Ladrão que rouba ladrão

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Li este sábado o Expresso, hábito há muito perdido, para ver se alguém desmentia a tal notícia de um possível registo dos pais fumadores no Serviço Nacional de Saúde. Em vão, o que significa que houve mesmo um génio no Governo que teve a brilhante ideia e achou por bem testá-la nos jornais.
Um sinal certo de decadência é o rigor em questões menores de comportamento e o desinteresse pelos princípios realmente importantes, notava Chesterton. “Se há alguma coisa pior do que o moderno enfraquecimento da grande moral é o fortalecimento das pequenas morais. Conheço pessimistas ibsenianos que acham censurável beber cerveja, mas não ácido prússico.” Referia-se, suponho, ao paradoxo de alguns progressistas do seu tempo que desconfiavam do álcool, mas aplaudiam o suicídio.
As coisas não mudaram muito. A verdade continua a ser relativa, mas fumar tornou-se um crime. Permitimos experiências com embriões humanos, mas não a tourada e a caça à raposa. Queremos prender o misógino acidental que conta uma anedota machista e contamos anedotas sobre o homem que, por amor, quer prender-se a uma mulher no casamento.
Sou suspeito: tenho filhos e fumo perto deles (mas só ao ar livre, confesso; a minha vida à margem da lei é recente). Até agora, tinha um cadastro limpo – não por ser um cidadão exemplar, mas por falta de imaginação. Se a coisa avançar, avisem-me. Há vários crimes que gostaria de cometer, da evasão fiscal ao desrespeito à autoridade, para que a família possa orgulhar-se de mim. Roubar bancos também é uma opção, mas ouvi dizer que já ninguém vai para a cadeia por isso.

PP

7 thoughts on “Ladrão que rouba ladrão

  1. caramelo diz:

    Texto muito divertido. É preciso é ter cuidado com os filhos fascistas, que os há, daqueles prontos a denunciar os pais ao comité de bairro. Eu ando a educar o meu filho no crime, desde pequenino, como fizeram comigo.

  2. Fernando Martins diz:

    Ninguém vai preso por assaltar bancos? Depende meu caro Pedro, depende…

  3. p D s diz:

    dar porrada na mulher, em frente aos filhos…é na boa!

    A não ser que tenha uma beata acesa no canto da boca…isso é que não pode ser..taditas das crianças!

  4. João. diz:

    Uma coisa é certa, julgo eu, uma casa onde se fume constantemente é prejudicial à saúde da criançada que lá morar. Não sei se a ideia do governo é a melhor até porque, como em tudo o resto, não se sabe bem qual é a ideia do governo – o que não quer dizer que não tenha uma, que não tenha ideias, mas que possivelmente não quer ser frontal na sua exposição.

    • henedina diz:

      E julga muito bem João. As crianças ao contrário dos adultos não se afastam do fumo por isso são vítimas mesmo em locais públicos e ao ar livre.
      Os pais não devem fumar nem permitir que se fume em casa e no carro.
      E, pais fumadores, modelam mais facilmente o filho para fumar e melhor seria que não o fizessem.
      Quando a ideias do governo devem ter muitas porque são uns idiotas.

  5. jj.amarante diz:

    A frase “Roubar bancos também é uma opção, mas ouvi dizer que já ninguém vai para a cadeia por isso.” está correcta se considerarmos que só os ninguéns vão para a cadeia caso roubem bancos. Se for alguém, sobretudo do conselho de administração, certamente não irá para a cadeia

  6. Fernando Lopes diz:

    “No mundo moderno o dinheiro vivo é uma relíquia. Todas as transacções, das mais avultadas às mais insignificantes, se fazem através de um cartão ou de uma transferência online. Excepto as operações com dinheiro negro, claro, mas estas não passam pelos bancos, ou pelo menos, não passam pelas sucursais de bairro. Resumindo, só têm nos seu cofres uma quantidade mínima de dinheiro vivo e, em consequência, já não merece a pena assaltar um banco. Os bancos, por seu turno, descuidaram a vigilância: não lhes rende nada contratarem guardas armados; o cofre-forte está sempre aberto e o alarme desligado; as câmaras apontam para o tecto, e aos empregados, convencidos que uma redução de pessoal os mandará para o olho da rua quando menos esperam, nem lhes passa pela cabeça arriscarem a vida oferecendo resistência.”

    in “O enredo da bolsa e da vida” de Eduardo Mendoza

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