Monthly Archives: Janeiro 2014

Rugby, 2013

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Entretido com os gays, esqueci-me do rugby. Imperdoável. Mas é boa altura para rever 2013, que amanhã é outro dia e começa o Seis Nações. Foi um bom ano para o rugby. Grandes jogos, grandes ensaios, uma grande equipa que ganhou tudo (os All Blacks, pois claro) e uma viagem triunfal dos British Lions à Austrália, com vitória na série dos três tests (2-1). Até as novas regras da mêlée, o maior problema dos últimos anos, parecem estar a dar resultado. A única nuvem no horizonte, à parte as tentações comercialóides, é ainda a blindagem dos três-quartos, sobretudo os centros, em detrimento da imaginação ao poder. Mas o rugby continua a produzir artistas, como veremos. É esse o seu eterno encanto.
Assim sendo…

Melhor equipa: Nova Zelândia. Catorze jogos, catorze vitórias, um record na era profissional. Os All Blacks não perdem desde Dezembro de 2012. Não há muito mais a dizer. Ou até há. Mesmo sem Richie McCaw e Dan Carter, lesionados boa parte do ano, os homens dos antípodas mantiveram uma consistência espantosa. É o que os distingue dos outros. Há jogadores extraordinários em todas as equipas, mas os All Blacks são uma equipa extraordinária, ou seja, são mais do que a soma das partes. Só uma equipa extraordinária conseguiria perder Carter e McCaw e ganhar tudo na mesma. Há mesmo uma cultura all black, uma cultura em que um miúdo como Beauden Barrett é lançado às feras, aos 20 anos, e minutos depois está a fazer gato-sapato dos Springboks. O que nos leva a outra coisa: a força mental, a capacidade de nunca desistir, a vontade de virar resultados até ao apito final, aquela feroz convicção íntima de que a vitória será sua. Em Dublin, no Outono, estavam a perder por cinco pontos no último minuto, não tinham a bola e bastaria que a jogada acabasse para serem derrotados. E se fossem derrotados, como aconteceria a qualquer outro grémio de mortais, lá se ia o invicto 2013. Pois não é que os sacanas arrancam um turnover, partem para uma sequência ininterrupta de fase sobre fase sem uma única falha, marcam o ensaio muito depois dos 80 – e convertem-no? Os irlandeses nem queriam acreditar… Nem eles nem ninguém.

Melhor jogador: toda a gente votou em Kieran Read, decisivo no ano-maravilha dos All Blacks e um 8 clássico que faz tudo bem, do trabalho pesado na defesa ao apoio no jogo aberto. Corre que se farta, dobra a linha, está sempre onde deve, lê magnificamente o jogo e marca ensaios. Muitos. Acima de tudo, e à imagem da equipa, joga sempre a um nível altíssimo, mesmo quando não é brilhante. Se fosse uma personagem da Sophia de Mello Breyner, chamar-se-ia Mónica. Só que, ao contrário da Mónica dos Contos, nunca renunciou à poesia, ao amor ou à santidade. Leigh Halfpenny também teve um ano memorável, tanto mais que uma alta percentagem dos pontos de Gales no Seis Nações e dos Lions nos antípodas se ficou a dever à sua bota. Mas eu, que prefiro os artistas, escolho Israel Folau, o ponta/arrière australiano que espalhou magia pelos campos dois hemisférios. Chegou este ano à selecção e já marcou alguns ensaios de antologia. Não é tão bom a defender (foi várias vezes atropelado pelo galês George North nos quatro duelos entre eles), mas consegue abrir brechas em qualquer muralha com uma simples troca de pés. Já não há muitos assim.

Melhor jogo: África do Sul-Nova Zelândia, a 5 de Outubro, sem margem para dúvidas. 38-27 para os kiwis, nove ensaios, um marcador zonzo de tanta reviravolta e duas equipas em estado de graça. Há quem diga que foi o jogo da década. E foi.

