Nelson Mandela (1918-2013)

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Nelson Mandela é a prova de que os homens fazem a história e não o contrário. Não sabemos o que seria a África do Sul sem Mandela, mas sabemos o que não seria: não seria o que é hoje. Muitos têm louvado o seu amor à justiça, uma forma de reclamar para quem elogia a virtude de quem se elogia. E porque não? O amor à justiça é a medida da grandeza humana. Mas Mandela tinha uma grandeza ainda maior: o amor aos inimigos. Um amor que nada tinha de retórico, sentimental ou ingénuo. Era pura inteligência política. Ele conhecia bem os abismos de perversidade a que podia descer o apartheid, mas sabia também que uma África do Sul moderna e democrática não podia apagar a história nem apagar os brancos.
Por isso, teve a grandeza de ver os seus compatriotas e ler os sinais dos tempos sem um olhar turvo pelo ódio. Renunciou à luta armada e ao socialismo ainda na prisão, mas foi a Queda do Muro de Berlim que mudou tudo. Depois de 89, o medo de uma África do Sul comunista deixou de fazer sentido. O regime do apartheid, até aí legitimado internacionalmente por esse medo, ficou ainda mais isolado. De um dia para o outro, Botha iniciou – e de Klerk prosseguiu – negociações secretas com Mandela. O fim do comunismo não libertou só a Europa de Leste do jugo soviético; do outro lado do mundo, também libertou Mandela da prisão perpétua e o ANC da prisão ideológica.
Na verdade, o homem que sai da cadeia em 1990 não é o mesmo que tinha sido preso um quarto de século antes. Compreendera o profundo complexo de cerco da “tribo branca” e o papel do rugby, desporto colectivo de combate, na cultura afrikaner. Para os descendentes dos boers, o rugby não é apenas um jogo: é o reflexo de uma visão do mundo em que defendem o seu território contra tudo e contra todos, dos zulus aos britânicos. Os All Blacks jogam com o orgulho dos predestinados, os australianos com o fôlego dos grandes espaços, os galeses com entrega romântica, os irlandeses com fighting spirit, os franceses com intuição e flair, os ingleses com fleuma e sentido prático, mas só os Springboks jogam como se estivessem a lutar pela vida (e talvez estejam). O resultado é um estilo duro, áspero, fechado, assente na conquista de terreno pelo bloco de avançados, palmo a palmo, e no jogo ao pé. Antipático, mas eficaz.
Como se viu na final do Mundial de 95, “o jogo que fez uma nação”, assim lhe chamaram. Todos conhecem a história pelo filme Invictus, de Clint Eastwood. E todos sabem que Mandela, sempre atento ao símbolos, apareceu no estádio, diante de 70 mil espectadores e de 43 milhões de sul-africanos, com a camisola 6 de François Pienaar, o capitão dos Boks. A mensagem não podia ser mais clara. A África do Sul venceu a ultrafavorita Nova Zelândia de Lomu (com a melhor prestação defensiva que já vi, evidentemente, mas isso fica para depois) e o país inteiro saiu à rua. Pela primeira vez, brancos e negros estavam do mesmo lado. Graças a Mandela, que nem gostava de rugby.
Que descanse em paz. E que a nação arco-íris também tenha paz.

PP

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21 thoughts on “Nelson Mandela (1918-2013)

  1. João. diz:

    “Mandela é a prova de que os homens fazem a história e não o contrário.”

    Voltamos portanto ao paradigma homérico da história. Voltamos à linha de rumo dos programas de Hermano Saraiva. Desaparecem as multidões ficam só alguns indivíduos e o nome da nação.

    Desaparece a mão-de-obra para ficar só o chefe.

    Típico direitismo histórico. Esquece que há muitos indivíduos excepcionais de que nunca reza a história. Não foi só Mandela que foi histórico, foram também as massas sul-africanas que aceitaram o repto de Mandela. Poderiam não tê-lo feito. Então a história não é só a do extraordinário que foi Mandela mas porque razão o povo sul-africano e o próprio ANC, mesmo sabendo que existia quem queria outro tipo de acção, se manteve com a sua ideia de reconciliação com as populações brancas.

  2. ppicoito diz:

    é verdade que Mandela não foi o único herói da democracia sul-africana, mas sem ele tudo teria sido diferente, talvez mesmo impossível. Basta olhar para o Médio Oriente ou para o que resta da Primavera Árabe para ver que, sem homens como Mandela, a história pode tornar-se um longo ciclo de ódio.

  3. ppicoito diz:

    ah, e se reconhecer a grandeza de Mandela é “típico direitismo histórico”, talvez não seja assim tão mau, pois não?

    • João. diz:

      Na verdade eu até julgo que você não pensa mesmo assim como escreveu, mas que não resistiu a mandar uma farpa ao marxismo. A meu ver, mais valia não ter mandado essa farpa porque parece-me evidente que se a noção é de que os homens fazem a história enão o contrário então, assim dito a seco, o seu colega de Blog FNV seria mais habilitado a historiador do que você uma vez que a chave da história estaria toda ela na “psicologia” dos indivíduos excepcionais.

      Claro que existem indivíduos históricos, Cesar, Napoleão…Mandela que fazem história mas essa história também faz qualquer coisa é por isso que é história, porque deixou de ser propriedade privada de um indivíduo para ser, digamos assim, capital público, que afecta as massas do seu tempo e gera através de redes de acontecimentos por vezes pouco significativos no momento, consequências que os homens históricos nunca previram nem porventura desejariam se tivessem voz na matéria.

      • ppicoito diz:

        O Filipe, mesmo que não fosse psicólogo, estaria sempre mais habilitado do que eu a escrever sobre qualquer tema. Seja como for, penso exactamente o que escrevi. não quis deixar deliberadamente uma farpa ao marxismo (aliás, seria melhor dizer determinismo, porque o marxismo não é a única escola da suspeita a negar a liberdade na história), mas é claro que a minha “filosofia da acção” é muito diferente.

      • João. diz:

        Não sei porque razão o marxismo é determinista e você não é.

        Isto de lançar a palavra liberdade para defender a nossa posição como se essa palavra não fosse o que mais carece de explicação a mim, neste caso, não me impressiona muito. Se você falar com um cientista do cérebro, com um geneticista, ou coisa que o valha, ele se calhar é capaz de lhe dar as motivações biológicas (tome isto em sentido lato) pelas quais uns homens são mais corajosos do que outros, poderão ser capazes de dizer até que tem a ver o gene tal, com hormona qual, com hemisférios e lóbulos cerebrais e por aí fora – traçando um cenário bem mais determinista do que o que você me atribui a mim e ao marxismo.

      • João. diz:

        E ainda, você dá um poder divino aos homens históricos e faz de nós todos seus carneiros. Então a diferença de liberdade que você coloca no homem histórico é tirada dos demais que passam a barro para o grande homem amassar.

        A sua história é a dos olímpicos lá em cima e da carneirada inimputável cá em baixo. Só gostaria de saber como, dado esse ascendente brutal dos homens históricos sobre o tempo de cada um, o resto de nós algum dia chegue a ser também uma individualidade.

        Ou seja, ser histórico ou ser carneirada, parece ser esse o corolário do seu conceito quando sobrevoando a problema do vir-a-ser do indivíduo e quem sabe até a sua filosofia de acção – aliás, muito afim a Hollywood em que tudo é filtrado pelo protagonista a partir do qual se entendem as posições de todos os demais.

        Compreendo agora melhor porque razão o direitismo só vê carneirada manipulada nas manifestações sindicais – não conseguem pensar o momento de decisão, de vinculação, que cada manifestante faz diariamente para se manter nas lutas sindicais inclusive no anonimato.

        Isto também é história. Destas redes anónimas de pequenas decisões e acontecimentos conseguem os grandes homens a substância de sua relevância.

  4. ppicoito diz:

    Sim, há muito determinista por aí. Há sempre quem tenha medo de deixar a história à solta.

    • João. diz:

      Aqui há tempos tivemos um debate aqui em que eu propunha que era possível mudar o passado a partir de um seu futuro, nosso presente por exemplo, através de mecanismos de retroacção do presente sobre o passado tal que, portanto, o próprio passado era mutável.

      Lembro-me de na altura você se opor a esta ideia…

      • ppicoito diz:

        é possível. Tenho o péssimo hábito de me opor a ideias que não percebo.

      • João. diz:

        Historicamente o valor e significado de um acontecimento é mutável consoante a leitura e os remetimentos que o tempo vai fazendo desse e a esse acontecimento e cujos produtos, ao longo desse tempo, podem chegar a mostrar-se incompatíveis entre si.

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro João, essa estória de ser “possível mudar o passado a partir de um seu futuro, nosso presente por exemplo, através de mecanismos de retroacção do presente sobre o passado tal que, portanto, o próprio passado era mutável” cheira-me a tresleitura serôdia da novela «The Time Machine» de H. G. Wells…
        Que tal se V. emigrar para o universo paralelo alternativo de «Red Plenty»?

      • Jorg diz:

        Hi “Jasus” – essa da “retroacção do presente” é o máximo!!!! – entra a relatividade (geral) de Einstein já emendada após as observações de Eddigton na Ilha de Príncipe? Ou é só aquele relativismo moldável de muita laico que por aí se passeia?!

      • João. diz:

        É interessante que você diga isto numa época que em Portugal se questiona muito o regime. O passado em que o 25 de Abril marcou a transição para a democracia é hoje um passado muito mais periclitante do que era nos anos 90, por exemplo, quando vinha muito dinheiro da UE.

