Obviamente, demitem-no

As palavras de Crato sobre a má qualidade de alguns professores (alguns, sublinhe-se) incendiaram as escolas superiores de educação e os seus representantes, que já exigiram a demissão do Ministro. Mas ele limitou-se a dizer o óbvio: há professores que, por falta de mérito, ou de motivação, ou e qualquer outra coisa, não deviam dar aulas. Como uma vez aqui referi, estou particularemente à vontade para regar com gasolina estas declarações incendiárias porque dou aulas a futuros professores do 1º ciclo. E sei que muitos (muitos e não todos, sublinhe-se) acabam os três anos da licenciatura com falhas graves no domínio da língua materna. Adivinho o que se passará com a matemática.
Pode-se dicutir a causa, ou causas, da situação. Até porque as universidades e politécnicos não conseguem dar aos alunos, em três anos, o que o ensino obrigatório não lhes deu em doze.
Pode-se discutir se o actual modelo de formação de professores, que os mistura na licenciatura com futuros educadores de infância, é o mais eficaz.
Pode-se discutir se Bolonha não veio piorar o que já estava mal.
Pode-se discutir se a famosa prova dos professores é a melhor solução.
O que me parece indiscutível são as consequências de tudo isto no ensino. Se quem forma os profesores está mais preocupado com o respectivo quintal do que com o país, então o problema, por uma vez, não está na 5 de Outubro.

PP

62 thoughts on “Obviamente, demitem-no

  1. XisPto diz:

    “Pode-se discutir se a famosa prova dos professores é a melhor solução.”
    Ou, se é mesmo uma solução. Pelo que li sobre o seu conteúdo não se percebe que o seja.

    • ppicoito diz:

      Talvez. Há muitas críticas a fazer à prova, até porque não há provas perfeitas. Mas é melhor que nada.

      • “É melhor que nada” porquê? Nada pode ser melhor que a asneira.

      • ppicoito diz:

        É melhor que nada porque é a aplicação de um princípio. A aplicação talvez seja ainda incorrecta, mas o princípio é correcto.

      • “É melhor que nada porque é a aplicação de um princípio.” – Mas que argumento é este, Pedro? A aplicação de um “princípio” é algo de bom porquê? Isso é vazio – depende do conteúdo.
        “A aplicação talvez seja ainda incorrecta, mas o princípio é correcto.” – “O princípio é correcto” porquê? Não basta dizer-se que é correcto sem mais. É demagogicamente sedutor, lá isso é verdade. Mas, atirado assim, sem justificação, não passa de uma boa treta. Balelas.
        Nada disto é algo que remotamente se pareça com uma “política de educação”. O Crato tem na cabeça apenas umas generalidades (umas vagamente certeiras, outras demagógicas e ignorantes). Toda esta história – a que, estranhamente, aderes, certamente seduzido pela sereia da “avaliação”- não passa de uma charlatanice política.
        Mas será popular, decerto.

  2. João. diz:

    você em Portugal tem um Presidente da República que disse dos 9 Cantos dos Lusíadas, tem um PM que leu a Fenomenologia do Ser de Sartre, teve um outro PM que preferia os concertos para violino de Chopin – e é esta malta que quer andar a falar da incompetência dos professores.

    Ninguém da área do Cratismo quis elaborar sobre o resultado de um dos estudos do PISA que indica que Portugal é o país em que os estudantes mais gostam dos seus professores.

    Enfim, em vez de valorizar os professores, de valorizar a profissão, não só financeiramente mas, hoje em dia, também moral e anímicamente em que, havendo problemas na formação, que se intervenha sobre os cursos melhorando-os, sem andar a fazer alarido e a lançar a desconfiança sobre toda a classe.

    Qualquer país que se dá ao respeito não trata os professores como são tratados em Portugal, onde são xulos, parasitas, preguiçosos, incompetentes e burros.

    Não admira portanto:

    “De acordo com o estudo que suporta o ranking, apenas 12% dos portugueses encoraja os seus filhos a tornarem-se professores, o que é o segundo nível mais baixo, apenas suplantado por Israel. Além disso, mais de 50% assume que “provavelmente ou definitivamente” não encorajará os seus filhos a tornarem-se professores, a mais alta percentagem entre os 21 países do estudo.”

    http://www.publico.pt/sociedade/noticia/estatuto-social-dos-professores-em-portugal-entre-os-mais-baixos-do-mundo-1607882

    A direita burra (desculpem a redundância) convenceu-se que é atingindo os profissionais na sua honra e brio que se os motiva. O terceiro-mundismo mental é isto. É este governo que temos.

  3. jj.amarante diz:

    O que me oarece aqui grave é a anulação do carácter até agora definitivo que tinha a obtenção dum diploma para o desempenho de uma determinada função. Um dia destes o ministro poderá suspeitar que os doutoramentos obtidos através de provas realizadas há algum tempo perderam a validade porque o mundo entretanto mudou muito e exigirá que todos os doutorados apresentem uma nova tese para confirmar a qualidade do doutoramento e possibilitar a continuação do contrato com a instituição de ensino onde trabalha o doutorado.

    • Carlos diz:

      “O que me parece aqui grave é a anulação do carácter até agora definitivo que tinha a obtenção dum diploma para o desempenho de uma determinada função. Mas isso já acontece em muitas áreas profissionais: um contabilista tem de fazer um exame de acesso para ser TOC, mesmo que tenha lic. em contabilidade; um licenciado em engenharia também tem de fazer prova de admissão para ser engenheiro, etc etc. A mim o que me parece grave é que, quer o formado em contabilidade, quer o formado em engenharia, se não conseguirem entrar para as respectivas Ordens tenham sempre como plano B o ensino. Porquê? porque não é necessária nenhuma prova de admissão. Dou-me como exemplo: embora tenha conseguido boas notas na licenciatura e no mestrado não tenho um pingo de paciencia para aturar 20 miúdos (ou graúdos). De resto estamos todos de acordo: uma prova de admissão à carreira de professor que se apresenta como uma versão mal amanhada da tabuada dos nove + ditado «a vaquinha dá leite…» é uma completa estupidez. E também é verdade que muitas das provas de acesso às Ordens profissionais não são mais do que um meio para a embelezar a tesouraria das Ordens. Mas faz-me confusão a ideia do jovem de borbulha na cara que sai da universidade e vai ter o enorme poder de decidir (avaliar) o sucesso ou insucesso de 20 alunos, sem primeiro ser posto à prova numa prova nacional, igual para todas as licenciaturas.