Melhor ensaio: foi um ano de bela colheita, com os vintages do francês Fofana contra a Inglaterra no Seis Nações, o de North no primeiro Lions-Austrália, o segundo de Folau no mesmo jogo e o tal golpe de misericórdia dos All Blacks em Dublin, cruzamento entre a Ilíada e um tratado de mecânica dos fluidos. O meu voto, porém, vai para o ensaio do aussie Chris Leali`ifano em Cardiff, a 30 de Novembro, fruto de uma jogada colectiva brilhante. Recuperação de bola muito inteligente pelos avançados, rápida circulação pelos três-quartos, entrada fulgurante de Quade Cooper, o filho pródigo em boa hora regressado, que desequilibra a defesa vermelha com um truque de magia, variação do sentido jogo no último passe. Velocidade sobre a bola, cabeça levantada, procura do apoio, criação de espaços. Simples. Perfeito. As regras básicas e um toque de génio. E Gales defendeu sem falhas… Mas quando do outro lado está Quade Cooper, não basta não cometer erros. Dan Lidyate, um asa com a justa fama de não defender propriamente mal, disse depois que enfrentar Cooper nesse dia foi como perseguir sombras. Outro terceira-linha que nunca renunciou à poesia.

E o Seis Nações de 2014? Começa amanhã a doer, com os bifes em Paris, mas no fim vence Gales. Trust me.

PP

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No comments ( XXVI)

No ano passado previa-se um aumento do desemprego. Agora diz-se que o desemprego baixou por causa da emigração.

Ou seja, as Aulas Magnas, os CES e  génios discretos ( existem em todo o lado) afins não previram a existência de países e aviões.

FNV

 

 

Twist & Shout

A festa do futebol, incompreendida pelos savonarolas de robe:

O horror, a tragédia, o esfíncter.

Por falta de tempo concentro-me nas afirmações principais deste post do Pedro:

E leva-nos ao ponto em que o Luís e o deputado Hugo Soares, não tendo razão, estão ambos de acordo. E tal ponto, the horror, the horror, é este: ambos consideram a coadopção um direito. (…) Há um direito em causa, sem dúvida: o direito da criança a ter uma família. Mas esse direito deve ser defendido, com bom senso e caso a caso, pelos tribunais e pelas instituições. Não é um direito de quem adopta e muito menos de uma “minoria”. Se for do superior interesse da criança viver com alguém que é homossexual, ou vegetariano, ou até, Deus nos livre, deputado, nem a lei nem o referendo têm muito a dizer sobre isso. Basta que os tribunais e as instituições decidam com bom senso e caso a caso, repito.

Ora, o lobby gay recusa o bom senso casuístico porque quer a normalização da homossexualidade pela lei geral e abstracta. Quer uma lei aprovada pelo Parlamento, mas não um referendo de dúbio resultado, porque faz parte da sua estratégia de pequenos passos obter “direitos”, quase sempre através de maiorias parlamentares favoráveis, e assim o reconhecimento social de uma opção minoritária. É um caso de biopolítica, para usar o conceito de Foucault. Daqui até à criminalização da “homofobia”, por outras palavras de tudo o que os gays classifiquem no futuro como contrário aos seus “direitos”, vai mais um pequeno passo. Que será dado, tarde ou cedo, se a coadopção avançar.

Cá vai a resposta possível.

1.  Ao invocar o direito da criança a integrar uma família, contrapondo-o aos direitos “de quem adopta” ou de “uma minoria”, o Pedro falsifica a questão, porque esses direitos, caso existam, não se excluem. Uma criança terá sempre direito a integrar uma família, mesmo que dois homossexuais vejam reconhecida a sua faculdade de aceder em condições de igualdade, como casal, a um processo de adopção. O Pedro cria dilemas onde eles não existem.

2. O “bom senso casuístico” não é “recusado pelo lobby gay”. Pelo contrário, muitos homossexuais adoptam crianças sem que haja notícia de tentativas de imolação. O que falta é “bom senso legislativo”, ou seja, falta que o “lobby de Fátima” e o “lobby da JSD”  que manipulam com redes tentaculares a nossa casa da democracia (estou a usar livremente a imagética do Pedro),  regulamentem sem mais pruridos uma situação de facto, dando-lhe protecção jurídica. Ou seja, que considerem um casal como casal e tratem a criança de que cuidam como sua.

