Metáforas

images
A complacência com que têm sido recebidos os apelos à “paulada” de Vasco Lourenço, ou a legitimação da violência de rua por Helena Roseta, ou as ameaças de Mário Soares ao Governo, é apenas um sintoma do tal desvio para a esquerda da nossa cultura política. Não é um caso exclusivamente português, de resto. Desde a Revolução Francesa que a esquerda é portadora da utopia e do progresso, mesmo que a utopia e o progresso se traduzam em milhões de mortos. A direita, pelo contrário, tem de provar sempre o seu amor à Humanidade, como se queixava Aron em causa própria, mesmo para exigir impostos mais baixos ou o direito de educar os filhos.
Exagero? Então façamos um teste. Imaginem, por momentos, que a expressão “vamos correr com eles à paulada” era usada por Paulo Portas. Não faltariam comentadores indignadíssimos nas televisões, nos blogs, nos cafés, a clamar que a direita lusa descende em linha recta do Salazar, do Sidónio e do senhor D. Miguel, que estamos à beira do fascismo e que “por menos do que isto mataram o D. Carlos” (esta também é boa, mas fica para depois). Aliás, nem sequer é preciso dizer algo de remotamente semelhante. Quase sem abrir a boca, Cavaco teve de enfrentar o labéu de cúmplice do salazarismo na sua primeira campanha para as presidenciais. Assim como os grupos pró-vida, no segundo referendo do aborto, foram acusados de ligações ao PNR e aos maluquinhos da America que põem bombas em clínicas. Lembro-me bem. Mas se é Vasco Lourenço a prometer paulada ao Governo, ah, então é uma metáfora.
Sucede que as metáforas não matam, mas moem. Dizer que se vai correr alguém à paulada não é o mesmo que dizer “matam-se dois coelhos de uma cajadada”. Ou, como já ouvi em versão ainda mais metafórica e pós-moderna, “matam-se dois coelhos com uma queijada”. À parte a referência dúbia aos coelhos, percebemos de imediato que, aqui sim, temos uma metáfora. Nenhum de nós tem a mínima intenção de andar por aí a matar coelhos à cajadada – ou mesmo à queijada. As exaltações supra fiam mais fino. Porque é razoavelmente claro que Lourenço, Roseta e Soares têm o firme desejo de que que este Governo caia. Não se trata de uma novidade e daí não vem mal ao mundo. A novidade é que, para eles, a violência voltou a ser um meio legítimo para passar das metáforas aos actos, como se um Governo e um Presidente eleitos fossem iguais a uma ditadura. O que talvez seja poético, mas nada tem de democrático.

PP

19 thoughts on “Metáforas

  1. VF diz:

    Não é complacência. Somente a desonestidade intelectual das criaturas que mencionou, sendo tão evidente, não chega a preocupar. Passa ao lado, de tão ridícula que é.

    • Daniel diz:

      Concordo. Eles foram reduzidos à sua insignificância no esquema político actual. Veja lá que se não fosse a direita a vociferar contra o que foi dito que toda a conferência me tinha passado completamente ao lado. Pertencendo eu a esse grupo maioritário de pessoas chamado Povo, presumo que haja muito mais gente na minha situação…

  2. Marina Tadeu diz:

    Mobilizem-se, afoitos! Queijem-se à esquerda e à direita como se o mundo não se estivesse a cajadar.

  3. gastão diz:

    Então PP, não gostou do link sobre “as ameaças” do papa? Censura?

  4. ppicoito diz:

    Não é o meu caso, tiro na água. Mas vejo pela sua reacção que acertei em cheio.

  5. Miguel diz:

    Olhe, Pedro, outro intolerante esquerdista a apelar à violência. Ámen.

    “Until exclusion and inequality in society and between peoples is reversed, it will be impossible to eliminate violence,” he wrote. “The poor and the poorer peoples are accused of violence, yet without equal opportunities the different forms of aggression and conflict will find a fertile terrain for growth and eventually explode.”

    http://blog.al.com/wire/2013/11/pope_francis_blames_financial.html

    O mundo está perdido.

    • ppicoito diz:

      Já respondi a essa. No dia em que os pobres de que fala o papa Francisco se sentarem na aula Magna, aí sim o mundo estará perdido. Mas nem o Soares nem o Miguel estarão interessados em ter os pobres tão perto: preferem tê-los nos discursos (e se vierem da Igreja, ainda melhor).

      • caramelo diz:

        Pedro, parece-me que a questão até agora não era saber-se onde se sentam os pobres, ou o local onde as palavras foram ditas, mas sim aquilo que foi dito. Foi azar. Vai ter de se esforçar um pouco mais, reciclar o argumento da legitimidade, etc. Ou não, pronto.

      • fnvv diz:

        descobriram a pólvora. E toda no mesmo saco.
        É preciso começar a eliminar as analogias.
        Ofereço palitos.

  6. ppicoito diz:

    Mas quais pobres? O Soares? O Vasco Lourenço? A Helena Roseta? Não me façam rir.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: