Erros, 5.

O Miguel publicou um comentário ao meu post anterior que nos revela bons exemplos do linguajar em que a esquerda se entretém desde que optou pela contemplação. Respondo-lhe nas entrelinhas:

Não é apenas o país que mudou, é o mundo que está a mudar. E os políticos de todos os quadrante e de todo o mundo estão desorientados, pois as grelhas de interpretação a que se habituaram estão cada vez mais desadequadas.

“De todos os quadrantes”, não. A direita não está desorientada. Tem programas, valores e vontade de poder.

À maior parte destes políticos faltam leituras, conhecimentos de história, humanismo, nem sequer literatura, de ciência, de tecnologia, como trabalham muito pouco (descontando as tricas e a navegação à vista do dia a dia) e estudam ainda menos. Não admira que estejam completamente impotentes, não tenham a menor ideia do que fazer.

Irrelevante. Reagan e Tatcher não precisaram de “humanismo” para mudar o Ocidente. Adoptaram doutrinas mastigadas com uma linguagem simples e delinearam um plano de ocupação das instituições. Mais importante, fizeram alguma coisa quando as conquistaram.

Porque, neste momento, TUDO está em causa. A começar pela viabilidade do sistema capitalista globalizado. Não é uma situação inédita, já houve uma globalização anterior que colapsou com um enorme estrondo — na forma de duas guerras mundiais.

A “viabilidade” do capitalismo não está em causa. Pelo contrário, sobreviveu à crise de 2008 e expande-se em vários continentes. A esquerda deve abandonar depressa este tipo de superstições milenares.

As circunstâncias hoje têm algumas semelhanças com o início do século XX, mas também grandes diferenças. A questão ecológica, a gestão dos recursos escassos e a estabilidade dos ecossistemas à escala mundial são a grande novidade. E não é pequena, as questões que se nos colocam têm por esse motivo um grau de dificuldade com um grau de magnitude superior.

Pois. Suponho que é para não perturbarem os ecossistemas que PS, PCP e Bloco se dedicam ao quietismo.

Quanto a Portugal. Portugal tem chegado atrasado a tudo: industrialização, o crescimento económico e científico do pós-guerra, Estado social, União Europeia e até agora — a grande ironia — chega tarde ao grande salto neo-liberal (já passou do prazo, para quem não dado por isso).

Não passou do prazo. Pelo contrário, universalizou-se. É um combate em curso, que não desaparecerá apenas por defendermos que é composto por anacronismos. O próprio Marx recomendava que não confundíssemos as nossas ideias com os nossos sentimentos.

Será que desta vez Portugal vai conseguir participar desde o início da grande reconversão energética e ecológica que se “prepara” (pela simples força da realidade, se não for pela capacidade humana de observar, pensar, argumentar, e prever) , e aos novos modelos de organização sócio-económica e política que terão necessariamente (de forma democrática, se começarmos desde já, ou de forma violenta se adoptarmos a atitude da avestruz) de ser inventados?

Chegamos portanto ao refrescante leitmotiv das “novas formas de luta” que placidamente nos cabe encontrar. Mas enquanto os partidos procuram “modelos” e “grelhas de interpretação”, o tradicional povo de esquerda vota em Marine Le Pen.

Face a isto, não admira, caro Luís, que os partidos andem todos à nora.

De facto, Miguel. Não admira.

Luis M. Jorge

Anúncios

13 thoughts on “Erros, 5.

  1. Miguel diz:

    A “viabilidade” do capitalismo não está em causa. — escreve o Luís.

    Um esclarecimento para começar. Eu estou a colocar-me no tempo longo, e não no horizonte temporal de cinco ou dez anos. É uma questão de saber que preço estamos dispostos a pagar para manter o status quo capitalista. Antes que este se tornasse civilizado (e apenas na Europa Ocidental e nos EUA) as gerações anteriores pagaram um preço bem elevado: duas guerras mundiais mais o bloco soviético, chinês e a depredação de África. Estaremos no sec XXI em condições de suportar mais do mesmo? Uma outra guerra mundial?

    Convém recordar que, no início do século XX, o ocidente tinha um “continente” inteiro (os EUA) ainda quase virgem por desbravar. Hoje não. A questao ecológica não é um detalhe, é central. Os recursos estão a tornar-se escassos em termos absolutos, planetários, e não na acepção clássica do século XIX em que eram abundantes na natureza, a escassez era o resultado da dificuldade em os explorar.

    Ao contrário dos espíritos humanos, o ecossistema é indiferente à propaganda ideológica. A natureza responde a acções concretas, actualmente de carácter depredor e com tendência a agravar-se. Por isso, a questão da “viabilidade” do capitalismo, ou de outro sistema económico à escala planetária, não se esgota nos sistemas de crenças que dominam as sociedades num certo período. Os constrangimentos físicos e ecológicos são, pela primeira vez, um factor determinante para o desenvolvimento económico à escala planetária. O sistema capitalista tal qual existe é estritamente produtivista (tal com eram os sistemas do socialismo real, já agora, lembremo-nos das consequências no mar de Aral, por exemplo), ignora as externalidades, deixa-as para as gerações vindoras, e para os desgraçados contemporâneos que têm o azar de viver onde o sistema julga conveniente levar a cabo a sua actividade e deixar os seus detritos. O problema que o sistema económico em vigor põe neste contexto é claro: o cresicmento infinito (que pressupõe) é insustentável a médio prazo (décadas). Entendamo-nos: em qualquer domínio científico um crescimento exponencial é uma instabilidade, e crescer xis por cento ao ano é crescer exponencialmente. A repreensão que faço aos homens políticos (de todas as áreas: a começar pelo PS, BE e PCP se quiser; e pelo mundo fora) pela sua falta de cultura no sentido lato, científica ou mais social, não a emprego como artifício de retórica e/ou por vontade de distinção. (Eu chamo-os os “homens do telefone”, servem de correias de transmissão para os comandos que vêem de onde está o real poder económico; fazem-me lembrar Friedrich Ebert, o chanceler social-democrata alemão que tomou o poder quando a aristocracia militar alemã resolveu passar o lugar de comando aos sociais-democratas de modo a lavar as mãos da derrocada de 1918, e o tipo recebia as instruções de Wilhelm Groener por telefone , que melhor metáfora para Gerhard Schröder e as leis Hartz desenhadas para desmantelar o estado social alemão?) A falta de cultura no sentido lato é a causa da incapacidade de pensar no tempo longo, e hoje todos pensam ao trimestre. Como ajustar a produção aos constrangimentos físicos e ecológicos planificando trimestralmente?

    Os contra-exemplos que com que o Luís me responde: eu conheço-os e concordo consigo que são reais. Discordo é na sua interpretação. Para mim, são parte do problema, pior, são o agravar do problema. Vamos a caminho do abismo e parece-me que alguém está a carregar no acelerador. O voto do povo na direita não é novidade, é a tradição. A História novamente. No século XIX, os conservadores e a maior parte dos liberais fugiam do sufrágio universal como o diabo da cruz. A lógica era simples: quando as massas votarem, vão votar de acordo com o seu interesse, e o resultado vai ser o fim da propriedade e da riqueza privadas. Quando pela primeira vez o povo francês foi chamado a votar em 1848 (sufrágio universal masculino), votou em Louis-Napoléon Bonaparte e foi dar ao segundo império.

    “Chegamos portanto ao refrescante leitmotiv das “novas formas de luta” que placidamente nos cabe encontrar.”

    Existem grupos, geralmente de esquerda, geralmente minoritários, que pensam seriamente sobre estas questÕes. Não existe nenhuma garantia de que sejam capazes de formular soluções eficazes para estas questões, ainda menos de as realizar. O meu receio é que, por cegueira e por frivolidade, desqualifiquemos esses esforços com ” refrescante leitmotiv das “novas formas de luta” ou “bons exemplos do linguajar em que a esquerda se entretém” (Luís, atenção que não estou a tomar isto pessoalmente, nem a querer usar como arma de arremesso), os deixemo isolados a pensar o tempo longo da transição energética e ecológica. O resultado dificilmente será bom, a começar pelo risco destes desafios irem ser enfrentados em ambientes políticos de grande extremismo, em vez de ser enfrentado pela aprendizagem comum, o debate público com a argumentação cuidada e a deliberação democrática. A natureza é indiferente ao poder da retórica, seja ela neo-liberal ou outra, e cada erro concreto no “diálogo” com o ecossistema planetário, será pago por gente concreta, os nossos filhos, os nossos netos.

    “Pelo contrário, sobreviveu à crise de 2008 e expande-se em vários continentes. ”

    Luis, a história outra vez. Em 1788, o povo gritava “Vive le Roi”, em 1789, 1790 também, em 1793 cortaram-lhe a cabeça; em 1986 o Reagan andava com a cabeça na “guerra das estrelas” que os soviéticos vinham aí, em 1991 desfez-se a URSS; em 1914, o mundo era globalizado, a Grã-Bretanha o império onde o Sol nunca se punha, a Europa dominava o mundo, em 1945-50, a EUropa estava de rastos, as colónias iam libertar-se em breve, os EUA eram mestres e senhores, a URSS dominava metade da Europa.

    Como curiosidade. Um crescimento 5% ao ano (crescimento mundial) não é igual a 100% ao ano (mas a nossa inércia enquanto espécie planetária é capaz de cobrir a diferença), mas aqui fica uma fábula”:

    French children are told a story in which they imagine having a pond with water lily leaves floating on the surface. The lily population doubles in size every day and if left unchecked will smother the pond in 30 days, killing all the other living things in the water. Day after day the plant seems small and so it is decided to leave it to grow until it half-covers the pond, before cutting it back. They are then asked on what day half-coverage will occur. This is revealed to be the 29th day, and then there will be just one day to save the pond. (From Meadows et al. 1972)[

    • Logo leio isto com calma Miguel.

      • Bem, Miguel, vamos por partes.

        Primeiro isto:

        “Os contra-exemplos que com que o Luís me responde: eu conheço-os e concordo consigo que são reais. Discordo é na sua interpretação. Para mim, são parte do problema, pior, são o agravar do problema.”

