Em nome do Pai (mas sem qualquer estereótipo de género, porque o Pai não existe e, se existe, não é deus e, se é deus, é com minúscula)

Os apelos bem-intencionados, ou nem por isso (como o que o Luís linca no seu último post), a que Igreja se pronuncie sobre a violência doméstica deixam-me sempre perplexo.
Primeiro porque são muitas vezes contraditórios. No segundo referendo do aborto, o Luís e a Fernanda Câncio escreveram num blogue em que houve quem negasse à Igreja o direito de se pronunciar sobre questões políticas. Sei que essa não é a posição do Luís, mas sei pelo que lhe li mais tarde. Quanto à Fernanda Câncio, suponho que só lamente o silêncio dos bispos quando dizem o que não gosta. Ora, vamos aceitar, por momentos, que o aborto é apenas uma questão política (não é) e que a violência doméstica é também uma questão política (e é). Se a Igreja não se pode pronunciar sobre o aborto, porque é que deve pronunciar-se sobre a violência doméstica? Porque a Fernanda Câncio manda? Mas a Igreja agora é o PS do Sócrates, em que a senhora sugeria nomes para deputados? Além disso, a vox populi concorda que a Igreja tem uma influência cada vez menor sobre o comportamento dos portugueses, incluindo os católicos. Voltando ao referendo do aborto, Francisco Louçã chegou a saudar a vitória do sim como uma derrota da Igreja. De tanto o repetirmos, talvez os próprios bispos tenham hoje menos fé no seu poder. Se querem usar a influência que a Igreja não tem, pelo menos decidam-se.
Também me causa perplexidade que os apelantes bem-intencionados (Luís) ou nem por isso (pois) acreditem realmente que a Igreja deve dizer o que eles querem. A velha esquerda queria calar-nos, a nova esquerda quer obrigar-nos a falar. Mas só do que eles decidirem. Violência doméstica e pobrezinhos, sim; aborto e casamento gay, não. Sucede que é a Igreja a decidir a sua “agenda”, e essa agenda não é a de quem quer convertê-la em porta-voz do politicamente correcto. Sim, a violência doméstica é uma questão grave. Mas por que raio a Igreja ganha um súbito crédito na matéria e o perde no caso do aborto? Mistérios da falta de fé.
Ou talvez o mistério não seja assim tão grande. O respeito da Fernanda Câncio pela Igreja é público e notório. Sem lhe reconhecer qualquer autoridade nem lhe devotar a mínima simpatia, quer agora que os bispos tenham uma palavra a dizer quanto a um problema complexo. Acredito que ela esteja mesmo preocupada com as mulheres (ou os homens) que sofrem e procure todos os aliados, até os mais pestíferos. Mas eu, cínico como sempre, vejo aqui outra coisa. Vejo uma oportunidade de marcar mais uns pontinhos na guerra cultural contra a Igreja, eterno ódio de estimação dos arautos do progresso. E com toda a franqueza, Luís, nem os bispos têm o dever de caridade de submeter-se ao imperativo canciano.

PP

4 thoughts on “Em nome do Pai (mas sem qualquer estereótipo de género, porque o Pai não existe e, se existe, não é deus e, se é deus, é com minúscula)

  1. A violência doméstica é um crime público e o aborto é legal e patrocinado. Ainda ninguém decidiu legalizar o primeiro destes hediondos crimes.

  2. fnvv diz:

    “A velha esquerda queria calar-nos, a nova esquerda quer obrigar-nos a falar. Mas só do que eles decidirem. Violência doméstica e pobrezinhos, sim; aborto e casamento gay, não. Sucede que é a Igreja a decidir a sua “agenda”, e essa agenda não é a de quem quer convertê-la em porta-voz do politicamente correcto”.
    Bem eu não sou de uma nem de outra, mas sempre te digo que há aí uma falha. Quando a Igreja fala de moral sexual tambem deve falar de moral conjugal. Até há quem diga que estão ligadas.

  3. ppicoito diz:

    Evidentemente, e não digo que o relativo silêncio sobre a violência conjugal não seja constrangedor. Mas ficarias surpreendido quanto ao reduzido número de vezes que os padres falam de moral sexual, ou mesmo de moral conjugal. E, sobretudo, não vei ser Madame Câncio a ditar a homilia.

  4. eh eh eh, ótimo texto pp.

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