2013: Mais prémios

Ia-me esquecendo de dizer, mas um dos protagonistas de 2013 foi o PCP. Partido necrófago, prospera em tempo de crise. Conceda-se-lhe, no entanto, o mérito – talvez seja mesmo o seu único mérito – de ter resistido a todos os cantos de sereia do aggiornamento. Antes, os jornalistas chamavam “renovadores” às sereias, que acabavam invariavelmente por dar à costa no PS ou no Bloco de Esquerda. Agora, já não lhes chamam nada. Sintomaticamente, os “renovadores”, certos e regulares como as marés há uns anos, desapareceram da paisagem. Os comunistas eram uma espécie em extinção e o futuro pertencia às “terceiras vias”, em versão socialista ou bloquista. O Muro de Berlim caíra, o capitalismo vencera e a democracia liberal prometia mil anos de paz e felicidade ao universo. O consumismo triunfara sobre o comunismo. Os ingénuos mais recentes previam o “fim da história” e os mais antigos, como sempre, o “fim das ideologias”. Depois da luta de classes e da Guerra Fria, a esquerda pós-moderna redescobria nas “causas fracturantes” e nas “questões de género” os amanhãs que cantam.
A crise económica, porém, lembrou que ainda havia umas contas a ajustar com o capital. E que a notícia da morte do PCP era um pouco exagerada. Quando todos vimos que a história afinal não tinha acabado, eles mostraram ter ainda os recursos ideológicos e sobretudo institucionais, através dos sindicatos, para organizar a revolta. Hoje, os camaradas somam mais intenções de voto do que no PREC, a oposição socialista limita-se à paulada magna do Dr. Soares e o Bloco voltou a ser o que sempre foi: meia-dúzia de burgueses a brincar aos revolucionários, nos quais o povo real não confia para enfrentar os seus reais problemas.
Uma ironia da história, a tal cujo óbito também não passou de ligeira hipérbole, porque o PCP já deixou de acreditar na revolução. Não sei desde quando (25 de Novembro? 1989? sucessão de Cunhal?), mas os sinais acumulam-se. Por exemplo, o processo revisionista em curso, evidente no centenário de um Cunhal de rosto humano no ano passado, ou o branqueamento das intenções do partido em 75, a cargo de Raquel Varela e outros. Por amor ou por interesse, o PCP aceita hoje a democracia representativa.
De resto, só uma ínfima minoria dos 18 ou 19% que o PCP tem nas sondagens há-de sonhar com a ditadura do proletariado. O voto no PCP tornou-se um voto de protesto, ou seja, uma válvula de escape do próprio sistema. A boa saúde do PCP é um sinal de normalização democrática. É provável que estes 18 ou 19% desçam à medida que os indicadores económicos melhorem. Mas, até lá, são uma boa notícia para a democracia portuguesa. Os votos que vão para a Soeiro Pereira Gomes não vão para camaradas mais à extrema-esquerda, ou mais à extrema-direita, ainda mais necrófagos.

PP

6 thoughts on “2013: Mais prémios

  1. henedina diz:

    “meia-dúzia de burgueses a brincar aos revolucionários”, eheheheh.

  2. João. diz:

    Partido necrófago? Quem anda a roer os ossos do país é o seu partido.

  3. João. diz:

    Para mim os protagonistas de 2013 foram os reformados que, assim parece, têm que andar com esta merd@ toda ao colo – até os benefícios fiscais do “novo” IRC aos accionistas das empresas do PSI 20 eles, pelos vistos, pagarão em 2014 com esta renovação da CES.

  4. XisPto diz:

    Belo post. Concordo com quase tudo e só diria que o PC subsiste e prospera omitindo o seu verdadeiro programa mas sem se aproximar de vir a ser poder para gerir o capitalismo e a democracia, mas terá a sua oportunidade se a atual crise repetir 1929. E o que é inquietante é o facto de, como muitos assinalam, as soluções em curso (austeridade simultânea de todas as economias) serem idênticas…Talvez, então, as notícias sobre o abandono pelo PC da ideia de revolução se venham a mostrar precipitadas.

  5. Partido necrófago?!
    Chiça! Um dia destes fará-se-á a metaforologia do argumentário odioso anti-comunista. Haverá, certamente,um capítulo intitulado “Metáforas dietéticas: da paidofagia à necrofagia”. He, he, he…

  6. Camarada, “partido necrófago” será talvez um insulto escusado. No entanto… o resto do teu texto redime esse começo fulgurante – tão do agrado de mandíbulas ultramontanas.

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