitos e as palavras. É por isso mesmo que não concordo nada com os que fazem comparações com a primeira republica, revolução francesa e não sei que mais, por um lado, nem concordo com os que naquele congresso dizem que o povo se revolta. Não se revolta nada, mais facilmente implode, e já o disse. Mas nada disto é matéria crime, nem nos coloca em risco, é questão de opinião, de debate politico.

    • ppicoito diz:

      A queixa à polícia seria ridícula porque nenhum tribunal português condenaria Soares por ter dito aquilo. Só haveria problema se o Mário Machado dissesse “os gays que deixem de andar pelo Chiado, ou serão respensáveis por uma onda de violência que os atingirá”. Isso é que seria incitamento à violência, claro.
      A esquerda não diz que tem um projecto de sociedade melhor do que a direita: a esquerda diz que é moralmente superior à direita (o que a leva a ser muito mais tolerante com as próprias falhas, paradoxalmente).
      O Otelo e o Campo Pequeno é um excelente exemplo de tudo o que estou a dizer. Mitologia? Frase truncada? Os mortos das FP 25 também são mitologia? Ou não passam de excessos pitorescos de outro desbocado?

      • caramelo diz:

        O pior que se ouviu foi do Vasco Lourenço: “Ou saem a tempo ou vão ser corridos à paulada”. É condenável, não o devia ter dito, mas não o comparo ao Mário Machado e muito menos o faço em relação à Roseta e ao Soares, nem meto aqui os mortos das FP25. Se estamos a discutir bom senso, se queremos ponderação, que o seja também nas comparações. Já não sei quem quer meter medo com quê e a quem. Se o povo não tem vontade de pegar em armas e mocas por causa do Soares, também certamente não o vê como uma espécie de Marat a querer incendiar os sans coullote.
        Isto também tem a ver com a discussão sobre a legitimidade dos governos eleitos e o direito à revolta do povo contra governos eleitos, coisas que provocam tanta urticária. Como princípio está inscrito na constituição americana (o direito ao uso de armas tem essa raiz, apesar de agora dar para tudo) e sempre foi visto como princípio constitucional universal, ainda que não escrito. Pode discutir-se se é adequado ao momento presente, se essa é a vontade real do povo, etc. não me parece é razoável condenar isso no próprio plano dos princípios, como se fosse uma marca da extrema direita ou da extrema esquerda.
        A queixa contra o Soares seria ridicula, não porque nenhum tribunal português o condenaria, mas porque a queixa em si seria ridicula, como (parece-me) todos sabemos. De resto, uma boa causa perdida em tribunal, nunca é ridicula.

  6. cristiana fernandes diz:

    E esta gente a dar-lhe. Será que ainda não conseguiram perceber que o maniqueísmo esquerda/direita não leva a nada ? Há coisas boas na esquerda e há coisa boas na direita. acho que um qualquer exercício de inteligência passa por aí e nesse aproveitamento é que estará a justeza da necessária solução para o país .Ai egos, egos….

    • ppicoito diz:

      Pois, sou um primário. Se calhar, até sou de direita.

      • cristiana fernandes diz:

        Com todo o respeito, não se deve levar tanto a sério, como soy dizer-se. “Há mais vida para além de nós”! Não faço críticas ad hominem- apenas pretendo contribuir (sem pessoalizar) para a discussão dos temas que acha por bem postar. Mas confesso que tenho sempre receio – porque reage sempre pessoalmente. Não me passou pela cabeça nem passa nem passará achá-lo “um primário”. Se achasse, pode ter a certeza, que “nunca ligaria aos seus posts”…

    • gandavo diz:

      Sim, sim, devemos ser todos amigos e dar as mãos por Portugal. O pior é o resto…

  7. Lucklucky diz:

    “Quanto aos avisos sobre a violência, é uma tradição antiga e nobre e não há que ter medo.”

    Caramelo é interessante como a esquerda fica tão auto-compreensiva, tão leve, tão etérea quando se aponta as suas declarações violentas.

    Se a manif na Assembleia com a subida das escadarias, os discursos na Aula Magna no fossem feitas pelo lado oposto uns luso-Tea Parties, neo-liberais… ou no lado paralelo os primos concorrentes directos da Esquerda em direcção ao totalitarismo como as diversas Frentes Nacionais a sua conversa seria outra.
    Já estaria em risco tudo e mais alguma coisa.

    • Miguel diz:

      Boa, a Helena Roseta e o Mário Soares indicam a direcção para o totalitarismo. Lucklucky, o comentador que dispara mais rápido do que a sua própria sombra e, na senda de Rantanplan, derruba mais um espantalho.

    • Daniel diz:

      As suas comparações falham na inconsequência desta esquerda. Se fosse um luso-Tea Party, nas primeiras 2 vezes ainda seria levado a sério. Imagine neste caso um “que se lixe a troika”. Já no caso das Frentes Nacionais, a história pesa muito contra. Da ultima vez que estes chegaram ao poder em diversos países no mesmo espaço de tempo houve a 2ª guerra. Imagine neste caso os comunistas, quase extintos no ocidente e inclusive perseguidos num país que gosta de se orgulhar em ser a terra da liberdade…

    • rui diz:

      mas não foram e então isso leva-nos onde? a dizer que o ‘projecto de sociedade’ da frente nacional ou tea parties não é xenófobo e racista e primário a todos os níveis?

      por outro lado, por estas bandas a ‘direita’ usa de outras estratégias para chegar ao pote. vai direita ao negócio.

    • caramelo diz:

      Luckyluky, não me incomoda nada que os luso-tea parties digam o mesmo que disse o Soares. Isso até seria um grande up grade civilizacional no discurso desses Cro-magnons.

  8. João. diz:

    Após inúmeras críticas e reclamações em todo o tipo de orgãos de comunicação social contra as declarações de Mário Soares e Vasco Lourenço, a direita diz que Mário Soares e Vasco Lourenço fazem declarações incendiárias e ninguém critica e reclama.

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