Prioridades

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Duas notícias recentes mostram o esclarecido desvelo com que o Estado português trata o património cultural à sua guarda, que é o mesmo que dizer o nosso património.
No convento de Santa Cruz do Buçaco, na noite de Natal, um incêndio provocado por um curto-circuito, por sua vez devido a uma infiltração, destruiu por completo uma Sagrada Família de Josefa de Óbidos, acima reproduzida. Como sempre, houve alertas (ou assim se alega) e o inquérito oficial está em curso. Não sei o que é mais irónico: se a data do acontecimento, se o comunicado da Câmara Municipal da Mealhada a garantir que era imprevisível. Nunca se viu um quadro ficar irremediavelmente perdido por falta de condições… Já sei, a crise, e a falta de orçamento, e a Fundação não-tem-dinheiro-para-mandar-cantar-um-cego-quanto-mais-para-fazer-obras, e tal. Entretanto, um dos melhores exemplares da pintura portuguesa do século XVII ardeu por causa de uma infiltração. Obra magnífica, em que Josefa de Óbidos exibe o seu domínio da técnica e inova na temática, cruzando uma Sagrada Família com uma Virgem do Leite. Não conheço outra semelhante em Portugal. Talvez haja, mas deve estar num buraco qualquer – à espera do imprevisível incêndio.
A outra notícia é a venda em leilão dos oitenta e cinco Mirós do BPN, que o Estado tem na sua posse graças à nacionalização do banco. O Secretário de Estado da Cultura informou candidamente que a colecção “não é uma prioridade” do actual executivo. Um esclarecimento talvez desnecessário, pois ninguém duvida das prioridades do actual executivo. Executar, como lhe compete. Uma colecção de Mirós rende uma porradona de massa, e sabem Deus e o senhor Secretário de Estado como os nossos governantes precisam de massa para tapar os buracos orçamentais que eles, ou outros que tais, criaram em nome do nosso futuro.
Se os Mirós sairem, nunca mais os veremos por cá. Como nunca mais veremos o Crivelli que a “opção ideológica” do anterior Secretário de Estado deixou sair. Mas há uma diferença. O Crivelli estava nas mãos de um privado, os Mirós estão nas mãos do Estado. O Governo não tem que pagar nada por eles: só tem que resistir à tentação de fazer dinheiro imediato e pensar que o futuro também merece algumas “prioridades”. Se a perda do Crivelli foi uma negligência, a perda de oitenta e cinco Mirós será uma estupidez.
Não estou optimista. Somos um país pobre, mas podemos contar sempre com prodígios de obtusidade para o tornar ainda mais pobre.

PP

51 thoughts on “Prioridades

  1. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, por já ter comentado este assunto noutros postais deste blogue, registo somente que, segundo a notícia da edição de ontem do “Público”, o Museu Miró do BPN (pois é de um verdadeiro museu que se trata, dada o número de obras em causa) foi adquirido em 2006 por trinta e quatro milhões de euros (€ 34.000.000,00) e agora o nosso (Des)Governo apresta-se, qual lépido manageiro da planície alentejana, a vendê-lo sete anos e meio depois pela grossa maquia de trinta e cinco milhões de euros (€ 35.000.000,00) em leilão fechado e num único lote na Christie’s de Londres.
    Depois da dita crise financeira de 2008, custa a crer que o Museu Miró do BPN tenha valoorizado tão pouco…

    • ppicoito diz:

      Tem razão, mas quando se vende à pressa costuma dar mau resultado. Uma dupla estupidez, portanto.

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Pedro, temo bem que seja pior: é a preocupante imposição, genérica e por defeito, da desvalorização omissiva dos bens culturais de propriedade pública por mero preconceito ideológico, a que se atribui a virtude amorfa da neutralidade axiológica.
        Em suma, trata-se muito simplesmente de cegueira: o pior cego é sempre aquele que não quer ver.

  2. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Pedro, já agora V. também pode subscrever e divulgar, caso queira:
    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=joanmiro

  3. veronica santos diz:

    Eu peço desculpa, mas se o quadro não fosse destruído pelo incêndio, também não ficaria em muito melhores condições devido á humidade devida a infiltração, pelo que a questão que se coloca é: porque é que não tiraram o quadro do sitio onde estava?