3. É certo que os homossexuais preferem “maiorias parlamentares favoráveis” a “referendos de resultado incerto”. Chama-se natureza humana. Talvez o Pedro reconheça que os gays integram o género humano.

4. Ou talvez não. Como um Ezequiel das apostasias sexuais ele profetiza tragédias horrendas a quem permitir a mistura entre o uso indevido do esfíncter e a parentalidade:  nem mais nem menos que  a criminalização da “homofobia”, por outras palavras de tudo o que os gays classifiquem no futuro como contrário aos seus “direitos”. 

Um cenário apocalíptico, dantesco, capaz de horrorizar as almas puras e os herdeiros daquela boa gente  que nos deu a Santa Inquisição.

Luis M. Jorge

No comments ( XXV)

Já é bom quando é entre César das Neves  e João Ferreira  do Amaral, mas hoje foi melhor: César das Neves xArménio Carlos.

O sindicalista discutiu e argumentou, com  nível e politesse. Não é para todos, mas devia ser.

FNV

Referendos, memória e uma profecia

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Sem entrar agora na questão da democracia directa, que o Filipe e o Luís elevaram a novo patamar teórico e fica para outras núpcias (gay ou hetero, sejamos tolerantes), acho graça aos afrontamentos dos arautos do progresso com a última prova do génio do deputado Hugo Soares, a saber, a declaração universal “todos os direitos das pessoas podem ser referendados”. A declaração é absurda e não vale a pena bater mais no ceguinho – ainda que a única desculpa do ceguinho seja a de não querer ver. Contudo, pese o facto de o ceguinho ter prescindido para efeitos argumentativos do uso da massa cinzenta, há um ponto em que ele tem razão e outro em que, não a tendo, está de acordo com o Luís,
e os arautos.
O ponto em que ele tem razão é este: já houve, entre nós, dois referendos sobre a liberalização do aborto em nome dos direitos das mulheres. Na altura, os defensores do “sim”, entre os quais o Luís e os arautos, referendaram sem qualquer incómodo o que eles próprios definiam como um direito. Quem se opôs, haja memória, foram os defensores do “não”, dizendo que “a vida não se referenda”. Em vez de “vida”, escrevam “direito à vida” e percebem melhor onde quero chegar. O que é que mudou? Supondo que não foi a doutrina sobre a irreferendabilidade dos direitos, mudou que o Luís e os arautos esperavam ganhar descansadamente o primeiro referendo, e perderam, e não descansaram até ganhar o segundo referendo, e ganharam. O que diz alguma coisa sobre a doutrina.
E leva-nos ao ponto em que o Luís e o deputado Hugo Soares, não tendo razão, estão ambos de acordo. E tal ponto, the horror, the horror, é este: ambos consideram a coadopção um direito. O deputado Hugo Soares, prescindidindo para efeitos argumentativos do uso da massa cinzenta, coadoptou os efeitos argumentivos de quem se opõe ao referendo e marcou um golo na própria baliza (perdoem-me o plebeísmo, mas talvez assim ele perceba melhor onde quero chegar). Há um direito em causa, sem dúvida: o direito da criança a ter uma família. Mas esse direito deve ser defendido, com bom senso e caso a caso, pelos tribunais e pelas instituições. Não é um direito de quem adopta e muito menos de uma “minoria”. Se for do superior interesse da criança viver com alguém que é homossexual, ou vegetariano, ou até, Deus nos livre, deputado, nem a lei nem o referendo têm muito a dizer sobre isso. Basta que os tribunais e as instituições decidam com bom senso e caso a caso, repito.
Ora, o lobby gay recusa o bom senso casuístico porque quer a normalização da homossexualidade pela lei geral e abstracta. Quer uma lei aprovada pelo Parlamento, mas não um referendo de dúbio resultado, porque faz parte da sua estratégia de pequenos passos obter “direitos”, quase sempre através de maiorias parlamentares favoráveis, e assim o reconhecimento social de uma opção minoritária. É um caso de biopolítica, para usar o conceito de Foucault. Daqui até à criminalização da “homofobia”, por outras palavras de tudo o que os gays classifiquem no futuro como contrário aos seus “direitos”, vai mais um pequeno passo. Que será dado, tarde ou cedo, se a coadopção avançar.

PP

Indeed.

Luis M. Jorge

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PP

No comments ( XXIV)

A eterna  reescrição da História do século XX .

Depois do “ainda não houve regimes socialistas”, do dr. Fazenda ( só broncos como o  da JSD é que tem direito  à galhofa neste país do respeitinho),  agora  a versão praxes, na repetição mediática: É obedecer  cegamente, é de  inspiração fascista”.

FNV

Princesas da Disney sem photoshop.

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Aqui. Hoje em dia é uma maravilha ser criança.

Luis M. Jorge

Adoptando novas regras

Tem de haver mulheres reitoras, presidentas, directoras, deputadas. Com regime de quotas se necessário.

A única tarefa para a qual uma mulher  não é necessária é  a de criar um filho.

FNV

Claro.

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Claro que se proibissem as praxes tinham de proibir as claques. E se proibissem as claques tinham de proibir as jotas. E se proibissem as jotas, as claques e a praxes quem é que iríamos encontrar, entre a nossa juventude, disponível para combater  aqueles arruaceiros dos grafitis e dos djembés que são a favor da adopção gay?  Há praxes bem bonitas.

Luis M. Jorge

Vai ser uma festa.

«Todos os direitos das pessoas podem ser referendados»

Aqui no blog vamos propor um referendo sobre a pressão mediática da esquerda, que atrapalha o direito à garrulice do presidente da JSD.

Luis M. Jorge

Menos, por favor.

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Enough is enough.

Luis M. Jorge

Sábado, às 21h, no S. Jorge

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Depois não digam que não avisei.

PP

O maior

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Faz tudo o que um republicano faria,  mas melhor ( escuta muito, acciona drones,  vai arejando Guantanamo  etc), está sentado em cima de novas reservas de gás e oil  e  não se esqueceu de aumentar o salários de quem tem uma vida dura.

Se houvesse terceiro mandato  seria uma brincadeira de crianças.

FNV

No comments ( XXIII)

Estão a matar Abril, a direita não gosta de cultura já dizia o Salazar  etc. Estas profecias  ouvi-as agora pela boca de Maria Teresa Horta, na TSF.

Sempre a mesma clique lisboeta, sempre as mesmas capelas, sempre o mesmo bolor ( o de Abelaira), sempre o mesmo desprezo pela realidade que o círculo de amigos não cobre.

Esta velha clique que nasceu do deserto de exigência pós-74 é um verdadeiro atraso cultural.

FNV

No comments ( XXII)

César  das Neves e a direita grunha atacam outra vez; o mesmo Portugalzinho remediado, a reabilitação de Salazar.Nunca ouviu falar da sardinha para três:

“É certo que as crianças na província andavam de pé descalço, mas não tinham fome”.

FNV

Quase fingir e ganhar

Ansiedade e treino (II), no Depressão Colectiva.

FNV

Com os pés para a Zukhova

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A senhora supra sentada chama-se Dasha Zukhova e é mulher do milionário russo Abramovich, proprietário do Chelsea e outras obras de arte (não, não era uma piada machista, juro).
Parece que a senhora também colecciona obras de arte, uma das quais é aquela sobre a qual surge, enfim, sentada. A fotografia correu mundo e a senhora foi acusada de racismo, por razões que até um Camilo Lourenço em arte moderna percebe.
Só não se percebe que alguém tenha o mau gosto de se sentar, já nem digo de gastar dinheiro, em semelhante trambolho. Mesmo sendo a mulher do proprietário do Chelsea e outras obras de arte (não, não era uma piada machista, juro).

PP

Do que não existe mas existiu sempre

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O “Jornal i” escreve hoje que “o partido de Rui Tavares ainda não existe, mas já provocou um caso político, por via indireta. O Bloco dE Esquerda recusou juntar-se ao futuro partido numa coligação às europeias de 25 de Maio. A proposta vinha do manifesto 3D, formado no início de Dezembro em busca de uma candidatura de esquerda ao Parlamento europeu, mas o BE rejeitou e pôs condições”.

Na foto vemos um pouco de tudo. De um simpático ex-governante e ex- presidente da CCDR do Centro ( José Reis) a uma ex-revolucionária que dizia em 1995 exactamente o mesmo  que diz hoje ( lá se vai a desculpa da Troika). Não há muito a acrescentar, os nossos esquerdistas são conservadores. Hoje como ontem, reunem-se em Lisboa, zangam-se, separam-se, demitem-se, declamam poesia, traçam planos, fundam e dissolvem  partidos, fracções, plataformas.

Por motivos que me escapam, não compreendem que o povo bruto e estúpido, na hora da verdade, não  lhes ligue patavina.

FNV

No comments ( XXI)

Penso que teria beneficiado do abuso do láudano.

Chego da consulta e janto  a ver o Crespo, que andou com Marcos Antónios Costas ao colo, a fazer de entrevistador agressivo  com Marco António Costa. A sensação  de torpor prolonga-se ao ouvir o citado Marco António Costa gabar-se de “ter tirado aos ricos” para endireitar o país.

FNV

No comments ( XX)

Se por um louco acaso isto se verificar, teremos  de enviar o povo  estúpido para um campo de reeducação.

Sugiro o Alentejo ( um muro da Juromenha à Comporta e minas de Sagres a Ayamonte) e seminários  bem orientados  com tudo muito explicadinho por lisboetas  à esquerda do Tó Zé ( o Pacheco Pereira pode).

A alternativa é incentivar a emigração. Exportamos  os 37% de grunhos e mandamos vir bascos, venezuelanos,  malgaches e islandeses.

FNV

Praxe

Entre outros motivos anti-praxe,  o  não me  excitar  uma mulher de gravata.

FNV

Já agora referenda-se isto.

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Não limitemos a democracia directa, camaradas.

Luis M. Jorge

No comments ( XIX)

O Público, o último jornal ainda livre das garras da influência da  direita  gordurosa, acaba de cair. Demite-se Ana Drago, essa sereia serena da esquerda lusa, e a notícia  foi ontem remetida para uma pequena  chamada de última página.

Tivesse sido um hobit da comissão política de Seguro  ou uma vice-presidente da bancada parlamentar do PSD e teriam tido direito  a parangona de capa. Não se faz.

FNV

A 30 minutos de casa.

Lawrence's Hotel

Era uma ideia antiga, finalmente cumprida por falta de forças para conduzir. Ficámos uma noite em Sintra e gostámos muito. Sintra, como Veneza, ou Nikko — com que se parece estranhamente — é infestada de dia e abandonada à noite, pelo que a melhor maneira de apreciar a vila é dormir por lá. O Lawrence’s recorda os melhores paradores espanhóis, com uma noção de conforto à antiga composto por toalhas que secam, camas que não rangem, fogo nas lareiras e uma equipa muito prestável sem cumplicidades deslocadas, que tranquiliza os hóspedes. Se não ficasse tão perto de Lisboa seria um destino recorrente.

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Luis M. Jorge

Verdades, referendos, argumentos.

Os intérpretes românticos da história das ideias acreditam em polémicas alimentadas pelo mérito dos argumentos. Mas desde os anos sessenta do século passado que um punhado de intelectuais procedeu ao mapeamento dos limites políticos da reflexão desinteressada.

Thomas Khun ofereceu-nos o conceito de “mudança de paradigma” para contrariar a credulidade de quem via o progresso como uma revelação paulatina da realidade objectiva, independente das crenças entranhadas nas comunidades cientificas. Ou seja, demonstrou que as crenças, mesmo em áreas identificadas com o método experimental e a razão, eram decididas por factores independentes, rupturas políticas e institucionais.

