Calma, Odete.

O Pedro introduz aqui um simile para ilustrar o sempre revisitado desvio esquerdista da nossa cultura política:

Então façamos um teste. Imaginem, por momentos, que a expressão “vamos correr com eles à paulada” era usada por Paulo Portas. Não faltariam comentadores indignadíssimos nas televisões, nos blogs, nos cafés, a clamar que a direita lusa descende em linha recta do Professor Salazar e do senhor D. Miguel, que estamos à beira de uma ditadura fascista e que “por menos do que isto mataram o D. Carlos”

Para grande surpresa dos leitores, devo discordar do meu companheiro de blog.  Julgo que o paralelo entre Vasco Lourenço e Paulo Portas não possui justificação histórica ou institucional. A Paulo Portas correspondem por mérito próprio líderes partidários, como Tó Zé Seguro, Jerónimo de Sousa ou Catarina Martins. Não os tenho visto prometer paulada ao Governo, excepto a que metaforicamente lhe é devida em urnas ou greves gerais. Pelo contrário, parecem-me sofrer de excessos de urbanidade que se aproximam por vezes de um temor reverencial.

Se o Pedro me permitir, recomendo-lhe que considere outro espelho mais simétrico da idade, do percurso político e do linguajar colorido de Vasco Lourenço: Alberto João Jardim, por exemplo. E como a complacência com que é recebido nos serve de critério para estas avaliações, talvez o Pedro concorde que afinal existe um desvio de direita na nossa cultura política.  

Eu próprio, homem de esquerda, sofro horrores quando tenho de demonstrar o meu amor pela humanidade.

Luis M. Jorge

Anúncios

29 thoughts on “Calma, Odete.

  1. ppicoito diz:

    O alberto joão é a excepção na direita, o vasco lourenço é muito mais a regra na esquerda. O alberto joão não é militar, nunca encheria a aula magna e diz disparates mesmo quando está no poder. A esquerda, pelo contrário, ganha um súbito amor à ordem quando regresa ao governo. Etc.

    • “O alberto joão é a excepção na direita, o vasco lourenço é muito mais a regra na esquerda.”

      Hahaha, querias. Há quarenta anos que a direita invoca Vasco Lourenço quando precisa de um trauliteiro marxista. Nós ainda temos o César das Neves, o Alberto Gonçalves e toda a geração de “O Diabo” em arquivo para rebuscar. Mas claro que a direita sempre foi mais educadinha, mais aperaltada, isso é um adquirido.

      E quanto ao “súbito amor à ordem” de Vasco Lourenço se ascendesse ao poder, meu caro, talvez seja melhor não apostarmos.

      • Nuno Vasto diz:

        “Há quarenta anos que a direita invoca Vasco Lourenço quando precisa de um trauliteiro marxista”
        Luís, não está a confundir o Vasco Lourenço (que nunca foi marxista e que foi um dos apoiantes do 25 de Novembro) com o mítico e já falecido Vasco Gonçalves?

      • Não, para imensa gente é igual.

  2. ppicoito diz:

    Nao. Se quero um trauliteiro marxista, posso sempre
    ir buscar o Otelo (por sinal, amnistiado por Soares). não tens para a troca com este, pois não?

    • Hmmm, havia uns tipos no DN do tempo do Santana, mas não devo ser injusto para o Otelo. Eu quando quero embirrar não procuro um trauliteiro, prefiro tipos amáveis e psicopatas como o Camilo Lourenço.

    • caramelo diz:

      Luís Jorge, para a troca eu estava tentado a indicar o Cónego Melo, mas este género vive e morre em santidade e até os socialistas lhe erguem estátuas. Não conta

      • É verdade, esse não vale.

      • ppicoito diz:

        O cónego Melo, que eu saiba, nunca foi condenado em tribunal por terrorismo. O Otelo foi. Talvez faça uma certa diferença, com estátua ou sem estátua. Por falar nisso, espero para ver se haverá tanta comoção quando erguerem uma estátua ao Otelo no Campo Pequeno. Tenho a certeza que o Caramelo estará na primeira linha dos protestos.