        Eu não escrevi que os meus exemplos eram parte da solução.

        Depois isto:

        “Eu estou a colocar-me no tempo longo, e não no horizonte temporal de cinco ou dez anos.”

        Daqui a menos de cinco ou dez anos a extrema-direita chegará ao governo em alguns países da União. Sem querer perturbar as suas reflexões, diria a falta de algum sentimento de urgência nesta altura equivale a pusilanimidade.

        Finalmente isto:

        “Existem grupos, geralmente de esquerda, geralmente minoritários, que pensam seriamente sobre estas questÕes. Não existe nenhuma garantia de que sejam capazes de formular soluções eficazes para estas questões, ainda menos de as realizar. O meu receio é que, por cegueira e por frivolidade, desqualifiquemos esses esforços.”

        Antes (e não necessariamente em substituição) de esses grupos minoritários se decidirem sobre as “formas de luta” adequadas, seria útil que à esquerda alguém travasse, recorrendo a técnicas clássicas e abundantemente testadas, a pulsão destruidora das democracias europeias.

        I’m just saying.

      • Miguel diz:

        Se me tivesses avisado mais cedo que querias ir à luta tinha-te convidado ontem. Olha para aqui:

        http://www.mediapart.fr/journal/france/011213/le-front-de-gauche-se-remobilise-frileusement

        http://www.jean-luc-melenchon.fr/

        Eles fazem o que podem, faltam os restantes.

  2. caramelo diz:

    Logo vi que é um problema comunicacional. Que valores há-de defender a esquerda para se fazer ouvir pelo povo e o conquistar. Nem demasiado abrangentes (humanidade e dignidade), nem demasiado estreitos (minorias e ecologias), nem complacências (apelo ao debate). Tem de dizer ao povo aquilo que o povo consegue saber, no tempo que demora a fazer uma cagadela na sanita, que ele ainda tem de dar uma na maria antes de pegar no camião para ir entregar alfaces a sevilha. Vamos a ver se a direita é boa nisso e se lhe chega. Porque programas e valores não tem; terá, quando muito, vontade de poder. De programas e valores, tem aqueles momentos em que o Passos e o Portas afirmam que o caminho é por aqui daqui para a frente: em passando um longo caminho de cabras teremos uma estradita de asfalto mas acabaram-se de vez as autoestradas. O mundo está assim feito. O povo entende e só quer que os arruaceiros e demagogos se calem e os deixem dormir para acordar cedo no dia seguinte. Mas de seguida mandam o Marques Guedes irritar-se em público por a troika não ser connosco tão flexível como é com outros. Porquê. Porque anda o povo resignado pelo caminhito, mas olha para o lado e vê o que não deve. Ó Moisés, mas que porra é esta? Ainda agora escreveu o ananias e diz-nos que lá na cananeia afinal não andam a comer gafanhotos como nós e a deixar as carcaças no deserto. Ainda damos meia volta e voltamos para o Egito. Rais parta a minha vida… malta, vai ali o Josué dizer-vos qualquer coisa, que eu agora tenho de ir ali atrás da moita. E o patriotismo? É um desporto dominical que consiste em distribuir bandeirinhas em Olivença. Por aqui, os moços afixam as bandeirinhas que lhes são fornecidas pela troika. E é no lombo, docemente, como nos novilhos das garraiadas.

    • Você tem essa mania de não ver as coisas que despreza. Claro que a direita tem programa e valores. Julga que está a assistir a quê?

      • caramelo diz:

        Parece-me que estou a assistir a uma determinação cega, o que às vezes é tido como coragem, e não sei se isso conta como valor ou programa. Acredito que a direita está com medo e só à espera que a salvem, alguém, alguma coisa, alguma mudança de politica europeia, para não perderem a face. Por exemplo, fossem aprovados os eurobonds, que publicamente desprezam, iriam suspirar de alívio. Mas vêm más noticias da Alemanha. Não digo que não tivessem antes valores e muito sólidos. O Pedro Lomba, por exemplo, que valores tem agora? Mas se calhar estou a ser injusto com o Crato. Um Homem, Um Valor, Um Programa. Esse sim.

      • “Acredito que a direita está com medo e só à espera que a salvem, alguém, alguma coisa, alguma mudança de politica europeia, para não perderem a face.”

        É interessante. Estamos a falar nos medos da esquerda e você foca-se nos da direita. Vamos então ficar quietos à espera que os partidos que hoje em dia dominam a Europa morram de terror, coitadinhos.

      • caramelo diz:

        As esquerdas estão com medo? Acho que em Portugal estão à frente nas sondagens, mesmo com essas trapalhadas todas. De qualquer forma, acredito na superioridade dos valores da esquerda e que a esquerda com esses valores faz melhor e por isso não tem que ter medo, É por isso é que sou de esquerda. Se acreditasse que chegámos ao fim da História, e que a esquerda não consegue alternativas a isto, seria de direita ou agnóstico, não de esquerda.

      • Coloca portanto as coisas em termos religiosos?

      • caramelo diz:

        Não, caraças, é em termos de convicção.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: