Libertem Mandela (do apartheid vermelho)

Morre Mandela e o mundo inteiro presta-lhe homenagem. O que é que faz a esquerda portuguesa? Aproveita para bater no Passos e no Cavaco. Faz sentido: os homens também se definem pelos seus inimigos. Mandela lutou contra um dos regimes mais iníquos do século XX, a esquerda luta contra dois políticos democraticamente eleitos. Diz muito sobre o seu amor à democracia.
Mesmo assim, a esquerda quer o monopólio da memória de Mandela. Ele, que defendeu a luta armada quando não havia outra alternativa, é o novo profeta da paulada magna. De nada servirá apontar a diferença entre o apartheid e um regime democrático. De nada servirá lembrar que Mandela renunciou à violência quando as circunstâncias mudaram. De nada servirá recordar que foi o fim do comunismo que levou à transição sul-africana. Os camaradas não perdem tempo com pormenores.
Mas até eu tenho pouco estômago para ver o Daniel Oliveira, militante de um partido totalitário em 87, acusar Cavaco de um voto ao lado de Reagan e Thatcher na ONU. Ou os órfãos de Sócrates, que andou com Kadhafi ao colo, acusarem Passos de leituras selectivas. E olhem que eu sou de direita: tenho um estômago muito tolerante a selectividades.

PP

31 thoughts on “Libertem Mandela (do apartheid vermelho)

  1. João. diz:

    “De nada servirá recordar que foi o fim do comunismo que levou à transição sul-africana.”

    – É isto que precisamente mostra o papel da direita em relação ao Apartheid, e falo aqui de Reagan e Thatcher como seus grandes representantes na altura, e ainda hoje.

    Você sugere que o Apartheid dura porque havia receio por parte de EUA e UK que um regime comunista pudesse surgir na África do Sul e isto marca uma ideia bem clara: que a direita estava disposta a manter os negros sul africanos sobre o jugo racista dos brancos em nome do combate ao comunismo.

    É bom que se saiba bem a que está disposta a direita nos seus combates.

    • ppicoito diz:

      Não, não é nada disso que sugiro. Havia um isolamento político real do regime do apartheid por parte do Ocidente, com condenações explíctas do racismo, visíveis por exemplo nos tais votos da ONU de 87 que não consideravam a luta armada como meio de mudança política. Ou no boicote desportivo às equipas sul-africanas. Acontece que a via africana para o socialismo prometia uma guerra civil, um desastre económico e um racismo ao contrário de que os países africanos vizinhos, entre os quais Angola e Moçambique, eram uma prova viva. O apartheid era um problema geopolítico regional que se relacionava com a Guerra Fria, um pouco à semelhança do que hoje se passa com o apoio ocidental a Israel, aliado ocidental no Médio Oriente. Mais do que isso (e suponho que isto o vá surpreender muito): sabe-se hoje, pela abertura dos arquivos sovièticos, que a própria URSS praticamente deixara de apoiar o ANC, dos pontos de vista logístico e financeiro, porque deixara de acreditar na revolução sul-africana.

      • João. diz:

        “Acontece que a via africana para o socialismo prometia uma guerra civil, um desastre económico e um racismo ao contrário de que os países africanos vizinhos, entre os quais Angola e Moçambique, eram uma prova viva.”

        – ou seja, o que o Apartheid dizia sobre a via africana era também a posição oficial da direita americana e inglesa, ou dos Estados americano e inglês (e português também) – e pelos vistos a sua também.

        Mandela e o ANC antes de Mandela ser preso, durante a sua prisão e desde sempre, demandava simplesmente: um homem, um voto. Isto, é claro, significava a queda do regime e a eleição do ANC mas isso é a vida.

        A luta armada, a aceitação da via armada, era mais que justificável em vista do Apartheid rejeitar a ideia de um homem um voto. Os EUA que lançaram uma guerra civíl contra os ingleses em nome de um princípio semelhante – o de um homem um voto para o governo da terra deles – não queriam estender a mesma compreensão à luta contra o Apartheid como se apenas os americanos e os brancos tivessem direito à luta armada pela sua auto-determinação, como se os negros, os africanos, tenham que estar sempre à espera que os brancos, que os europeus, decidam as coisas por eles.