Nos anos setenta e oitenta as teorias de Khun foram usadas, e adulteradas, para propor que o cerne de um conjunto coerente de ideias não era a relação com qualquer realidade identificável mas, antes, o poder político que as suportava. “O que importa”, escreveu Sheldon Wolin, “não é sabermos que paradigma é mais verdadeiro, mas que paradigma será aplicado”.

Esta relativização da descoberta experimental abriu caminho a manipulações várias, intencionais. Uma das mais irónicas, iniciada em 1996 na Califórnia, chamou-se “The Wedge Project” e propunha a “substituição do materialismo e das suas heranças culturais destrutivas por uma alternativa científica positiva”, de matriz religiosa, a que se chamaria mais tarde “intelligent design” após um bem encenado “julgamento do darwinismo”.

Em breve alguém fará a história do neorepublicanismo, do ataque aos consensos científicos sobre alterações da temperatura, etc., e descobriremos novas e interessante manipulações. Mas não é isso que me traz aqui.

O que me traz aqui é a convicção de que muito dificilmente podemos defender ou contestar propostas como a do referendo à co-adopção por homossexuais sem ter em conta a antecipação do resultado prático dessa consulta popular.

Ou seja, este é um dos casos em que faz sentido a inversão de Clausewitz  ensaiada por Foucault: a política é uma continuação da guerra por outros meios.

Sendo que em guerra os argumentos respondem pelo nome de propaganda.

Luis M. Jorge

Graphe asebeia: referendo, democracia e governo

Respondendo com gosto ao repto do Miguel Serras Pereira (se consigo ou não é outro osso),  vejamos então, recusando qualquer tendência de equidistância:

Imaginemos , usando  a velha grelha de  Rawls ,do véu de ignorância, que desconhecemos  os nossos interesses particulares e examinemos a justiça da participação popular  na decisão. Ou seja, independentemente do cálculo quanto ao resultado, analisemos   o direito do povo de se  pronunciar sobre  assuntos  de natureza social. Tomemos com razoável que adoptar uma criança  não é um direito humano, mas tomemos também  como razoável que  a questão está em saber se podemos restringir a adopção a uma orientação sexual específica.

A própria possibilidade de suscitar o referendo sobre a adopção gay  significa a suspeita de asebeia, ou seja, da existência de um comportamento reprovável à luz da moral divina ou social.  Não se referendam os direitos laborais dos homossexuais. Muitas comunidades decidiram que a matéria é referendável : eslovenos sobre  a adopção  croatas sobre o casamento  e irlandeses, que decidirão  sobre o casamento em 2015 . Podemos concluir que não é estranha a vontade europeia ( nos EUA têm  ocorrido  vários) de referendar assuntos de natureza social, não podemos concluir que esse instituto é bom em si mesmo.

Aristóteles ocupa-se com minúcia  da regulamentação da vida privada ( Política, VII: 1335-1336b):  o casamento de jovens ( sémen ainda em desenvolvimento), a compleição física dos pais,  o adultério ( pena de atimia se durante o período fértil) e muitos outros detalhes. Temos, portanto, que a democracia directa não impedia a intromissão no quarto de casal, mas também  verificam os mais distraídos, que, mesmo sem Fátima e crucifixos, uma sociedade altamente politizada ( sem partidos et pour cause) podia arrogar-se de se ocupar  de tais assuntos.

 Que fique claro que se queremos  combater a violência organizada do Estado, temos de desenvolver armas poderosas, apropriadas à magnitude da tarefa ( Delo Truda N°17, October 1926, pp. 5-6). Esta pequena declaração de Makhno  descobre o terreno. Se é entendido pelos defensores das causas LGBT que em todo o lado o   Estado  tem exercido violência sobre os homossexuais, então não pode ser o Estado, através  do poder legislativo, emanado  dos mecanismos  de representação  partidária, a libertá-los. Significa isto que referendar a adopção gay é bela e maravilhosa participação popular ? Não. É desnecessário utilizar um possível referendo à adopção gay como bandeira de uma governação participada, porque ela não existe. 

