Monthly Archives: Dezembro 2013

2013 in review

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

The Louvre Museum has 8.5 million visitors per year. This blog was viewed about 620,000 times in 2013. If it were an exhibit at the Louvre Museum, it would take about 27 days for that many people to see it.

Click here to see the complete report.

Anúncios

As minhas figuras do ano

1) O único homem recompensado por ser incompetente e que, muito logicamente, retibuiu mostrando mais incompetência.

2) Um povo sábio e sereno, desprezado pelos que lhe mentiram  e ainda mais pelos que dizem querer salvá-lo.

3) Grande homem da Igreja dos nossos dias. Irritou até este  ponto demencial.

4) Tem mais inimigos dentro do partido do que fora: um verdadeiro candidato independente.

FNV

Verdes são os campos (X)

O novo ano  é tão novo quanto uma velha é jovem. Está tudo na cabeça.

FNV

Com as etiquetas

2013: Prémios

Personalidade internacional: Putin. Foi o único a ganhar com a guerra na Síria. Apoia o futuro vencedor e ocupou o vazio deixado no Médio Oriente pela retirada dos americanos. Um quarto de século depois do fim da União Soviética, a geopolítica da Rússia é cada vez mais a da Rússia dos czares. Como se está a ver na Ucrânia.

Personalidade nacional: Rui Moreira. Mostrou que os independentes, além do sucesso nas berças, também ganham eleições na cidade. Os partidos já não podem fingir que não vêem. A vitória sobre Luís Filipe Menezes, um dos grandes chefes do caciquismo luso, devia obrigá-los a reflectir. Não vai acontecer, mas fica o aviso.

Prémio Rosa-choque: Pacheco Pereira. Cantando o hino, enquanto Soares e Vasco Lourenço prometiam “paulada” ao Governo.

Prémio Irrevogável: Paulo Portas. Quem mais seria capaz de provocar uma crise política nacional, fazer-nos perder rios de dinheiro nos “mercados”, deixar o Governo de pantanas, trair o parceiro de coligação, mentir aos companheiros de partido e dar o dito por não dito em menos de vinte e quatro horas – apenas por amor à pátria?

Prémio Idiota Inútil: Fernando Moreira de Sá. A arte de irritar toda a gente, revelando o que já toda gente sabia.

Prémio Reviver o Passado em Brideshead: Sócrates. Os velhos habitués suspiraram com o regresso, mas só eles leram o livro. Ah, e um taxista que o Zorrinho encontrou.

Prémio De Besta a Bestial: Papa Francisco. Primeiro era cúmplice de ditadores de direita, agora é compagnon de route da esquerda, sabe Deus o que será para o ano. Talvez Papa.

PP

Verdes são os campos ( IX)

Também não vi. Apesar de ser a mais longa de sempre, também não vi uma reportagem  especial sobre as vidas duras  dos homens do lixo de Lisboa.

Também ninguém  foi confortá-los nem comiciar, ninguém escreveu artigos nem blogues sobre  os magros salários esfomecidos pelos  dias de greve, ninguém acusou as  responsabilidades de  criaditos da Troika e de gente com  pouco mundo e menos leituras.

FNV

Com as etiquetas

Obviamente, demitem-no

As palavras de Crato sobre a má qualidade de alguns professores (alguns, sublinhe-se) incendiaram as escolas superiores de educação e os seus representantes, que já exigiram a demissão do Ministro. Mas ele limitou-se a dizer o óbvio: há professores que, por falta de mérito, ou de motivação, ou e qualquer outra coisa, não deviam dar aulas. Como uma vez aqui referi, estou particularemente à vontade para regar com gasolina estas declarações incendiárias porque dou aulas a futuros professores do 1º ciclo. E sei que muitos (muitos e não todos, sublinhe-se) acabam os três anos da licenciatura com falhas graves no domínio da língua materna. Adivinho o que se passará com a matemática.
Pode-se dicutir a causa, ou causas, da situação. Até porque as universidades e politécnicos não conseguem dar aos alunos, em três anos, o que o ensino obrigatório não lhes deu em doze.
Pode-se discutir se o actual modelo de formação de professores, que os mistura na licenciatura com futuros educadores de infância, é o mais eficaz.
Pode-se discutir se Bolonha não veio piorar o que já estava mal.
Pode-se discutir se a famosa prova dos professores é a melhor solução.
O que me parece indiscutível são as consequências de tudo isto no ensino. Se quem forma os profesores está mais preocupado com o respectivo quintal do que com o país, então o problema, por uma vez, não está na 5 de Outubro.