      • João. diz:

        Que eu saiba existe um estágio de um ano que inclui provas de vária espécie antes de o aluno borbulhento ser libertado. Pelo menos no meu tempo havia. Para entrar para a profissão depois do curso você tinha um ano em estágio numa escola onde era avaliado por um professor designado para o efeito na escola onde estagiava e por outro professor na universidade. Da avaliação para além de trabalhos teóricos havia uma série de aulas assistidas por ambos os professores e todo um dossier de planificações e de avaliações de aula e alunos que era também avaliado.

        Enfim, o estágio era bem trabalhoso. E era um ano em que a sua nota iria fazer média com a média do seu curso para sacar a média de concurso – ou seja, esse ano de estágio valia 50% da nota profissional sendo os restantes 50% a média final do seu curso.

        O meu tempo, não foi há tanto tempo assim, se as coisas mudaram muito talvez alguém me possa corrigir.

  4. Bone diz:

    Sinceramente, custa-me compreender como é que um professor acha natural atribuir uma licenciatura a um aluno com “falhas graves no domínio da língua materna” e não assume qualquer responsabilidade, que a tem, em impedir que isso aconteça. Crato aponta ao alvo mais fraco porque é mais fácil em vez de, como devia, ir ver o que se passa em instituições de ES como a sua que acham normal aceitar e certificar alunos sem o mínimo de critério. Acresce que a tal prova não prova nada, destina-se apenas a justificar formalmente a decisão de excluir do sistema milhares de professores. Crato não está para se maçar muito a reflectir sobre as coisas, tomar decisões ponderadas e discuti-las com os actores, afinal não é um cientista social, é apenas um matemático com metas para atingir, noves fora nada.

    • ppicoito diz:

      Não sou professor de língua portuguesa, embora lhes corrija os erros na medida do possível. Mas, se fosse, duvido que os meus esforços tivessem algum sucesso. Nem imagina o nível de domínio da língua com que alguns alunos terminam o secundário. É verdade que esses alunos nem sempre terminam a licenciatura com um nível muito melhor. Foi o que Crato disse e caiu~lhe tudo em cima. Nos casos mais graves, sou da opinião (e já a exprimi em sede própria, ou seja no Conselho Científico) que não se devia dar a licenciatura. Uma opinião nem sempre bem recebida por todos os meus colegas, obviamente.

      • Bone diz:

        Dar erros ortográficos, se é a isso que se refere, não me parece que corresponda a “falhas graves no domínio da língua materna” e são lacunas facilmente corrigíveis. Não se compreende até como há tanto médico que não é capaz de escrever uma frase escorreita (quando houver médicos a mais e for preciso “eliminá-los” alguém se lembrará de exigir que escrevam correctamente). Agora, ser incapaz de ler e interpretar ou construir frases com sentido gramatical e conteudístico é grave, complexo e compromete necessariamente o sucesso nos outros domínios do conhecimento. Até na matemática, onde suspeito que por detrás dos maus resultados dos alunos nas avaliações da disciplina estejam dificuldades de compreensão das questões por parte dos alunos e até dificuldades dos próprios professores na construção de questões claras e compreensíveis, em bom português. Não me parece fazer sentido que alunos universitários possam ser bem sucedidos nas outras disciplinas se o domínio da língua não existir. Infelizmente, muitos professores têm o péssimo vício de externalizar a sua responsabilidade, culpando ou os professores das outras disciplinas ou os professores dos ciclos anteriores. Os professores do 2º e 3º ciclo queixam-se de não ser possível suprir deficiências que vêm de trás, do 1º ciclo, os do secundário idem e os universitários idem aspas. Os do 1º ciclo julgo que se queixam das famílias…embora a “família” seja um pretexto transversal aos vários níveis de ensino, começa logo no jardim de infância. Perante tanta falta de pré-requisitos, os pobre professores estabelecem metas ad hoc não em função da disciplina mas da situação concreta do aluno, resultando num sucesso artificial. A cultura de sucesso a todo o custo, na qual parece não existir alternativa, aos alunos já não é reconhecido o direito de falhar, de serem maus alunos, é totalitária. Os professores podem resistir, na sua pequena ilha têm o poder de enfrentar a corrente. Se não o fazem, são também parte do problema.

      • ppicoito diz:

        A culpa não é de ninguém, portanto, mas de uma cultura de sucesso totalitária. O seu comentário ilustra muito bem o que quero dizer.

      • Bone diz:

        Bolas, já nem sei se é o Pedro que não compreende, ou não quer compreender, o que pretendo dizer se sou eu que não sou capaz de me fazer entender😉 Feliz ano novo!

      • ppicoito diz:

        Feliz ano novo para si também (seja o que for que quis dizer).

  5. AntónioJoaquim diz:

    “Como uma vez aqui referi, estou particularemente à vontade para regar com gasolina estas declarações incendiárias porque dou aulas a futuros professores do 1º ciclo. E sei que muitos (muitos e não todos, sublinhe-se) acabam os três anos da licenciatura com falhas graves no domínio da língua materna. Adivinho o que se passará com a matemática.”
    Está a admitir que não deveria estar onde está e que não merece o que lhe pagam,que é conivente com o sistema???

  6. veronica santos diz:

    Gostei muito deste artigo. Existe um deficit de cultura e sentido de profissão que, infelizmente, não atravessa apenas a classe de professores, mas, precisamente por serem professores, devem ter uma responsabilidade acrescida. Que a escolha da profissão não se meça apenas pela recompensa económica. Então porque não os chumbam? Porque é que os autorizam a dar aulas? Não existe uma responsabilidade das escolas superiores de educação em saber formar e avaliar da competência para o exercício da profissão? O que dizer da competência e responsabilidade das escolas superiores de educação?

    • ppicoito diz:

      Existe e chama-se estágio. Em princípio, os casos mais graves chumbam no estágio ou são aconselhados a escolher outra profissão. Tenho muito boa impressão dos orientadores de estágio que conheço, mas naturalmente não posso responder por todos.

      • Estágio?!… Que estágio?… O que agora passa por “estágio” (agora pomposamente chamado “mestrado”) tem muito pouco que ver com o que era um efectivo estágio antes de Sócrates/Lurdes Rodrigues.
        Mas claro que os imbecis presentes, em vez que procurarem atalhar os problemas a sério, atiram com estas “provas” – que, como é óbvio, embasbacam o público ignorante… perdão, mal informado.

      • ppicoito diz:

        Pois, Bolonha e o Sócrates vieram complicar bastante as coisas. Mais uma razão para as emendar. Com ou sem imbecis.

      • Não há aqui nenhuma emenda. Com ou sem imbecis. Ou com os que se põem do lado dos imbecis. São, neste caso, os ‘inteligentes úteis’.

    • veronica santos diz:

      Obrigada pela resposta. Sou uma seguidora deste blogue. Muitos parabéns antes de mais! Em relação á temática em questão, gostaria de deixar uma sugestão. Porque não aumentar o grau de exigência do currículo. Por exemplo, com formação geral nas mais diversas áreas, desde historia de Portugal, recente, filosofia, ética, cidadania, literatura, arte, historia universal comparada,… É só uma sugestão, mas acho que daria muitos bons resultados.

      • ppicoito diz:

        Concordo inteiramente. Mas há duas objecções de fundo a essas boas intenções. A primeira é que a carga horária de um curso de Educação Básica já é geralmente muito pesada. Para introduzir as cadeiras que sugere, seria preciso retirar algumas das que já existe. A segunda objecção relaciona-se com esta. O actual currículo dos cursos de EB tem uma forte componente de cadeiras de pedagogia e ciências da educação. Concordo consigo que a “cultura geral” devia ser mais valorizada. Até sou da opinião que a componente científica de língua portuguesa, matemática, ciências, história, etc., devia ser reforçada em detrimento das ciências da educação. Mas sou uma voz isolada e não acredito que tão cedo as coisas mudem.

      • caramelo diz:

        Verónica, as crianças não precisam de mais disciplinas; por alguma razão, se chama ensino básico. No meio deste paroxismo do culto da exigência, criado pelo Crato e os demais sacerdotes da educação, é muito fácil perdermos o sentido das proporções, tratando as crianças como se fossem praticamente adultos em formação intensiva no ensino superior. A aprendizagem é feita ao longo do seu percurso de escolaridade, que já é longo (se tudo correr bem) e até ao longo da vida. A carga horária já é atualmente excessiva e as matérias dadas já são demasiadas nas discplinas que têm. O espantoso é que cada vez se dá menos importãncia á pedagogia, uma disciplina e uma prática que, se não tem tanta importância no superior, segundo o Pedro (parece-me óbvio que tem em todos os graus do ensino; professores chatos e monocórdicos que conseguem transmitir conhecimento e interesse pela obtenção do conhecimento serão sempre a excepção, mas deixemos isso agora) é fundamental no básico. Ou então, de caminho, podemos abolir a psicologia e até a filosofia, no que tem de essencial e nobre, que é a discussão sobre o conhecimento e a sua transmissão.
        Este ministro será avaliado pelos resultados que conseguir, não pelo discurso e intenções. Faça lá os exames, avaliações, testes, etc, e veremos o que resulta disso tudo.

      • veronica santos diz:

        Boa tarde antes de mais, ao leitor caramelo. Gostaria de fazer uma correcção em resposta ao seu comentário. Percebo o teor do mesmo, contudo, não o compreendo. Quando me refiro a aumentar o grau de exigência do currículo, não estou a pensar no currículo a ser ministrado ao ensino, como afirma, das crianças. Estou sim, a referir-me ao currículo para os professores. Falo em educação e formação dos adultos. Enquanto pessoas completas, dotadas de uma solida formação de base e de uma cultura geral, que em principio, e por exigência da respectiva profissão, deve ser superior á media. Segundo ponto de que discordo, da posição que resulta de um privilegiar da componente pedagógica, que também é importante, naturalmente, mas que insiste em tratar as crianças, como se não fossem adultos em potência, o que é um erro, porque são. Não vejo qual seja o mal em tratar as crianças como adultos em plena potência, com a devida responsabilidade e grau de exigência adequada ao nivel do ensino, naturalmente. Ao privilegiar demasiado esta abordagem em detrimento de outras componentes como as anteriormente referidas, pode-se correr o risco de infantilizar demasiado as mesmas crianças e com isso, a respectiva perda de autonomia e respectiva responsabilidade.

        Melhores cumprimentos,

        Veronica Santos

      • veronica santos diz:

        Para o autor da coluna. Obrigada pela resposta, e bom ano 2014. Felicidades.

      • XisPto diz:

        Caramelo: as crianças precisam de disciplina, ensinar precisa de disciplina, aprender precisa de disciplina, a criação artística precisa de disciplina, a atividade profissional pprecisa de disciplina, a investigação fundamental precisa de disciplina e até o Carrilho tem melhorado com alguma disciplina… É difícil imaginar qualquer atividade intelectual e social sem disciplina, mas vc usa a expressão com um sentido pejorativo que fez o melhor do eduquês e transformou algum ambiente das escola em algo a necessitar de disciplina PSP porque está para além da competência do desgraçado do prof presente. Em Inglaterra creio que chamam o paizinho e dizem que se a coisa continuar o penalizam em dinheiro, em França Ségolène Royal defendeu para grande escândalo a submissão num instituto de educação sujeito a regras militares. A indisciplina tout court existe e deve ser enfrentada. No resto concordo consigo. Parabéns pelo título do mais frequente comentador da tasca e bom ano novo para si e para todos.

      • João. diz:

        XisPto, as crianças precisam de disciplina na escola, certo, mas é a discipina adequada às crianças e não às fantasias dos adultos sobre crianças-máquina de aprendizagem.

      • João. diz:

        “Segundo ponto de que discordo, da posição que resulta de um privilegiar da componente pedagógica, que também é importante, naturalmente, mas que insiste em tratar as crianças, como se não fossem adultos em potência, o que é um erro, porque são.”