A graphe asebeia ( acusação  pública) reside na artificialidade com que são utilizados os écrans. Os partidos cativam o poder legislativo, impondo a velha chantagem de que sem eles seria o caos, como se não pudessem coexistir diferentes estruturas de representação. A confusão instalada espelha as contradições  de uma  elite  político-burocrática que rege o direito do subalterno a falar ( roubando a coisa a Spivak), dessa forma reforçando a condição de subalternidade do povo, voire, de uma existência concedida.

 

 

 

No comments (XVIII)

A unidade de esquerda em progresso.

É sempre notável a forma abnegada como as esquerdas  esquecem egos e questíunculas  em alturas de grave ofensiva neoliberal.

FNV

Treino

Da ansiedade. No Depressão Colectiva.

FNV

Notícias do bloqueio

A notícia de que o défice das contas públicas baixou para metade no último ano devia ser bem recebida por todos, sem estados de alma nem ranger de dentes. Mas não se deve esquecer que a carga fiscal continua obscena, que o Governo tem o dever moral e político de a descer, que a ciência portuguesa está incompreensivelmente a saque, que a política cultural se resume aos “cortes”, que há muito por fazer na educação, que somos regidos por gente que contribuiu activamente para o buraco onde estamos graças a boys como o Sr. Primeiro-Ministro da Tecnoforma, o nunca esquecido dr. em equivalências Relvas, o Sr. Branquinho do lobbying e outros que, apesar de toda a conversa do empreendedorismo, sabem pouco da vida real e muito de referendos para lixar a oposição e perfis de candidatos a eleições distantes. Em suma, que estamos a ser mal governados. Se os indicadores económicos e financeiros estão a melhorar, o Governo bem pode agradecer a quem os pagou com o aumento do IVA e do IRS e a diminuição de salários e pensões: nós.
Consta que Passos já vê a luz ao fundo do túnel, por outras palavras a vitória em 2015. Talvez. Entre ele e o PS de Seguro ou, pior ainda, as aulas magnas de Soares e as idas de Sócrates à escola, talvez os portugueses escolham o mal menor. De novo. (E eu nem acredito que acabo de escrever isto.)

PP

PP

Nota mental.

Estou trabalhar com uma empresa que faz medicamentos para o cancro.   E de repente noto em mim um desconforto ao perceber que boa parte da comunicação nesta área sublinha as qualidades morais dos pacientes ou de quem os auxilia. A jovem que revela oh tanta coragem perante a sentença que a consome, o empresário que articula os últimos pensamentos com brio e equanimidade, etc.

Tento analisar a minha repugnância por este tom elevado, repleto de virtudes, e recordo os últimos meses dos meus pais. Nem a moral nem a filosofia lhes valeram e abomino quem, mesmo por inépcia, se arrisca a insinuar que uma boa dose de “coragem” ou outra merda qualquer poderia ter feito a diferença. Há, entre os vivos, uma quantidade excessiva de palermas sentenciosos.

Luis M. Jorge

Da série “O som e a fúria”

“He [Hugh Trevor-Roper] knew Albert Speer well, since he interviewed him many times in prison. He always found Speer an enigma: how had such a cultivated and intelligent man come to serve the Nazis? After many long conversations, he eventually asked Speer whether, if he could have his life again, he would choose to be like his father, a respectable bourgeois architect in a provincial German town; or whether he would choose to be what he in fact became, the armaments minister of undoubtedly the most evil and destructive man in the history of Europe, if not the world. Speer, who never answered any question in a hurry, paused for a long time, looked away and frowned. Then suddenly he turned his eyes directly on his interrogator, and said simply: You have to understand the irresistible fascination of power.”

Alasdair Palmer, “The letters of Hugh Trevor-Roper”, in Standpoint, Jan. 2014, p. 76.

No comments ( XVII)

É tão bom reduzir o défice quanto saber que isso nos saiu do lombo.

Por conseguinte, talvez fosse curial baixar o ruído da música. Quanto mais não seja, por respeito ao boi.

FNV