        Parece que aos africanos não lhes restaria senão fazer petições por escrito e sentar na salinha de espera dos EUA da Europa.

        A sua resposta apenas confirma o que tinha dito antes. As posições meias-tintas e permissivas dos EUA e do RU em relação ao Apartheid beseavam-se em cálculos geopolíticos na luta contra a URSS, ou seja, em nome da luta contra a URSS os EUA e o RU não se inibiram de proteger um regime racista como o Apartheid.

    • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

      Caro João, presumo que V. pense ser «de Esquerda».
      Se assim é, e se V. anda por aí (qual menino-guerreiro) na luta pela significação na História, talvez possa explicar-nos porque motivo só grandes personagens históricas “da Esquerda” ordenaram grandes extermínios.

  2. Não há mal nenhum – pelo contrário – em “(a esquerda) lutar contra dois líderes democraticamente eleitos”. Afinal, os “líderes democraticamente eleitos” também foram eleitos para serem democraticamente combatidos.
    Faz parte da “esquerda” exibir esses monopólios morais. É natural. Talvez até por falta de comparência da “direita”. Esta costuma estar mais à vontade com outro género de monopólios. Depois não se queixe.
    De resto, acusar Passos Coelho de hipocrisia é inútil, porque é uma redundância. E, neste caso, os ataques a Cavaco são, em boa medida, injustos.

    • ppicoito diz:

      E no combate democrático também entra a apologia da violência por interposta luta do ANC contra o apartheid? A mim parece-me um uso muito míope da memória de Mandela. Tão míope como qualquer sugestão de semelhança entre o apartheid e a actual democracia portuguesa.

      • Hum?! Que “apologia da violência”?… Mas alguém fez alguma analogia entre o apartheid (que não era um “regime”) e a democracia portuguesa?… Achas que é isso que está por detrás dos ataques ao Cavaco?… (pergunta não retórica).

  3. p D s diz:

    PP,

    quase me apetecia comentar que:

    “Epá, até á comentadores que louvam o Mandela, mas não são capazes de perdoar aos esquerdalhados extremistas que agora apontam o dedo ao Cavaco…esquecendo-se que o Mandela olhou apenas para o futuro”

    o Mandela dá para tudo: Até para esfregar na cara dos que em nome de Mandela disparam sobre cavaco……mas tambem para atirar contra aqueles que o esfregam na cara da esquerdalhada !
    Ou seja, quando começamos com os “moralismos” …mais cedo ou mais tarde parte-nos a espinha, de tanta cambalhota!

    Mas não, não comento…prefiro imagina o Sorriso que o Mandela está agora a partilhar com o Biko.

  4. ppicoito diz:

    Não é verdade que o ANC antes da libertação de Mandela quisesse apenas um homem, um voto. Tinha também uma ideologia muito próxima do comunismo (nacionalizações, reforma agrária, etc.) que seria uma verdadeira tragédia se levada à prática. Ou seja, não era nada evidente que quisesse uma democracia no sentido pleno da palavra. De resto, os laços entre o ANC, Mandela e o partido comunista sul-africano são bem conhecidos, e não conhece nenhum país do mundo, com ou sem racismo, onde o poder comunista tenha conduzudo a uma democracia. Se as coisas correram bem (ou menos mal) na África do Sul, foi exactamente devido ao génio político de Mandela. Além disso, o ANC defendia a luta armada (julgo mesmo que nunca renunciou explicitamente a ela), numa altura em que Tatcher tinha o IRA à porta. Os cálculos geopolíticos que lhe parecem tão lamentáveis são os mesmos que levam a África do Sul a negar o visto ao Dalai Lama para não ofender a China. Mas isso jão não o choca, pois não?

    • ppicoito diz:

      Thatcher e não Tatcher, claro.

    • João. diz:

      Há um excerpto de uma entrevista a Mandela quando ele estava na clandestinidade antes de ir preso onde ele já dizia que o objectivo é um homem, um voto.

      • ppicoito diz:

        Obviamente que o objectivo era um homem, um voto, mas não só. O ANC tinha (e alguns ainda têm) um projecto político socialista, felizmente abandonado por Mandela. Convém lembrar que no seu primeiro comício após a libertação, no Soweto, ainda defende as nacionalizações. Foi inteligente para perceber a tempo que o socialismo seria o fim de uma África do Sul desenvolvida.

      • João. diz:

        Essa conclusão é presunção sua. A Africa do Sul, hoje em dia, está longe de ser uma economia desenvolvida no sentido essencial de libertar os homens da preocupação excessiva com a sobrevivência de modo a que se possam lançar para os aspectos vocacionais, ou seja, para a individualidade.

        Mas eu já sei como é a direita:

        A África do Sul é socialista e não é consoante as necessidades da argumentação do momento.

        Você agora diz que não é socialista. Mas amanhã, caso haja algum afundamento económico dirá que é socialista.

        A direita é assim, em geral só é de direita o que desce da chaminé com o pai natal fazendo as alegrias do papai, da mamãe, da vovó e do vovô, do menino e da menina – tudo o que não seja isto, é socialismo.

    • p D s diz:

      PP, perdoe-me o exagero comparativo, mas

      o que eu referi foi que dando como valida o titulo do post, bem como a sua introdução, seguindo a mesmissma “lógica sofista” do post, poderia facilmente pegar nas suas próprias palavras e afirmar algo do tipo:

      “Morre Mandela e o mundo inteiro presta-lhe homenagem. O que é que faz (…)”
      um blogger ?

      “Aproveita para bater (…)” na esquerdalhada.
      “Faz sentido: os homens também se definem pelos seus inimigos. Mandela lutou contra um dos regimes mais iníquo do século XX, (…)” o blogger luta contra ideias e opiniões democraticamente manifestadas.

      ” Diz muito sobre o seu amor à democracia. (…)”

      e por aqui fora. Era só mudar os sujeitos que a argumentária continuaria a fazer o mesmo sentido…ou seja, pouco ou nenhum!

    • Miguel diz:

      Atenção, Pedro. Ser socialista e defender nacionalizações não equivale nem implica ser anti-democrático. Miterrand em 1981 nacionalizou muita coisa e não foi por isso que acabou com a democracia. Convém ordenar as ideias.

      • ppicoito diz:

        Não vou discutir a falta de democraticidade das nacionalizações, mas a França de Mitterand não tem muito que ver com a África do Sul que o ANC dos anos 60 e 70 idealizava.

  5. Acusar de hipocrisia Passos Coelho? Parece-me que o post em questão acusa-o de ignorância. Mastodôntica, por sinal. Mandela foi o líder da “resistência não violenta”? Só na cabecinha tecnofórmica de Coelho.

    • ppicoito diz:

      Não é ignorância, é obviamente uma leitura selectiva da vida de Mandela (criticável, com certeza, de preferência por quem não faça o mesmo). Mas seja, vou mudar a palavra.

  6. ppicoito diz:

    Carlos, lê os posts do Arrastão (incluindo os do Sérgio Lavos) para perceber o que quero dizer.

    • Inclui o meu post em quê? Na apologia da violência? Quem quis demarcar completamente as duas metades da vida Mandela foram Passos Coelho e Cavaco. A selectividade do PM, aliás, é que visa um aproveitamento político da morte de Mandela, dando a entender que a grandeza de Mandela se deve à sua defesa do apaziguamento depois do fim do apartheid. Ora, o que eu digo é que o Mandela “terrorista” e o Mandela estadista são inseparáveis, duas faces de um político que quase sempre fez o que era certo pelo seu país.

      • ppicoito diz:

        Quem separou o terrorista e o estadista foi o próprio Mandela, quando renunciou à violência. É essa a sua grandeza. E é muito rara. Quando à apologia da violência: “Por enquanto, Portugal é uma democracia (mais ou menos) plena. Será em eleições que os dois irão sentir a rejeição das suas políticas. A ameaça da violência não existe, para já. Podem dormir descansados.”
        Para já? Democracia mais ou menos plena? E eles, Cavaco e Passos, é que podem dormir descansados ou somos todos nós que não podemos dormir descansados se houver violência?

  7. caramelo diz:

    “Mandela lutou contra um dos regimes mais iníquos do século XX, a esquerda luta contra dois políticos democraticamente eleitos. Diz muito sobre o seu amor à democracia.”

    Pedro, facilitava muito o debate se concordássemos todos que se pode criticar governantes eleitos e mesmo assim termos amor à democracia. Àquela democracia em que se podem criticar governantes eleitos, quero eu dizer, não a outra.
    O Carlos Botelho já teve a caridade de reconhecr que, enfim, a esquerda até tem o direito de o fazer, como se dissesse que se uma criança mimada se quer encher de chocolates, que o faça.
    Adiante, acabado o período de nonsense, e falando sobre o Mandela, o respeito que lhe é devido, etc, eu começaria por dizer que falar em “apartheid vermelho”, a propósito de um tipo, ou dois ou um milhão, que criticam o cavaco e o passos, não será a melhor homenagem que se pode fazer ao Mandela.
    Não há uma Mandela antes e um Mandela depois, um violento, antes e um pacifico depois, há um homem que numa determinada circunstância defendeu a luta armada, mesmo contra os dirigentes de então do ANC, e que, quando as circunstãncias o permitiram, apelou à paz e deu a mão ao inimigo, porque do outro lado teve um interlecutor com o mesmo desejo. Se estivesse ainda o Verwoerd ou o Vorster no poder as coisas fiavam mais fino. Era um bom homem, mas era sobretudo um pragmático e, por isso, um grande estadista. E um grande estadista tem de estar pronto a defender a luta armada ou a paz, dependendo das circunstâncias.

    • ppicoito diz:

      A ver se nos entendemos. O que eu critico são aqueles que amesquinham Mandela usando-o como arma de arremeso contra Cavaco e Passos, querendo-os colocar do lado do apartheid. Se, ainda por cima, há a insinuação de que a luta contra Passos e Cavaco é uma espécie de libertação do opressor e que, portanto, a violência pode ser legítima (como foi dito na Aula Magna), então não vejo bem onde é que está a democracia.

  8. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro João, só para lhe dar 2 singelos exemplos para V. tentar explicar à luz do seu aparente determinismo indeterminista: Katyn e Cambodja.
    Vá, pelo menos tente…

    • João. diz:

      Ok. Eu não disse que não houve massacres mas como falou em ordens para grandes extermínios pensei que tivesse alguma novidade.

      Mas se quiser eu dou-lhe uma novidade: os americanos receberam ordens para bombardear a Coreia do Norte durante 3 anos. Foram arrasadas todas as cidades e vilas, os norte-coreanos chegaram a transferir-se em massa para grutas. Estima-se que entre 20 a 30% da população norte-coreana morreu devido a esses bombardeamentos.

      Isto não é um massacre? Ou porque são norte-coreanos, não importa.

      Ah, quem deu ordens para se largarem 2 bombas atómicas sobre populações civís?

      Quem deu ordens para massacrar civís japoneses com bombardeamentos aéreos em massa sobre Tóquio?

      Quem massacrou índios? Quem massacrou africanos? Quem foram as potências coloniais da áfrica, responsáveis pela exploração brutal de milhões?

      Quem era a autoridade política sobre a índia quando morreram milhões de fome:

      http://en.wikipedia.org/wiki/Timeline_of_major_famines_in_India_during_British_rule

      Eu não nego a existência de grande violência na história do comunismo não tenho é paciência para receber lições de regimes que se dizem democráticos mas que trazem um lastro de milhões de mortos ao longo de sua história.

    • Jorg diz:

      La Sinistra è mobile
      Qual piuma al vento,
      muta d’accento
      e di pensiero.

      Sempre un amabile,
      leggiadro viso,
      in pianto o in riso,
      è menzognero.

      La Sinistra è mobil’.
      Qual piuma al vento,
      muta d’accento
      e di pensier’!

      È sempre misero
      chi a lei s’affida,
      chi le confida
      mal cauto il core!

      La Sinistra è mobil’
      Qual piuma al vento,
      muta d’accento
      e di pensier’!

  9. João. diz:

    Num aparte, quanto à questão de uma suposta presunção se superioridade moral da esquerda que foi aqui mencionada por Carlos Botelho, quero só lembrar que a direita portuguesa é aquela que acha necessário andar constantemente a mandar trabalhar os outros e a sugerir que o país está cheio de mandriões e parasitas.

    Isto, meus caros, é que é moralismo a sério, daquele bem à moda antiga. Para isto, para um moralismo deste calibre e desta agressividade, a esquerda não é páreo.

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