PP

Antena islâmica

1) Mufti Zubair Islahi contra as  mulheres.

2) Jihad italiana

3) Não percebi se já está traduzido, mas vai para  a lista.

FNV

Desde os quinze anos

Comecei a comprá-lo ao arrepio do komintern doméstico da altura. Achei que seria uma boa variação ao Avante!, Vida  Soviética, Diário e Diário de Lisboa. Passado pouco tempo os comissários  liam-no à vez  na minha sala de estudo ( cof cof…)  e de convívio ( muito).

Hoje tenho 48  e deixei de o comprar. Não tem notícias, mas tem colunistas de dois tipos: os que o usam para simples propaganda  ( Adão e Silva, Daniel Oliveira, Rui Ramos etc) e os desgraçados que pensam mal e escrevem  pior ( vários) . Cutileiro à parte, claro.

FNV

Verdes são os campos ( VIII)

Não há um Morais  Leitão no governo? Pois apreciei muito a discrição.

Diz-se que Herón de Alexandria inventou um templo cujas portas se abriam  automaticamente como as modernas garagens.

FNV

 

adenda:  informam-me que ML governo não tem nada a ver com ML escritorio. Não disse que tinha, mas subentedia-se. Fica  a discrição.

Com as etiquetas

Bignami*, um dos scapigliati, muito cá de casa:

Noi siamo artisti,
siamo antecristi,
dei tempi tristi,
ce ne infischiam.
Del sanfedismo,
del panteismo,
del socialismo,
non ci curiam.
Facce ridenti
buoni acquirenti
solo cerchiam.
Di gente stitica
o paralitica
che fa la critica
corna diciam.
Delle modelle
più fresche e belle
noi per la pelle
amici siam. .. ,

 

* podem beber aqui caso não conheçam.

FNV

Verdes são os campos (VI)

Com Pacheco Pereira,  na TSF,  a vigiar o exame, os portugueses passariam com distinção.

Parafraseando um comentador da casa, uma maçada,  estes primos malucos do socialismo que insistem em envergonhar os vermelhos respeitáveis.

FNV

Com as etiquetas

Verdes são os campos (V)

Sem  o Tony Soprano, como no tempo do home-cinema, dos SUV’s e do sushi, quem me vai guiar pelos  novos meandros da  moda pequeno-burguesa?

FNV

Com as etiquetas

Verdes são os campos ( IV)

Suspende a Constituição, sobe as taxas e pede aos munícipes para guardarem  o lixo em casa durante a greve.

António Costa é como a Savora: com ele tudo melhora.

FNV

Com as etiquetas

Verdes são os campos (III)

A azia que o acordo para a redução do IRC provocou nos patriotas  foi  tanta que até me senti estrangeiro.

FNV

Com as etiquetas

Verdes são os campos ( II)

Um dia aparecerá um projecto de esquerda apresentado por motoristas, calceteiros, gaspiadeiras, empregadas  de caixa e trolhas.

FNV

Com as etiquetas

Verdes são os campos ( I)

A diferença entre  um televangelista americano e um pregador  televisivo de esquerda? O primeiro funda igrejas, o  segundo cria plataformas.

FNV

Com as etiquetas

Aguentem.

santa-claus3

Festas felizes para todos, incluindo os pobrezinhos de espírito. Para fugir ao consumismo e à crise dos valores passarei o ano em Paris, despejando garrafas em honra da doutora Jonet. Au revoir.

Demite-te, Crato.

Falhou em toda a linha o plano de José Manuel Fernandes, Helena Matos, Maria de Fátima Bonifácio e Nuno Crato para revolucionar o ensino em Portugal. Os relatórios PISA da OCDE reabilitaram os “defensores do eduquês”, cobrindo de ridículo a fronda liberal portuguesa. Não era esta gente que exigia “mais responsabilidade”? Então venha ela.