  4. henrique pereira dos santos diz:

    Independentemente de saber se a decisão está certa ou errada, dizer que o Estado não tem de pagar nada é ser um bocado económico com a verdade. Se ficar com os quadros fica uma dívida por pagar de 35 milhões de euros. Só em juros são perto de um milhão e meio anuais. Eu até admito que tudo isso seja justificado, mas dizer que manter uma dívida é não pagar nada, parece-me estranho. E, sobretudo, parece-me o raciocínio exacto que nos trouxe até aqui.

    • ppicoito diz:

      Tem informações que eu não tenho.. Onde é que foi buscar essa de que há uma dívida a pagar pelos quadros?

      • henrique pereira dos santos diz:

        A sua pergunta surpreende-me. Os quadros fazem parte do acervo do BPN, que o Estado nacionalizou, sendo com isso criado um buraco financeiro que os contribuintes terão de pagar. Esse buraco é tanto menor quanto mais valerem os activos que vieram à posse do Estado com essa nacionalização. Entre esses activos estão os quadros do Miró. Se esse activo (tal como todos os outros activos) não for vendido, naturalmente a dívida dos contribuintes não é diminuída no exacto montante que seria possível arrecadar com a venda do activo, acrescendo, portanto, à dívida do Estado português. Note-se que caracterizar as coisas assim não é defender essa venda, isso é uma decisão política que deve ser tomada em função da definição de prioridades, como diz, e muito bem. Mas para a definição dessas prioridades convém não escamotear esta realidade. Como digo, foi exactamente a deficiente caracterização de custos e proveitos de políticas públicas que nos trouxe até aqui.

      • caramelo diz:

        Henrique, a questão é politica, não financeira, isto é, é uma questão de escolhas e prioridades na politica cultural do estado. O estado ao longo de centenas de anos já criou imensos “buracos”, como esse de que fala. Cria buracos quando adquire património cultural, móvel ou imóvel, o restaura, conserva, contrata funcionários para o efeito, etc. O Henrique prefere ver a coisa do ponto de vista do buraco; há quem prefira ver as coisas do ponto de vista do que acrescenta. Mas a justificação dada nem sequer foi financeira, foi cultural (um secretário de estado da cultura tem de dizer alguma coisa, enfim, cultural): não se justifica que os gatafunhos fiquem por cá. Eu nem sei se em vez de se vender os quadros em leilão só num lote, não renderia mais a coisa colocando-os no e-bay, peça a peça.
        Para além do resto, custa ver o coitado do secretário de estado a fazer estas figuras tristes. Para o que o homem faz, chegar-lhe-ia perfeitamente ser chefe de divisão da direção geral de finanças.

      • ppicoito diz:

        Ou seja, a dívida a que se refere é a do BPN e não a da compra dos quadros. Dir-me-á que as coisas estão relacionadas e que uma engloba a outra. Numa lógica em que se olhe para os quadros como activos iguais aos outros, sim. Mas o que estou a tentar dizer é que os quadros têm um valor muito superior ao seu valor de mercado: são um património cultural que enriquece um país tão pobre em arte contemporãnea como o nosso. E compensa conservá-lo, em nome de valores que talvez não lhe digam muito (a defesa do património como uma forma de democracia cultural), mas que nem por isso deixam de fazer parte das obrigações de um Estado democrático. É verdade que o Estado, e portanto nós todos, paga pela colecção porque paga o buraco do BPN. Mas há-de pagá-lo, quer fique com os quadros ou não. Não paga mais pelos quadros do que pagaria se não houvesse quadros, simplesmente não poupa o que poderia poupar vendendo-os. É uma quantia relativa, no contexto global. E compensa, repito, por uma questão de oportunidade. Não é todos os dias que temos 85 Mirós nos cofres do Estado. Veja-o como um investimento (para além do valor artístico). Uma colecção assim seria um estímulo importante para o turismo cultural e poderia revitalizar o eixo dos museus de Belém ou o Museu do Chiado. É só pensar um bocadinho para lá do imediato. A crise há-de acabar, assim esperamos, mas o país estará cá amanhã. De prefer~encia com 85 Mirós.