        Cara Verónica, ser em potência é não ser. Ou melhor, e com uma imagem, uma semente de árvore é uma árvore em potência mas só depois da árvore ter nascido da semente. Antes disso, é essa potência mas só na nossa imaginação ou pensamento.

        E depois ser adulto não é uma categoria muito exacta para servir de modelo para as crianças até porque esse adulto modelo vai ser imaginário e portanto quanto mais o imaginário, o imaginário de um outro, dos adultos entenda-se, ocupar o espaço da realidade das crianças mais esta realidade perde o seu espaço e com isso o próprio processo de desenvolvimento a partir do estágio em que a criança se encontra com suas forças e fraquezas efectivas. Enfim, corre o risco de ser uma educação mais imaginária do que real, ou seja, uma mais conforme às necessidades das fantasias dos adultos do que a situação dsa crianças.

        Então, é necessário que os adultos disparem o processo educativo através do lançamento de suas expectativas imaginárias sobre as crianças mas assim que a criança entra nesse processo tenho ideia de que é bom deixar recuar um pouco o imaginário dos adultos e deixar avançar a criança real para que se perceba o melhor possível a sua resposta ao processo educativo e para que este seja também o seu processo e não apenas o da criança imaginária dos adultos.

        Enfim, penso eu de que…

      • veronica santos diz:

        Caro João, antes de mais um bom ano 2014.

        Em resposta ao seu comentário, gostaria de acrescentar o seguinte, fazendo minhas as palavras de um grande filosofo:

        “A verdade de um momento está sempre fora desse momento, ou seja no momento que há-de vir. O motor da dialéctica, no seio do ser e do pensamento é a contradição. Uma coisa existe em si e é ao mesmo tempo a sua própria falta ou negativo.

        Sendo o finito e o infinito partes, momentos dum mesmo universo, existe entre cada uma das partes, entre cada coisa finita e todas as outras uma ligação de determinação recíproca, no interior do todo: cada parte não pode definir-se a não ser pela sua relação com o todo; cada coisa é simultaneamente tudo o que existe e tudo o que não é.

        O não ser é inversamente o que o ser é. A verdade do ser e do não ser, é então a sua unidade: o qual é o devir. O devir é pois a passagem do ser ao não ser e deste ao ser. Ser e não ser são puras abstracções que não servem para explicar a realidade. Só o devir como união do ser e do não ser explica o aparecimento e o desenvolvimento das coisas.” (Hegel, ciência da logica)

        Espero ter respondido á sua questão.

        Mais uma vez a todos um bom ano 2014.

      • caramelo diz:

        Verónica, pensei que estava a falar das crianças, foi apenas um equívoco. Mas não sei é o que é que quer dizer com isso dos “adultos em potência” ou em “plena potência”. Um espermatozóide é um adulto em plena potência.. Fez-me agora lembrar a representação dos fetos em pinturas da Idade Média😉. Já está assente há muito, não exatamente por cá, que crianças são crianças e devem ser tratadas como tal, com as suas necessidades e ritmos de aprendizagem próprios. Eu estudei num colégio privado antes do 25.A., onde as turmas não ultrapassavam vinte alunos e que levava muito a sério a pedagogia. Não me parece que me tenha tornado infantil por isso (embora haja quem discorde…) e consegui até aprender bem cedo a comer de faca e garfo e a apertar os atacadores dos sapatos. A autonomia e a responsabilidade, de que fala, aprende-se muito cedo quando nos dão espaço para a brincadeira e nos incutem hábitos de debate, quando existe diálogo, etc. Nunca corremos neste país o risco de ter excesso de pedagogia, não se preocupe; é uma coisa estranha à nossa cultura.

      • caramelo diz:

        XisPto, eu estava a falar de “disciplinas”, não de disciplina.

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo, antes de mais um bom ano 2014 para si e para os seus! Em resposta ao seu comentário, gostava de acrescentar o seguinte. Percebo o que diz quando refere a importância da componente pedagógica. Nem procuro nega-lo. O que entendo que deve ser corrigido é um excesso dessa componente em detrimento de outras, que obviamente foram descuradas. Tal como o rigor na transmissão de conteúdos. Penso também que existem muitos bons colégios privados que há muito praticam um tipo de pedagogia que interessava muito analisar e se possível transportar para as escolas publicas, que entre outras coisas, ensina a ser, a estar e a saber. Logo, uma comparação a esse nivel é no mínimo desonesta, no meu entender, claro está.

        Quanto à temática do espermatozóide, penso que ainda não tem idade legal para frequentar o ensino básico, mas sem dúvida que pode ser considerado um feto em potencia. Quanto à temática ser/não ser, por favor ver resposta ao João.

        Melhores Cumprimentos,

        Veronica Santos

      • João. diz:

        Olá Verónica, bom ano para você também.

        Acho que não entendi bem onde você queria chegar com a citação de Hegel que, aliás, desculpe que lhe diga, parece-me algo espúria.

        Por exemplo, você diz:

        “A verdade do ser e do não ser, é então a sua unidade: o qual é o devir.”

        A verdade do ser, Puro Ser (é preciso não esquecer) não é só a sua unidade mas também a sua diferença e é a infinita passagem da unidade à diferença e da diferença à unidade: é isto que virá a ser recolhido (recollected) como Devir.

        Em todo o caso o Devir, neste momento da exposição da Ciência da Lógica, torna-se um conceito instável porque de um lado nós temos a estabilidade de um conceito (Devir) e do outro temos a mutabilidade infinita dos seus momentos, ou seja, estamos em posse do que não deveríamos poder estar uma vez que o devir é o que é já sempre diferente, é o que já sempre mudou, o que não pode ser recolhido como uma totalidade.

        Então quando fixamos os momentos do Devir nessa unidade do ser e nada já não é o devir propriamente que temos mas apenas um dos seus lados, o lado determinado e estável – que Hegel vai chamar Dasein ou Ser-Determinado.

        Em todo o caso, é sempre com muito gosto que falo de Hegel e é um prazer encontrar uma admiradora do chefe.🙂

      • XisPto diz:

        Caramelo: tem razão, lapso meu.Já tinha dito que “No resto concordo consigo”, acrescento que posso estar mais de acordo nesse ponto.

      • XisPto diz:

        Não posso, chiça!

      • João. diz:

        Erratum.