Eis o comentário de Constança Cunha e Sá.

Luis M. Jorge

Frases do ano (9).

Não se foi pedir a opinião a nenhum dos contestatários. (…) Nem um sindicalista a dizer de sua justiça.

Helena Matos, ex-maoista, paladina dos trabalhadores.

Luis M. Jorge

Frases do ano (8).

A possibilidade de os funcionários da administração pública reduzirem o horário de trabalho, embora surja num contexto de austeridade, é uma medida “amiga da família”.

Pedro Lomba, jovem promessa.

Luis M. Jorge

Frases do ano (7).

“José Eduardo dos Santos é um dos grandes estadistas africanos”.

Pauo Portas, um estadista português.

Luis M. Jorge

Frases do ano (6).

“A repetição destes desvios minou a minha credibilidade enquanto Ministro das Finanças”.

Vitor Gaspar, génio discreto.

Luis M. Jorge

Frases do ano (5).

“Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência, e mais não posso fazer”.

Luis M. Jorge

Frases do ano (4).

“As declarações do senhor primeiro-ministro fazem sempre sentido.”

Carlos Abreu Amorim, deputado .

Luis M. Jorge

Frases do ano (3).

“Vou fazer tudo para ajudar o Luisinho.”

1230045_477354365695807_269137021_n

Luis M. Jorge

Frases do ano (2).

Aumentar o salário mínimo é estragar a vida aos pobres.

César das Neves, economista cristão.

Lus M. Jorge

Que privilégio.

AdobePhotoshopExpress_2013_12_15_22_35_42

Assisti esta tarde ao ensaio geral do oratório de Natal de Bach pela orquestra da Gulbenkian na Igreja de São Roque, a mais bela de Lisboa. Se todos os ensaios gerais fossem assim não desejaria outra coisa. O prazer da orquestra e dos interpretes era palpável, sem sacrifício da correcção ou do understatement. Tilman Lichdi e Bernarda Fink comoveram-me. Três bebés loiros casquinavam na nave como anjinhos barrocos para alegria minha e exaspero dos filisteus. Bach teria gostado. E que alívio poder presenciar este espectáculo em atmosfera informal, sem o exórdio grosseiro das peruas ataviadas a grugulejar pelo Martim, a Constança  ou o Salvador.  Enfim um público sereno, atento, educado. Que privilégio.

Luis M. Jorge

Nadir Afonso (1920-2013)

NadirAfonso
Nadir Afonso foi um artista profundamente original no contexto da pintura portuguesa do século XX. O seu abstraccionismo contrastava com a nossa tradição figurativa, mesmo quando representada por herdeiros de vanguardas internacionais como o cubismo (Amadeo, Almada), o expressionismo (Eloy, Botelho, Hogan, Skapinakis), o surrealismo (Cesariny, Cruzeiro Seixas, Vespeira, Paula Rego) ou o neo-realismo (Pomar). Nadir Afonso fugiu a esta tradição e sempre procurou a simplicidade da linha, do volume, da cor, num percurso que apenas se pode comparar ao de Maria Helena Vieira da Silva, Fernando Lanhas e Joaquim Rodrigo. O que talvez se explique pela sua formação de arquitecto e pelo trabalho, lá fora, com Le Corbusier e Niemeyer, nomes maiores da arquitectura modernista. Sem grupo nem escola, embora com um público fiel, a sua morte deixa a cultura portuguesa mais pobre. Muito mais pobre.
PP

Já chegou, amigas.

ng2928077

O Jornal de Notícias informa que saiu o calendário de 2014 com fotografias dos padres mais bonitos do Vaticano. É justo. Os bate-chapas católicos homossexuais são filhos de Deus.

Lá na garagem perguntam ao António porque é que exibe homens vestidos na parede. Resposta pronta: “a sua nudez não descobrirás, Levítico 18:9”. Ele rejeita o preservativo (“é pecado”), e como todos os devotos não esconde o seu apreço pela reprodução: “acho improvável, mas se acontecer é porque Deus quis”. De resto — sempre tolerante — considera que não há muita diferença entre as misses despidas que os colegas afixam e os sacerdotes de batina que trouxe de um retiro em Itália: “Tal como os padres, as misses querem a paz no mundo; e também acreditam no amor”.