        Não é de todo absurdo que o 25 de Abril ainda venha a ser tido como uma data trágica para Portugal – bastaria para tanto uma adesão em grande massa do povo à ideia de uma recriação do Estado Novo ou coisa do género.

        Como sabe há uma minoria que considera o 25 de Abril uma tragédia para Portugal; se essa minoria se tornar uma maioria, o que é que acontece ao significado histórico do 25 de Abril…?

      • João. diz:

        Jorg e Fernando,

        fico fascinado como apesar do carácter polémico da história vocês ainda pensem que o passado não só não é matéria de disputa como não é matéria de significado em aberto.

      • João. diz:

        E digo mais ainda: muito do que anima as mais acesas lutas políticas é a luta pela significação do passado.

  5. jj.amarante diz:

    Morreu Nelson Mandela, homem bom que admiro por ter evitado o banho de sangue que parecia inevitável na África do Sul. Muitas vezes existem alternativas ao que parece inevitável.

  6. Jorg diz:

    Mandela percebeu que o problema e o desafio para a sua Africa do Sul não seriam tanto os “brancos”, mesmo num regime esclerosado de “Apartheid” que ele, logo percebeu bem que estava caduco
    e a cair de podre. Era que o seu povo se conduzisse despojado da canga ideológica que assacava tudo o que acenava a culpas ao “homem branco”, ao “Colonialismo” e ao “Ocidente” e que nos outros países africanos tinham produzido o enorme catalogo de horrores e de brutalidades para os povos que os habitavam. Foi claro desde a sua libertação que Mandela não queria para o seu País nenhum “homem novo”, e queria uma comunidade branca que sabia ser “sul-africana” como parte da solução do seu País – olhando para norte, e para os horrores que as “descolonizações” por ali acima, com conflitos étnicos, tribais, por vezes religiosos e com supremacias de autocracias brutais e alucinadas que arrebanhavam tudo o que pudesse ser riquezas e poderes.
    Por isso, a sua presidência, mesmo nas canduras com a comunidade branca – os chás com as esposas dos ex-presidentes (sob o Apartheid), a vénia ao ‘rugby’- eram uma extrema magnanimidade para a comunidade branca,foi um reiterado esforço de pedagogia para o seu ANC, e uma continua e persistente recusa de derivas autocrática estilo “black power” que incluíu a brutal oposição as hilariações do Inkhata ou cauções de condescendência perante as facções do ANC que em nome da “revolução” ou outras alucinações pretendiam ver legitimada a violência mais rasa e brutal. Que o ANC, sempre maioritario, tenha conseguido, nos anos de liderança politica de Mandela, não ser um MPLA ou uma FRELIMO – ou ter-se transformado numa alucinação tipo Mugabe, ou numa daquelas palhaçadas “sul-americanas” – é um dos maiores legados de Mandela, e talvez aquele que ele perseguiu com mais tenacidade e consciência.

    • caramelo diz:

      Sócio, o maior legado do Mandela, aquele que ele perseguiu com mais tenacidade e pelo qual esteve preso tantos anos, foi ter acabado com o apartheid. Não foi ter evitado o comunismo. Ele não era o Karol Woitila, era o Mandela, um negro na África do Sul. Ele não olhou para o norte e viu horrores, ele olhou para dentro e viu horrores. E o apartheid era mesmo culpa de homens brancos, que se achavam superiores aos homens pretos, os separavam e remetiam à miséria. Eu também tive uma fase direitolas há trinta anos, quando ser direitolas era rock’n’roll, não esta música de boys band de agora, e papei nessa altura o Pascal Bruckner e o seu Remorso do Homem Branco, mais o Revel, etc (a direita franciú, não deixando de ser bronca, tinha charme nessa altura). Mas libertei-me há muito dessa espécie de espírito de europeu acossado, que se torna ainda mais ridículo nesta altura em que somos tratados como sub-grupo inferior pelo afrikaners do norte.

      • Jörg diz:

        A acção politica de Mandela, depois da libertação e quando assumiu a Presidência (e quando a deixou, sem esperar a própria mumificação no cargo…) foi de facto tudo isso que recita… Quando andou a tentar desinfectar o ANC – por exemplo, dos gangues que a ex-Mulher Winnie, ou outros, acolitaram no Soweto como Guarda Pretoriana e base de “cronismos”- a berrar com os seus para apoiarem a equipa nacional de Rugby e a ser intrasigente com os delírios do Inkhata, ou até a criticar Mbeki pelas alucinadas teorias da SIDA, andavam de facto a olhar para dentro…mas com luzes que vinham de fora.

      • caramelo diz:

        wherevas. O Vasco Pulido Valente diz que ele só era assim, porque era meio inglês. Diz de outra maneira, vá, que ele é mais sostificado do que a mim.

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