Erros, 3.

Imaginemos, portanto, um estratega. Secretária de mogno, vista para o rio, copo de porto vintage na mão, perscrutando um mapa da pátria ditosa com olho de lince até erguer o dedo, que volteia longamente antes de poisar num gesto imperioso sobre o ponto exacto em que as linhas inimigas irão ceder à pressão dos nossos heróis. Certo? Errado.

A estratégia é uma matéria suja, uma das artes menos adornadas pelo intelecto (o facto de ter sido entregue a militares não ajudou). Nos negócios é contaminada pelo culto da personalidade, a burocracia do planeamento, pelas relações de poder e pelo acesso a consultoras vulneráveis aos receituários da estação. Mintzberg mapeou o território, para quem guarda algumas ilusões.

Na política ainda é pior. Porque o enlace da política com a retórica encoraja o vício que Richard Rumelt designou por “fluff”:

Fluff is a form of gibberish masquerading as strategic concepts or arguments. It uses “Sunday” words (words that are inflated and unnecessarily abstruse) and apparently esoteric concepts to create the illusion of high-level thinking.

Além disso, a natureza muito negociada da actividade política conduz a outro fenómeno habitual: a relutância em reconhecer os desafios.  Os desafios, em sentido próprio, alteram o status quo.

Ora, esta mistura de tretas com pusilanimidade desemboca no grande erro dos núcleos partidários: o de confundirem objectivos com estratégias. “Mais tempo e mais dinheiro” não é uma estratégia. “Ir além da troika” não é uma estratégia. “Salvar a constituição” não é uma estratégia. Qual a diferença entre um objectivo e uma estratégia? Os objectivos pertencem ao domínio da abundância (podemos acumulá-los), as estratégias ao domínio da escassez (temos de escolher).

Na maior parte dos casos, a elaboração estratégica decorre de um estado de necessidade. A estratégia é uma consequência da dor, actual ou iminente. Por isso, nestas reflexões breves sobre os caminhos que se abrem para a esquerda é fácil intuir a pergunta inicial:

Onde é que dói mais?

Luis M. Jorge

7 thoughts on “Erros, 3.

  1. João. diz:

    “Fluff is a form of gibberish masquerading as strategic concepts or arguments. It uses “Sunday” words (words that are inflated and unnecessarily abstruse) and apparently esoteric concepts to create the illusion of high-level thinking.”

    – Isto aqui, a meu ver, depende…; se falamos de documentos internos para círculos restritos não há razão para o fluff, porém à medida que o público alvo aumenta pode ser do interesse do núcleo duro introduzir algum fluff para ter maior margem de manobra com o texto, com os seus efeitos e os objectivos específicos a que se propõe.

  2. XisPto diz:

    “It’s the economy, stupid.”. Belo post.

    • Acredita nisso? Que “é a economia”? Pense ao contrário: se a política funcionasse, não estaria a economia bem melhor?

      • XisPto diz:

        Acredito. A esquerda que aspira ser governo está encurralada porque os gloriosos anos do capitalismo ocidental acabaram e ela deixou de ser a protagonista principal da divisão do bolo, isto é, do progresso social, da sociedade de bem estar.

  3. Leitor diz:

    Estas propostas http://sol.sapo.pt/inicio/Politica/Interior.aspx?content_id=93352 parecem quase de um esquerdista moderado. O tempora o mores…

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