O Calendário Romano está disponível nas boas lojas de souvenirs e é enviado por correio para todo o mundo cristão. Reze para que não esgote.

Luis M. Jorge

Vamos por partes.

Neste artigo do Daniel Oliveira convivem no mesmo parágrafo o melhor e o, hã, menos bom da nossa esquerda. O parágrafo é este:

Uma das poucas utilidades destas entrevistas indigentes é retirar a patine de respeitabilidade democrática e intelectual a uma determinada elite económica. Percebemos como é anacrónica, provinciana e incrivelmente inculta. O drama é que é ela, e não aqueles que criaram empresas inovadoras e baseadas no conhecimento e na investigação, que apostaram na mão de obra qualificada e em acrescentar valor ao que produzem, que mais influência tem junto do poder político e mediático. É esta pequena elite de vendedores a retalho e bancários de luxo que se confunde com o poder político, o influencia e vive a sonhar com um passado perdido. E é este, e não a perda de Angola e o excesso de peixe grelhado, o drama histórico de Portugal: temos uma elite dominante que sempre foi pior do que o resto do país.

Eis a parte em que acerta:

É esta pequena elite de vendedores a retalho e bancários de luxo que se confunde com o poder político, o influencia e vive a sonhar com um passado perdido.

Eis a parte em que dá um tiro no pé:

O drama é que é ela [a elite económica], e não aqueles que criaram empresas inovadoras e baseadas no conhecimento e na investigação, que apostaram na mão de obra qualificada e em acrescentar valor ao que produzem (…)

Não farei a maldade de tratar o Daniel Oliveira como um analfabeto da gestão. Mas a Jerónimo Martins foi colocada pela Forbes no 16º lugar de uma lista das empresas que mais inovaram no mundo em 2013.

Luis M. Jorge

 

Sindrome de Estocolmo.

Há muitos anos ouvi falar de um jovem negro que era skinhead. Ele queria Portugal para os portugueses e oferecia paulada aos imigrantes que vinham roubar os nossos empregos e as nossas mulheres.

O fenómeno não é tão incomum como parece. Aqui no blog recebemos as visitas um defensor do Governo que é desempregado de longa duração. De vez em quando lá vem ele criticar o Estado Social: “Hoje em dia dão subsídios a qualquer um, até a gente que não faz nada”. “Já não como há uma semana por culpa desses socialistas que esbanjam a nossa riqueza em gente que não tem o que comer”. “Se eu tivesse dois euros comprava uma moca para arriar na canalha que defende o rendimento mínimo”. E assim por diante.

O mais estranho em Portugal é ter um povo de marroquinos com conversa de alemães. A mente das pessoas foi tão retorcida que devia manifestar-se ao contrário, como a inscrição frontal de uma ambulância: !seveN sad rasèC rosseforp o aviV !saimèfsalB o aviV.

A única altura em que o corpo e a mente adquirem coerência é quando discutem futebol. Aí sim, estamos em Marrocos.

Bastou um refrigerante ironizar com o Cristiano Ronaldo para que milhões de fiéis viessem para a rua queimar bandeiras da Suécia, como se um pastor evangélico tivesse cuspido no Corão. Num país que tem desemprego em barda, miséria em toda a parte e uma elite que faria enrubescer de modéstia a corte de Versailles, tanta ira contra um local tranquilo do norte da Europa é obra.

Mas lá está, chama-se síndrome de Estocolmo. E infecta desde o primeiro-ministro a pobres de espírito, se me permitem o pleonasmo.