        Leia-se:

        “A verdade do ser, Puro Ser (é preciso não esquecer) não é só a sua unidade COM O NADA mas também a sua diferença e é a infinita passagem da unidade à diferença e da diferença à unidade: é isto que virá a ser recolhido (recollected) como Devir.”

        Obrigado.

      • veronica santos diz:

        Caro João, utilizando as suas palavras:

        “Puro Ser (é preciso não esquecer) não é só a sua unidade mas também a sua diferença(…)” equals Uma coisa existe em si e é ao mesmo tempo a sua própria falta ou negativo.

        “(…)e é a infinita passagem da unidade à diferença e da diferença à unidade é isto que virá a ser recolhido (recollected) como Devir.(…)” equals O devir é pois a passagem do ser ao não ser e deste ao ser.

        Então quando fixamos os momentos do Devir nessa unidade do ser e nada já não é o devir propriamente que temos mas apenas um dos seus lados, o lado determinado e estável – que Hegel vai chamar Dasein ou Ser-Determinado.

        (Correcto, por isso defender uma postura na pedagogia que não isole a criança enquanto somente “ser determinado” mas que tenha em atenção a relação dialéctica entre finito e infinito presente em qualquer momento do ser – tendo em vista a sua totalidade.) equals Só o devir como união do ser e do não ser explica o aparecimento e o desenvolvimento das coisas.”

        Mais alguma dúvida estou ao dispor.

        Melhores Cumprimentos,

        Veronica Santos

      • caramelo diz:

        “Parabéns pelo título do mais frequente comentador da tasca”

        Ó Xis, obrigadinho pá (acho eu), mas quem é que me elegeu tal coisa?

      • XisPto diz:

        Caramelo: não me diga que sou o feliz emissário de que fez 957 insubstituíveis comentários e ganhou a taça? Quem elegeu? Se está a pensar na NSA e no Snowden está errado. Veja o link seguinte que aponta para o relatório do fim ano:

        https://declinioqueda.wordpress.com/2013/annual-report/

      • caramelo diz:

        Cum catano! Se me tivesse dedicado à batalha da produção em vez de comentar aqui tanto, já tinha comprado um carro novo!

      • veronica santos diz:

        Parabéns ao Caramelo😉

      • João. diz:

        Verónica,

        você diz:

        “Só o devir como união do ser e do não ser explica o aparecimento e o desenvolvimento das coisas.”

        Insisto que esta formulação é enganadora. Esta unidade do ser e do não ser é apenas um dos lados do Devir e é portanto unilateral.

        O Devir é o vir-a-ser e o cessar-de-ser da unidade e diferença do ser e do nada.

        O ser é o mesmo que o nada e o nada é o mesmo que o ser mas, por outro lado, o ser é diferente do nada e o nada é diferente do ser. Isto quer dizer que cada um, ser e nada, são também diferentes de si mesmos, ou seja, eles vêm-a-ser e cessam-de-ser idênticos e diferentes de si mesmos e do outro.

        O Devir é este movimento. A razão porque o devir é instável é porque cada um dos seus momentos, ser e nada, já são sempre diferentes de si mesmos e portanto olhando para dentro do conceito de Devir vemos que ele é o desaparecimento da unidade entre ser e nada na diferença e o desaparecimento da diferença na unidade, ou seja, o Devir é desaparecimento.

        O que é que fica?

        Não fica apenas o Nada do desaparecimento. Quando o Devir se afunda no desaparecimento dos seus momentos, o que restou foi a unidade do ser e do nada porque foi esta unidade que antes já tinha resultado no Devir a partir do seu infinito aparecer e desaparecer, ou tornar-se e cessar-se. E é agora Qualidade.

        O Ser, Puro Ser, começa sem qualidades é por isso que já é o mesmo que nada. Depois do Devir vai perceber-se que ser-o-mesmo-que-nada é uma qualidade quando o ser e o nada são pensados como UM, ou seja, já não é o ser que já se tornou igual ao nada e o nada igual ao ser e depois ao mesmo tepo cada um diferente do outro e de si mesmo. O que ocorre é que se fixa o ser como unidade do ser e do nada. Este Ser, que é a unidade do ser e do nada, é o que Hegel chama Dasein.

        O que eu acho um pouco difícil é extrair daqui uma pedagogia; um que não seja demasiado abstracta uma vez que até estamos nos movimentos iniciais da Ciência da Lógica e ainda falta muito chão para ver bem o que é que acontece a tudo isto.

        Cumprimentos.

      • João. diz:

        Verónica:

        “Sendo o finito e o infinito partes, momentos dum mesmo universo, existe entre cada uma das partes, entre cada coisa finita e todas as outras uma ligação de determinação recíproca, no interior do todo: cada parte não pode definir-se a não ser pela sua relação com o todo; cada coisa é simultaneamente tudo o que existe e tudo o que não é.”

        Sim, mas veja por exemplo aqui o que já aconteceu ao Devir de que falámos antes.

        A determinação recíproca de que você fala, quando desce sobre a questão do finito e do infinito, ou seja, a infinita reciprocidade determinante do infinito ao finito e deste àquele e desta como um todo a cada um dos momentos, este movimento auto-gerado, ou sustentado por seus próprios momentos é o que Hegel chama o “Infinito Verdadeiro”. Isto por oposição ao infinito, como extensão infinita, que ele chama “infinito espúrio”.

        O que é interessante é que sendo o infinito verdadeiro a verdade do infinito espúrio isto quer dizer que o infinito espúrio precisava de ser concebido para que através do seu erro surgisse o infinito verdadeiro. Aqui há uma divisão de águas na leitura de Hegel: uns dirão que a criação do infinito espúrio já vinha com o telos de gerar o infinito verdadeiro e que isto é um exemplo da astúcia da razão; outros, onde eu me incluo, não vêem assim, pensam que o que se deu foi um impasse dialéctico fundado não num plano pré-determinado mas no encontro com um embaraço, que é resolvido através da tomada desse impasse como momento de um outro conceito, ou seja, a astúcia da razão não é andar a puxar os cordelinhos mas a capacidade de tornar um erro, um conceito com uma falha, em um momento de um conceito mais amplo.

    • veronica santos diz:

      Viva João

      Antes de mais um preâmbulo: O Ensino Básico compreende três ciclos: 1º Ciclo: 1º, 2º 3º e 4º Anos. 2º Ciclo: 5º e 6º Anos. 3º Ciclo: 7º, 8º e 9º Anos.

      Portanto, antes de mais, acho que é legitimo afirmar que a partir do 3° ciclo, já não estamos a falar de criancinhas, apenas para clarificar os conceitos e desmistificar algumas noções.

      Segundo aspecto, quando falo em potencia e por tudo o que já foi dito, quero sublinhar sobretudo a dimensão de “estar em relação”.

      Terceiro aspecto, “O que eu acho um pouco difícil é extrair daqui uma pedagogia;(…)” falamos de realidades distintas, ou não, eu clarifico. Quando falo em pedagogia, refiro-me a dimensão pedagógica da Educação num sentido lato, e não no sentido especifico, relativo a abordagem quanto a transmissão de conteúdos.

      Num sentido lato, eu consigo perceber o esforço da Educação como desdobrando-se em 3 vertentes: 1)Saber Ser, 2)Saber Estar, 3)Saber Saber/Saber Fazer

      Em poucas linhas, consigo descrever o que entendo que deve privilegiar cada uma das dimensões e vou tomar como exemplo a missão pedagógica de uma instituição privada:

      Saber Ser
      1. Liberdade para desenvolver a sua personalidade, superar os próprios condicionalismos internos e externos e seguir a sua consciência devidamente formada;
      2. Equilíbrio e maturidade, ou seja, estabilidade racional e afectiva, capacidade de tomar decisões e de iniciativa pessoal, aceitação das próprias limitações, espirito critico construtivo, integração progressiva da afectividade e sexualidade e disponibilidade para colaborar com outros;
      3. Responsabilidade em todas as suas acções, demonstrada no desempenho das tarefas que lhe correspondem sem necessidade de vigilância de um educador, no assumir das consequências dos próprios actos e no actuar com coerente flexibilidade e adaptação perante circunstancias novas ou inesperadas;
      4. Constância e firmeza no trabalho sem se deixar abater pelos eventuais fracassos
      5. Desenvolvimento da imaginação e da criatividade demonstrado na facilidade de observar os fatos segundo diferentes perspectivas, pensar de forma original e assim encontrar novas soluções;
      6. Estima e admiração perante os mistérios da criação e da existência humana
      7. Autenticidade e honestidade fruto de uma personalidade progressivamente assumida com naturalidade e transparência

      Saber Estar
      1. Ser pessoa para os outros, numa atitude de serviço e amizade e a viver em solidariedade e compromisso
      2. A integrar-se na sociedade com optimismo e esperança, empenhando-se na sua transformação com espirito de abertura ao futuro, disposto a arriscar os próprios interesses pelo bem de todos
      3. A adquirir sensibilidade aos grandes problemas nacionais e internacionais, especialmente aos dos países em desenvolvimento
      4. A participar nas mudanças para o progresso, segundo as exigências do tempo e de acordo com as responsabilidades éticas no uso da técnica
      Podemos concordar ou não em pormenor, com cada uma das linhas orientadoras, mas a ideia a retirar para mim, é de que só o saber ser e o saber saber é pouco. Falta ensinar para o saber estar. ‘”Estar em”, sobretudo Estar em relação, com os outros.

      Não se trata João, de querer uma bateria de crianças maquina aprendizagem, como lhe chamou, embora eu não veja qualquer problema na aplicação de critérios de rigor e de exigência, considerando, por exemplo o objectivo da arête como meta; mas de privilegiar outra dimensão da aprendizagem que passa também pela formação.

      Eu sei que é utópico. Mas gostava.

      Melhores Cumprimentos,

      Veronica Santos

      • veronica santos diz:

        Olá a todos

        Quanto à temática da exigência e rigor, sugiro este texto, retirado do delito de opiniao:

        Um texto de 2013 para 2014 por Sérgio de Almeida Correia, em 02.01.14

        Um texto para ler e reflectir do meu amigo Guilherme Valente, um homem sempre atento, preocupado e oportuno em matéria de educação, que é o que marca a diferença entre as nações. E também entre os homens livres e os tristes.

        “Dou apenas o exemplo determinante da leitura. Transcrevo de Valter Hugo Mãe o testemunho insuspeito que cita:
        “Chocou-me ouvir Alice Vieira dizer que os bestsellers dos anos 80 que a levavam às escolas para falar com miúdos do 6.º ano, agora são os mesmos que a levam para falar com miúdos do 12.º ano. Diz ela que, hoje, os livros que concebeu para miúdos de 13 anos, estão a ser lidos e trabalhados por miúdos de 17, no âmbito das escolas. ‘O que vou fazer? Pelo menos que os apanhemos aos 17, se não estes livros para 13 anos vão ser mais tarde ou mais cedo trabalhados na universidade ou em doutoramentos e eu vou ser chamada para falar com adultos marmanjões que deviam ter entendido isto aos 13 anos’.”

        A observação de Alice Vieira demonstra que temos estado, desde há muito, a recuar, que os nossos jovens aprendem cada vez mais tarde o que deviam aprender muito mais cedo.” – Público, 31/12/2013

      • João. diz:

        Verónica, seria importante verificar se essa tendência é entre nós ou se estamos em face de uma tendência global. É que em Portugal há uns zelotas que se aproveitam disso para vir armado do rolo compressor do eduquês e destruir tudo.

        http://www.nyu.edu/classes/stephens/Death%20of%20Reading%20page.htm

        http://www.bbc.co.uk/news/education-14621621

      • João. diz:

        Ou seja, acham que é tudo especificidade da falta de rigor portuguesa e toca a castigar o sistema. O que vemos é que talvez quem também não leia o suficiente seja o pessoal no actual ministério dada a visão provinciana que mostram.

      • veronica santos diz:

        Viva João,

        Em resposta aos seus comentários, e para concluir tenho de acrescentar o seguinte:
        No que se refere a forma de abordar esta e muitas outras questões, não me interessa saber quem tem ou não razão. Para mim o que me interessa saber é:

        1) identificar o problema, 2)identificar as causas do problema – diagnostico, 3)encontrar solução, 4) aplicar a solução. As analises comparativas só me interessam na medida em que me permitem avaliar sobre a possível solução a dar ao problema e avaliar das possíveis causas. Nada mais. E se um dos problemas for a falta de rigor ou preparação da equipa docente, que pode e em principio deve ter varias causas, então é por ai que eu tenho de encontrar a solução.

        Podemos dizer que há causas que são estruturais ao modelo de ensino praticado. Podemos dizer que há causas que são endémicas ao modelo civilizacional adoptado. Podemos também criticar a falta de reflexividade que acompanha as actuais sociedades contemporâneas. Podemos apontar varias falhas.

        A mim o que me interessa saber é como se pode corrigir, o que é se pode fazer diferente. E faze-lo. Se deixarem.

        Tudo o resto é ruido.

        Melhores Cumprimentos,

        Veronica Santos

      • caramelo diz:

        Verónica, essa lista é o céu. Mas tem noção de que isso é impraticável no nosso sistema de ensino básico, desde logo porque turmas tão grandes e programas tão extensos não permitem tais luxos? Se se pretende selecionar, de entre os professores, os super-educadores, aqueles que conseguem tudo isso nestas circunstâncias, mantendo as crianças disciplinadas, atentas, participantes, interessadas, criar cidadãos modelo, etc, conviria então um teste um bocadinho mais exigente do que o atual, porque estas meias tintas não bastam, e talvez acabar com o luxo, que de qualquer maneira é caro, da educação universal, porque tão excelsa gente não chegaria para as encomendas. Ou talvez clonar e replicar o sabio e paciente Sócrates (o de Atenas) , com upgrade em ciências exatas e tudo o mais que é preciso.
        Eu compreendo muito bem os professores que se irritam com isto tudo e chamam nomes ao ministro em público e demais cenas tristes. Correm talvez o risco de traumatizar as crianças, de quem deveriam ser modelos, como eu já li. Já se sabe que as crianças nem dormem bem quando descobrem que os professores têm certas funções fisiológicas.

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo

        Antes de mais, deixe-me dizer-lhe que gosto muito dos seus posts. Contudo, não viu, com certeza, escrito atras, que eu defendo o actual modelo de organização sala aula/escola. Existe muita coisa a mudar, passando, entre outras coisas, por outro modelo de financiamento, por exemplo. Porque não? Já que temos que mudar, então que se faça uma reforma profunda. Contudo, para que isso seja possível, temos de ser capazes de nos dirigirmos a estas, como noutras, questões, de forma racional e serena, e sobretudo reflexiva. O que não me parece que exista no actual contexto social e politico. Precisávamos isso sim, de ter um pouco mais de maturidade e flexibilidade institucional para tratarmos estas e outras questões, porque de facto são importantes. Mas francamente, tenho duvidas.

        Felicidades,

        Veronica Santos

      • caramelo diz:

        Um passo importante seria mais autonomia às escolas, incluindo a financeira, sem que se confunda isso com histórias da carochinha da liberdade de escolha e outros slogans. E que se assuma de vez que a atual politica da educação nada tem a ver com ideias sobre educação ou com qualquer tipo de ideia com alguma densidade. Se não há psicólogos nas escolas, se não há ensino diferenciado, se se desinveste no ensino especial, não me justifiquem isso com a responsabilidade individual de alunos e das famílias ou com qualquer coisa sinónimo de exigência ou competência, que me provoca vómitos. Uma bela figura, o Guilherme Valente, a propósito, um tipo que tem duas apoplexias quando alguém lhe fala no progresso da educação e que acha que os últimos quarenta anos foram uma devastação completa. Parece então que, afinal, nos anos 80, praticamente em pleno PREC, os miudinhos ainda entendiam a Alice Vieira, imagine-se. E então agora a malta do 12º fica babada de e olhos esbugalhados a ouvir a Alice Vieira, como se estivesse a ouvir o James Joyce.
        A Verónica é a comentadora mais educada que já por aqui passou, de longe, mas não diga que faço “posts”, que já basta eu acabar de descobrir que praticamente já moro aqui num quarto dos fundos.

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo,

        Quanto ao quarto dos fundos, caramelo, cada um escolhe o seu próprio lar. Posso-lhe dizer que o meu lar se situa numa colina encarpada bastante ensolarada donde se ouve o rumor do mar. Cada um escolhe o seu.

        Quanto a questão da liberdade de escolha, eu considero uma questão bastante pertinente e que já há muito devia ter sido discutida. E penso sobretudo, que o que esta em causa e definir que tipo de modelo de organização pretendemos. Essa questão deriva de outra mais funda que roda em torno da dicotomia público / privado.

        Vou dar um exemplo, em Platão, podemos encontrar um projecto de educação escola pública intimamente associado com um projecto de exercício de cidadania:

        ”A evolução da Pólis ateniense no sentido da democracia tornou instituições principais do regime a Assembleia, constituída por todos os cidadãos, o Conselho dos Quinhentos, ou Boulê, e a Helieia, para que eram escolhidos à sorte, respectivamente, cinquenta e seiscentos de cada uma das dez tribos. Possibilitou desse modo a participação cada vez maior dos cidadãos, mas, tratando‑se de órgãos colectivos, neles a arte de persuadir exercia grande importância. Dava por isso vantagens aos mais capazes e melhor apetrechados.

        Com os sofistas [surge] em Atenas o tipo de educação necessária a um Estado democrático, mas a sua clientela reduz‑se aos jovens provenientes dos meios mais abastados. Contribuem assim para acentuar o desequilíbrio social, já que colocavam nas mãos dos que possuíam mais recursos económicos uma técnica que lhes permitia persuadir e consequentemente dominar o dêmos. Em face disso, para Platão, o planeamento da educação deve estar a cargo do Estado, ou seja devem ser criadas as escolas públicas, e não deve diferençar a das raparigas da dos rapazes.”

        [Delfim F. Leão, José Ribeiro Ferreira, Maria do Céu Fialho, Cidadania e Paideia na Grécia antiga, Colecção Autores Gregos e Latinos Série Ensaios, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos Edição: 2ª/2010 revista e aumentada (1ª edição/2006 Ariadne)]

        Podemos por exemplo questionar se ainda temos necessidade deste modelo. Se o facto de ser universal deve ser sinonimo de ser público e se o facto de ser público deve ser sinonimo de ser gratuito.

        Só achegas para a fogueira…

        Melhores Cumprimentos,
        Veronica Santos

      • caramelo diz:

        Verónica, já que fala nos gregos, isso da liberdade de escolha na educação é simples geometria euclidiana; como dizia o António Silva, “faz-se já aqui a conta”: para a grande maioria, seja por razões geográficas, seja por razões monetárias, o mercado da educação vai ser sempre menos variado do que o mercado de batatas, que já por si não oferece grande variedade. E pronto, este foi um debate interessante, gostei muito😉. Mais a sério, a liberdade, a possível e concreta, a que permite a cidadania, é-nos fornecida pelo Estado, com educação universal e, se não gratuita, barata. É uma questão de contas, daquelas de que não tratam os economistas: é sabido que se é caro manter este serviço, muito mais caro seria não o ter e aqui os custos não fariam parte do orçamento. Se subsistem dúvidas, melhor do que a discussão seria fazer a experiência de, com uma vénia, entregar a coisa aos privados e, porque não, ao preço do mercado.

      • veronica santos diz:

        Porque não uma PPP? :)) Bom resumo,

        Às suas ordens…😉

        Melhores Cumprimentos,

        Veronica Santos

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo, só um aparte.

        Fiz agora o teste da cidadania interna lá atrás e tenho passaporte para a Finlândia. Aquele do melhor sistema de educação do mundo..

        Está tudo interligado. Não haja duvidas.

        Melhores Cumprimentos,

        Veronica Santos

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo,

        Já agora, uma duvida:

        Gratuita, para quem?
        Barata, para quem?

        Devemos pagar todos o mesmo?

        Cumprimentos,

        Verónica Santos

  7. Daniel diz:

    É o que dá ter banalizado a classe desta maneira. Aumentem-se os salários, chamando outro tipo de estudantes, limitem-se os cursos à la medicina e no final do ano lectivo, para os licenciados, realize-se um exame final de curso a nível nacional. Junte-se ainda uma pitada de respeito e dignidade e a qualidade daqueles que ensinarão os nossos filhos mudará completamente.

    Tal como está, francamente, a profissão está transformada num plano de recurso para aqueles que por uma ou outra razão não seguiram outra profissão. Claro que ainda vão havendo os masoquistas que realmente amam o ensino e desejam fazê-lo como carreira.

    Claro que os professores universitários são uma classe à parte nisto tudo, apesar de eu achar que, durante toda a minha vida de estudante, o grau onde tenha tido os piores professores tenha sido mesmo na universidade. Era com cada um que não lembra ao diabo. Enfim, parece que aí já somos todos adultos e portanto a pedagogia dispensa-se…

    • ppicoito diz:

      Concordo em absoluto com tudo. Só discordo da exigência de pedagogia, seja lá o que isso for, para os professores universitários. O que faz um mau professor na universidade são sobretudo as falhas científicas. Alguns dos melhores professores que tive (Mattoso, por exemplo) eram comunicadores medíocres, mas ninguém se importava porque quando abriam a boca, mesmo sem powerpoints, mesmo falando baixinho, mesmo monocórdicos, abriam-nos a porta de um mundo novo..

  8. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, estas questões talvez não sejam muito relevantes, mas cá vão na mesma:
    1) Arrobas Crato não é Sinistro da Educação e da Ciência há dois anos e meio? É só ler a última entrevista de Mariano Gágá…
    2) Arrobas Crato só agora descobriu a iliteracia certificada à saída dos ensinos secundário e universitário? É que ganhou bom dinheiro a escrever e a publicar contra o «eduquês» na Editorial Gradiva e em jornais vários…
    3) Arrobas Crato pôs fim às aulas de hora e meia de duração no ensino secundário inventadas pela Dra. Marilú Rodrigues (ex-Presidenta da FLAD)? É bem sabido que a atenção dos discentes tem uma diuração limitada a (bastante) menos de uma hora…
    4) Arrobas Crato fez alguma diligência para reduzir o número médio de alunos por turma para, pelo menos, vinte? É também bem sabido que o número ideal de alunos por turma é bastante inferior a vinte, mas eu já me contenatria com menos…
    5) Arrobas Crato fez alguma diligência para introduzir a aprendizagem do xadrez no curriculum do ensino básico? É igualmente bem sabido que o xadrez constitui um óptimo instrumento de disciplina mental que propicia maior capacidade de aprendizagem pelos alunos…
    6) Arrobas Crato fez alguma diligência para introduzir o ensino da natação nos curricula dos ensinos básico e secundário? É, do mesmo modo, bem sabido que mais de dois terços da população portuguesa não sabe nadar…
    7) Arrobas Crato fez alguma diligência para reestruturar as redes dos estabelecimentos públicos dos ensinos politécnico e superior universitário (mais de trinta)? Com a excepção notória da fusão lisboeta, a título voluntário, das Universidades Clássica e Técnica, parece que a Irlanda, agora saída da alçada da “Troïka” e com quem toda a gente aqui pelo burgo adora comparar-se, tem uma única universidade (estadual)…
    8) Arrobas Crato fez alguma diligência para suspender (ou mesmo revogar) o famigerado «Acordo Ortográfico» que hoje beneficia a língua portuguesa com três (3) normas ortográficas oficiais?
    À excepção da pergunta 1), a resposta às restantes é, até ver, negativa.
    Arrobas Crato tem apenas a seu (duvidoso) crédito a aprovação do novo regime legal de financiamento/subsidiação estadual ao ensino privado, ao qual chamou “eduquêsmente” «liberdade de escolha da escola»…
    Talvez hoje se possa concluir que Arrobas Crato é crassamente incapaz, e não apenas incompetente; não sou eu que o digo: é, entre outros, o professor Santana Castilho na sua coluna do “Público”.

    • ppicoito diz:

      Roma e Pavia não se fizeram num dia. E eu daria algum desconto ao Santana Castilho. É o Pacheco Pereira da educação: puro ressentimento. Ao que parece, estava à espera de ser ministro em vez do Crato. Tenho pena, porque (tal como Pacheco Pereira) era um comentador que eu gostava de ler.

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