2013: Outros prémios

Bloggers do ano: Filipe Nunes Vicente e Luís Miguel Jorge, ex aequo. São um bocadinho de esquerda para o meu gosto, mas têm um blogue muito bom. Há por lá outro tipo, que não está à altura, mas poupo-me ao trabalho de o ler.

Livro do ano: Servidões, de Herberto Hélder. Quando todos querem fazer do velho Herberto uma estátua em vida, ele vem dizer que está longe da obra completa. Poucos escrevem em português com esta intensidade, este fogo interior, esta arte de extrair de uma língua com mil anos versos surpreendentemente belos. Ele bem avisa que espera “um dia inteiro para morrer completamente/ quando a fruta com seus muitos vagares amadura”. Ele bem pergunta “será que um poema entre todos pode ser absoluto? escrevê-lo e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas”. Ele bem se queixa do ruído do mundo, fechando-se cada vez mais na sua concha: “nunca mais quero escrever numa língua voraz,/ porque já sei que não há entendimento,/ quero encontrar uma voz paupérrima/ (…) quero encontrar uma língua tão restrita que só eu saiba,/ e falar nela de tudo o que não faz sentido/ (…) como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,/ ah, um poema feito sobretudo de fogo forte e de silêncio”. Pois sim. Continuaremos à escuta da “perfeição de poucas linhas” do maior poeta português vivo.

Filme do ano: To the Wonder, de Terrence Malick. Sou um malickiano primário. Este último filme do génio não tem o fôlego cósmico de The Tree of Life, mas não deixa de ser um grande, grande, grande filme. A sua má recepção geral, mesmo por parte da crítica, irritou-me, confesso, e levou-me a escrever uma série de posts, que abandonei porque ficava sempre demasiado por dizer. O cinema de Malick é hoje o que mais se aproxima da obra de arte total, uma rede de referências históricas, literárias, musicais e artísticas que só em conjunto nos dão o verdadeiro sentido das imagens (belíssimas). Não contam uma história linear nem dão as personagens de bandeja. Por isso fogem ao nosso “horizonte de recepção”, desenhado pelos romances do século XIX e pelas séries televisivas do século XX. Mas as obras-primas alargam as fronteiras da experiência. To the Wonder faz jus ao título.

PP

12 thoughts on “2013: Outros prémios

  1. fnvv diz:

    Engraçadinho self depreciative.

  2. Bone diz:

    Não gosto particularmente da febre dos superlativos típica do final de ano, mas dos 3 bloggers talvez o Pedro seja o mais tolerante, o que não deixa de ser curioso na medida em que parece que é também o que fica à direita na fotografia. Digo isto porque desde que me deu para procrastinar por aqui foi o único que nunca me censurou. Mas saiba que os seus colegas mais liberais, quando a conversa não agrada, não desdenham a tesoura. Concordo consigo quanto ao Herberto Helder. Já o filme, não o vi, mas acho o Terrence Malick um chato. A Árvore da Vida foi para mim um grande bocejo pretensioso.

    • ppicoito diz:

      Não sou o mais tolerante, também já censurei comentários. É um dos direitos de quem faz um blogue. Grave, grave é achar o Malick um chato.

      • Bone diz:

        Lamento que afinal também não seja um modelo de tolerância. Um direito? Com as devidas distâncias, a PIDE julgo que também tinha o direito de censurar. É uma questão de princípio, salvo a filtragem de insultos, linguagem obscena, bla bla bla, não me parece correcto barrar comentários, a partir do momento em que convidam os leitores a partilhar os seus “pensamentos”. Não é livre o pensamento?

      • fnvv diz:

        Nunca censurei nenhum comentário, só lixo pessoalizado, que são tão comentários como eu sou do FCP, incluindo os da doce Bone. Vg os do “Zizek” João , que passam todos nos meus posts.

      • ppicoito diz:

        Não conheço os casos de que está a falar, não gosto que comparem os meus amigos com PIDEs e não vou continuar uma conversa que está a ficar nonsense. Com ou sem as devidas distâncias.

      • fnvv diz:

        no jurássico da blogosfera, no tempo do Mar Salgado houve um personagem com o discurso da Bone :chamava nomes a fingir e tal e depois queixava-se censura e discursava inflamado sobre a liberdade de expressão.
        Un dia passámos a visitar o blogue dele e a fazer exactamente o mesmo. Guess what: Cortava os comentários eheheheh…

      • Bone diz:

        Nunca sem as devidas distâncias, Pedro. É comum recorrer-se ao exagero para tentar demonstrar um ponto de vista, não percebo onde está o nonsense. E eu que apenas queria fazer-lhe um elogio…

        Os argumentos ad hominem, doce-amargo Filipe, também são frequentes mas com objectivos menos nobres. Não percebo a que se refere com “chamar nomes a fingir”. Limitei-me a constatar factos, nada mais. É claro que os bloggers são livres de censurar o que bem entenderem, mas nunca um “pensamento” meu, mesmo pouco simpático, foi bloqueado pelo seu colega e reconheço nisso uma certa grandeza de espírito.

  3. henedina diz:

    DNA tramado,…eu já sou do tempo do jurássico.

  4. Esse Luis Miguel não estou a ver quem é, mas tu e o Filipe não se safam mal.

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