      • caramelo diz:

        Pois, não foi condenado, não senhor, nem o Ramiro Moreira. etc e contra factos não há argumentos. Acho que já tivemos esta discussão em tenpos. Quanto a estatuária em Portugal, dava um debate interessante.

      • Miguel diz:

        “contra factos não há argumentos”

        caramelo, desculpa mas há: o Papa apelou (ok, alertou para os perigos) à violência (facto 1), mas não o fez na Aula Magna (argumento 1), logo está tudo bem (e os pobres dele são dos bons); o Mário Soares apelou (ok, alertou para os perigos) à violência (facto 2), mas não o fez na Aula Magna (argumento 2), e os pobres dele são maus (daqueles que ainda têm uns trocos para ir ao cabeleireiro de quando em vez e fazer umas chamadas — não têm carteira profissional). Corolário: o Mário Soares é um perigo para a democracia e o Papa absolve-a e abençoa-a. You see? QED. 😉

      • Miguel diz:

        aaaaah… gralha na demonstração, devia ser: (…) o Mário Soares apelou (ok, alertou para os perigos) à violência (facto 2), e fê-lo na Aula Magna (argumento 2) …

      • caramelo diz:

        O Soares, pá, estava a apelar à revolta dos burgueses, pá, da aula magna, pá, gente que aplaude a abanar colares de pérolas, pá, contra o povo, pá. Olha lá se ele foi para a varanda, pá, falar ao povo, pá, de braços abertos. cambada, pá, mas o povo topa-os, pá. Aquele, pá, o Francisco, o papa, pá, ainda agora disse que o povo ainda se revolta contra o Soares e os burgueses da aula magna, pá. Ouçam o papa, pá.

  3. ppicoito diz:

    é a vossa sorte.

    • A “nossa”, tipo sorte de benquistas? Ou a “nossa” de gajos que vão das FP25 às viúvas do José Sócrates? Apesar de tudo ainda gosto de algumas subtis distinções internas, a menos que no “vocês” também gostes que te puxem para o lado da carcaça do Salazar.

  4. Leitor diz:

    O Luís, em tempos, publicou uma análise sobre o futuro dos media está na altura da comparação os últimos dado empíricos http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/antonio_mosquito_compra_67_da_construcoes_soares_da_costa_e_entra_na_controlinveste.html.

  5. ppicoito diz:

    nao é preciso que me puxes para a carcaça do Salazar. Há muito quem o faça por ti. Sei que não é o teu caso, mas pensei que estavas a representar a esquerda.

  6. Carlos diz:

    Para além da troca de mimos, cromos e nomes, parece-me que a questão essencial, como diria alguém que não embaraça o Luis, é outra. É aquela que o Pedro aludia no seu post original. Neste regime a direita, mesmo que com maioria absoluta nas urnas, está sempre sujeita a provas diárias de legitimidade. A esquerda não, basta uma qualquer maioria relativa.

  7. caramelo diz:

    É curioso como, no padrão de pesos e medidas, a referência da esquerda é o Otelo ou, na versão mais benigna, o Vasco Lourenço. Na direita a referência é aquele senhor de tweed que mastiga torradas ao pequeno almoço, enquanto lê a spectator. Esquerda civilizada é aquela que tem alguns desses genes de direita. Quando começam a querer inquietar o povo, já descarrilam. O Alberto João é da espécie direita insular, com um gene da banana, primo por afinidade em terceiro grau da direita continental, que o visita de quatro em quatro anos.
    Luís Jorge, já agora, muita coisa separa o Vasco Lourenço do Alberto João. O Vasco Lourenço, depois de fazer o que tinha a fazer, remeteu-se a uma associação e a animar tertúlias. O Alberto João tem o percurso glorioso que se conhece, desde pequenino. Na linguagem colorida são parecidos. Mas quando o Alberto João diz “corram-nos daqui”, o alvo tem tendência a correr mesmo. O Vasco Lourenço é o comediante de vaudeville que indigna e aterroriza as senhoras e os cavalheiros.

  8. Fernando Lopes diz:

    Luís, não quererá dizer “temor reverencial”?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: