Que doce

Parece que é uma obra de arte.

FNV

9 thoughts on “Que doce

  1. Um cantinho do vómito deveras atencioso com os passantes.

  2. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Filipe, sugiro uma excursão de crianças dos bairros periféricos da Grande Lisboa até à galeria londrina onde esta obra e as suas congéneres estão expostas: nada melhor que a voracidade infantil dos subúrbios para limpar a confusão do vanguardismo estético…

    • XisPto diz:

      Eheheh, tenho a certeza que arranjavam uma teoria apropriada. O paleio criativo dos “instaladores” está muito bem cotado nesse mercado. Vi uma exposição de um dos nossos mais credenciados criadores em que no soalho do pavimento, para proteger uma instalação, tinha colado uma fita adesiva para não ser ultrapassada, pensei eu. Mas ao fim de alguma tempo acabo a pensar se a fita não faria parte do próprio objecto artístico. Confuso, mas tentando desajeitadamente não o mostrar (podem pensar no Mr. Bean) passei ao objecto seguinte. Só posso, portanto, acompanhar a sua sugestão, já que recuperar a inocência perdida será mais difícil.

      • João. diz:

        O que é interessante nessas instalações (eu já tive uma ou duas experiências semelhantes à sua) é serem objecto-causa do refluxo sobre o espectador da questão: o que é uma obra de arte?

        Se não me engano esta questão parece perpassar a sua experiência e relato. Agora, não digo que este minha leitura corresponda à intenção do artista (nem sequer que procurar determinar a intenção do artista deva ser a atitude a tomar pelo espectador).

      • XisPtp diz:

        João: Exacto. Por sinal as últimas coisas que li sobre teoria da arte iam precisamente nessa direcção. Já não seria possível definir um objecto como um objecto de arte, tudo dependeria da “circunstância” e da intencionalidade do autor.

      • João. diz:

        XisPto,

        Estamos a beirar, a meu ver, a questão da arte enquanto começa por ser um lugar. Um urinol num museu é uma peça de arte? Uma lata de sopa Campbell? Um monte de rebuçados? Julgo que não é incorrecto dizer que há na origem, pelo menos no ocidente de onde o conceito de arte surge, uma cumplicidade entre religião, no sentido mais amplo, e arte e como já na religião é o lugar de um objecto (no Ritual, por exemplo, ou até no Mito) que começa por transfigurá-lo em objecto sagrado também na arte parece existir este factor “lugar” como força ou campo de transfiguração do comum em artístico.

        O que é curioso é que embora nunca tenha faltado à arte o motivo religioso em suas obras só agora, na contemporaneidade, a arte, nomedamente a partir de si como lugar de transfiguração, repete o acto religioso da transfiguração da matéria estúpida em matéria espiritualizada e repete-o precisamente enquanto os seus motivos, as suas figurações, são o mais distante das figurações religiosas – ou seja, repete o acto religioso. E não através da representação de cenas religiosas mas da representação da transfiguração da matéria pela sua passagem do espaço profano, digamos assim, do espaço fora das exposições, dos museus, para o espaço sagrado: o museu, a exposição, a mostra de arte, etc.

        É como se o espaço que a obra de arte sempre ocupou fosse finalmente reconhecido, como se este espaço tivesse sido finalmente impregnado, transfigurado pela arte que recebeu ao longo dos séculos – e que agora seja ele, por si só, espaço de transformação do comum em artístico. Neste sentido quanto mais “estúpidas” são as obras mais é sublinhado este acto de transfiguração a partir da separação entre espaço comum e espaço de arte.

        E no princípio é o verbo. Uma placa à entrada de um edifício ao de um espaço que diga “museu” ou “mostra de arte” (ou coisa parecida) já transforma a nossa percepção do que vemos dentro desse espaço assim determinado pelo significante.

        Por fim, ao chegarmos a esta dimensão do espaço diferenciado como agente artístico chegamos, julgo eu ao seu corolário: a celebração da arquitetura como a arte do século.

        Para mim, contudo, Rothko é o maior:

        http://auladefilosofia.net/2013/10/12/jean-baudrillard-y-enrique-valiente-noailles-los-exiliados-del-dialogo-2006/mark-rothko-black-red-and-black-1968/

      • João. diz:

        Seria interessante talvez uma experiência em que um espaço fosse ocupado com uma série de objectos comuns, comprados em lojas de qualquer centro comercial ou coisa que o valha e em que se chamassem 100 pessoas dizendo-lhes que dentro desse espaço havia uma e só uma peça que era uma obra de arte e que o objectivo era tentar descobrir qual e porquê a escolha. Aqui trata-se portanto de testar o puro efeito do significante “Arte” sobre a nossa percepção do espaço e seus objectos.

      • XisPto diz:

        João: interessante reflexão e proposta, mas quanto a está, se já não foi realizada está subjacente em muita da arte contemporânea de forma explícita, a intenção de interpelar o “observador”‘, mais tecnologicamente, testa – lo, como diz. E é interessante porque se percebe o peso do desconstrutivismo nesta atitude, não mais intenções estéticas significantes. Não creio que fosse realmente útil a conclusão emergente face à grande questão: o que é a arte. Seguramente que será arte o que cada sociedade reconhece como tal, e assim evitamos a dificuldade e retiramos os artistas do pedestal romântico/corporativo/intimidatório a que aspiram…

  3. João. diz:

    XisPto: É interessante que quando surge um grande e novo movimento de arte, que muitas vezes só é notado quando já tem uma história considerável, este novo movimento opere uma releitura da história da arte em seu sentido conceptual, ou seja, quando aparece por exemplo o surrealismo e ele conquista o seu lugar de cidadania nas artes já não é possível retornar à história da arte como se ela não tivesse desembocado, naquela altura, no surrealismo e na conceituação do que é a arte de que se faz acompanhar, de tal modo que quando tentamos pensar o que na arte passada poderia estar latente de modo a vir ao de cima no surrealismo é como se algo do passado que também se revelasse, ou como um retorno ao passado como uma novidade ainda por descobrir – ou seja, cada grande movimento de arte reconceptualiza o passado que já não pode ser pensado e actualizado como se o presente desse passado não tivesse acontecido.

    Ou seja, hoje alguém que pretenda no seu atelier retornar à arte tal como era no renascimento, aos seus motivos e estilo, vai parecer antiquado, deslocado, irrelevante até, o que não quer dizer que a arte efectivamente do renascimento o seja. A arte renascentista mantém todo o seu vigor e esplendor o que acontece é que os novos desenvolvimentos na arte tornaram o regresso puro e simples da arte no presente à imagética renascentista um projecto condenado à partida.

    Em certo sentido o que isto nos diz também é que a arte renascentista é uma realidade consumada: é-aí.

    Os novos movimentos na arte permitem que os ditos mais antigos por um lado adquiram fronteiras e se tornem mais distintos e por outro que se possam tornar conceitos, ideias, passíveis de influenciar o futuro. Miguel Ângelo, no seu tempo, não era um artista renascentista, era um artista – ele só passa a renascentista quando o renascimento é delineado, quando o seu conceito é estabelecido com razão suficiente.

    Mas isto tudo para dizer o quê?

    Que a arte contemporânea, na medida em que trabalhos como as instalações que referiu, se consolidam como arte, já está ao mesmo tempo a tornar impossível que um dia se possa retornar a estas formas e nessa medida já está a desafiar a arte do futuro. Claro que não vemos isso agora, claro que agora sentimos como que uma omnipotência destas formas de arte, das instalações, do deslocamento de objectos comuns para campos incomuns, etc, pensamos que estamos num impasse, perguntamos: para onde pode ir a arte que não tenha ido ainda? Que novidade pode criar?

    E são perguntas legítimas, especialmente quando um urinol é elevado a peça de arte e quando uma instalação com um cão real amarrado até morrer de fome o chega a ser também. Mas já no passado se considerou que a exposição dos genitais das figuras representadas nas obras de arte era a decadência da arte e no entanto aí estamos hoje a admirar essas obras como grandes obras do espírito humano.

    O avanço da tatuagem, piercing e da intervenção directa sobre o corpo poderá vir a ser um novo movimento, ou seja, os artistas poderão ser ao mesmo tempo as próprias obras, poderão planear a sua transfiguração física, contratar os meios de a efectivar e passar a expor-se a si mesmos. Isto, se vier a ser um movimento na arte, haverá de fazer dessas instalações de que falámos algo antiquado para cujo o retorno já seria sem grande propósito e relevância. Mas, enfim, veremos.

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