Luis M. Jorge

Libertem Mandela (do apartheid vermelho)

Morre Mandela e o mundo inteiro presta-lhe homenagem. O que é que faz a esquerda portuguesa? Aproveita para bater no Passos e no Cavaco. Faz sentido: os homens também se definem pelos seus inimigos. Mandela lutou contra um dos regimes mais iníquos do século XX, a esquerda luta contra dois políticos democraticamente eleitos. Diz muito sobre o seu amor à democracia.
Mesmo assim, a esquerda quer o monopólio da memória de Mandela. Ele, que defendeu a luta armada quando não havia outra alternativa, é o novo profeta da paulada magna. De nada servirá apontar a diferença entre o apartheid e um regime democrático. De nada servirá lembrar que Mandela renunciou à violência quando as circunstâncias mudaram. De nada servirá recordar que foi o fim do comunismo que levou à transição sul-africana. Os camaradas não perdem tempo com pormenores.
Mas até eu tenho pouco estômago para ver o Daniel Oliveira, militante de um partido totalitário em 87, acusar Cavaco de um voto ao lado de Reagan e Thatcher na ONU. Ou os órfãos de Sócrates, que andou com Kadhafi ao colo, acusarem Passos de leituras selectivas. E olhem que eu sou de direita: tenho um estômago muito tolerante a selectividades.

PP

Nelson Mandela (1918-2013)

images
Nelson Mandela é a prova de que os homens fazem a história e não o contrário. Não sabemos o que seria a África do Sul sem Mandela, mas sabemos o que não seria: não seria o que é hoje. Muitos têm louvado o seu amor à justiça, uma forma de reclamar para quem elogia a virtude de quem se elogia. E porque não? O amor à justiça é a medida da grandeza humana. Mas Mandela tinha uma grandeza ainda maior: o amor aos inimigos. Um amor que nada tinha de retórico, sentimental ou ingénuo. Era pura inteligência política. Ele conhecia bem os abismos de perversidade a que podia descer o apartheid, mas sabia também que uma África do Sul moderna e democrática não podia apagar a história nem apagar os brancos.
Por isso, teve a grandeza de ver os seus compatriotas e ler os sinais dos tempos sem um olhar turvo pelo ódio. Renunciou à luta armada e ao socialismo ainda na prisão, mas foi a Queda do Muro de Berlim que mudou tudo. Depois de 89, o medo de uma África do Sul comunista deixou de fazer sentido. O regime do apartheid, até aí legitimado internacionalmente por esse medo, ficou ainda mais isolado. De um dia para o outro, Botha iniciou – e de Klerk prosseguiu – negociações secretas com Mandela. O fim do comunismo não libertou só a Europa de Leste do jugo soviético; do outro lado do mundo, também libertou Mandela da prisão perpétua e o ANC da prisão ideológica.
Na verdade, o homem que sai da cadeia em 1990 não é o mesmo que tinha sido preso um quarto de século antes. Compreendera o profundo complexo de cerco da “tribo branca” e o papel do rugby, desporto colectivo de combate, na cultura afrikaner. Para os descendentes dos boers, o rugby não é apenas um jogo: é o reflexo de uma visão do mundo em que defendem o seu território contra tudo e contra todos, dos zulus aos britânicos. Os All Blacks jogam com o orgulho dos predestinados, os australianos com o fôlego dos grandes espaços, os galeses com entrega romântica, os irlandeses com fighting spirit, os franceses com intuição e flair, os ingleses com fleuma e sentido prático, mas só os Springboks jogam como se estivessem a lutar pela vida (e talvez estejam). O resultado é um estilo duro, áspero, fechado, assente na conquista de terreno pelo bloco de avançados, palmo a palmo, e no jogo ao pé. Antipático, mas eficaz.
Como se viu na final do Mundial de 95, “o jogo que fez uma nação”, assim lhe chamaram. Todos conhecem a história pelo filme Invictus, de Clint Eastwood. E todos sabem que Mandela, sempre atento ao símbolos, apareceu no estádio, diante de 70 mil espectadores e de 43 milhões de sul-africanos, com a camisola 6 de François Pienaar, o capitão dos Boks. A mensagem não podia ser mais clara. A África do Sul venceu a ultrafavorita Nova Zelândia de Lomu (com a melhor prestação defensiva que já vi, evidentemente, mas isso fica para depois) e o país inteiro saiu à rua. Pela primeira vez, brancos e negros estavam do mesmo lado. Graças a Mandela, que nem gostava de rugby.
Que descanse em paz. E que a nação arco-íris também tenha paz.

PP

Ainda Cavaco.

Tinha esquecido esta pérola, mas vai a tempo:

Orgulho-me do pequeno contributo que possa ter dado para fazer da África do Sul uma nação livre e democrática.

Luis M. Jorge