      • henrique pereira dos santos diz:

        A ideia chave que motiva os meus comentários é esta: “Mas há-de pagá-lo, quer fique com os quadros ou não.”. Sim, com certeza. Se for sem os quadros, fica esse problema resolvido. Se for com os quadros, vai ter de arranjar esse valor noutro lado qualquer (corte de prestações, corte de ordenados, aumentos de impostos, ausência de investimento, etc.). Ou seja, existe um custo e um custo de oportunidade bem claro. O Pedro tem uma dívida e tem os botões de punho em platina que o seu pai lhe deu. Não pode dizer que ficar com os punhos de platina não custa nada, custa sim, custa ser caloteiro ou desviar recursos de outro lado que lhe permitam pagar a dívida que poderia ser paga pela venda dos botões de punho. Dizer isto não é dizer nada sobre se deve ou não manter os botões de punho, isso depende das circunstâncias concretas da sua vida que lhe permitem avaliar as exequibilidade e os custos de cada opção, mas será sempre errado pressupor que não custa nada manter os botões de punho. Quanto ao facto da conservação do património me dizer alguma coisa ou não, acho que não vale a pena entrar por esse tipo de argumentação baseada na superioridade moral inerente a um ponto de vista. Até por não saber se por acaso não é exactamente a defesa do património que me leva a ter esta preocupação (entre outras coisas, saberia, provavelmente melhor que eu, fazer uma lista de património em risco de desaparecimento, não é de mudança de mãos, que poderia beneficiar desses trinta e cinco milhões poupados).
        Dito isto, a minha posição sobre este assunto em concreto é simples: não vi um único dos defensores da manutenção dos quadros dizer que põe cinco euros do seu dinheiro para manter cá os quadros, e que vai à procura dos outros 35 milhões (e, se os quadros valem assim tanto, um bom bocado mais) para acorrer ao leilão. Eu preferia uma sociedade com mais capacidade de resolver os problemas da sociedade, que uma sociedade viciada na pressão sobre o Estado (mesmo que eu entenda, como entendo, que a conservação do património faz parte do núcleo duro das funções do Estado, como a justiça, a segurança ou a diplomacia).
        henrique pereira dos santos

      • henrique pereira dos santos diz:

        por favor, antes de aprovar o comentário corrija o preferia que substituindo-o pelo preferia a. obrigado

    • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

      Caro Henrique, tomo a liberdade de esclarecê-lo: o Zé Povinho já pagou (entre outros bens culturais que não se encontram sequer catalogados) os 85 Miró do BPN em 2008 pela módica quantia de dois mil e oitocentos milhões de euros (€ 2.800.000.000,00).
      Por isso, assumo o risco de descer o nível deste comentário:
      Afinal este (Des)Governo já vendeu os 85 Miró do BPN à Goldman Sachs?

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Henrique, aceito o seu desafio: como sou funcionário público (ou “trabalhador em funções públicas” como agora dizem as leis vigentes – isto é, sou um custo) e, cortesia da Troïka, irei receber no dia 21 deste mês o meu subsídio de sobrevivência (já com os novos cortes da Xôra Sinistra-de-Estado-e-das-Finanças), comprometo-me desde já a contribuir com cem euritos (€ 100,00) do meu bolso para o fim em vista: tapar o buraquito dos 85 Miró.

      • henrique pereira dos santos diz:

        Acho óptimo. Agora mexa-se porque só falta o resto para os 35 milhões (é melhor criar uma almofada, porque como é em leilão, e os quadros são valiosíssimos, certamente serão mais que os 35 milhões). Só lhe peço é que guarde uma folgazinha porque dentro de algum tempo vou lançar um projecto de crowdfunding para comprar terrenos para conservação da natureza (em vez de pressionar o Estado para os comprar) e espero que colabore também na manutenção do nosso património natural.

      • caramelo diz:

        Henrique, estive cá a pensar. Reconhecendo que “a conservação do património faz parte do núcleo duro das funções do Estado”, como “a justiça, a segurança ou a diplomacia”, haverá alguma razão para que o seu desafio de mecenato coletivo não se estenda às outras funções essenciais do Estado? Vejamos, em vez de nos queixarmos de falta de segurança, sempre podemos começar a pagar dos nossos bolsos à policia, como antigamente aos guarda noturnos.

      • veronica santos diz:

        Ola Caramelo, com todo o respeito, o que o Henrique defende é uma racionalização de recursos. Não me parece de todo desajustado.

      • henrique pereira dos santos diz:

        O mecenato colectivo, como lhe chamou, ou qualquer outra forma de mobilização voluntária de recursos não substitui o Estado em todas as circunstâncias. A justiça não pode funcionar se as pessoas juntarem voluntariamente recursos e não funcionar quando resolvem não se mobilizar para a pagar (entre outras coisas porque uma justiça que se baseia nas contribuições de alguns, nunca será uma justiça reconhecida por todos).
        O que não significa que quem acha aquele conjunto de quadros imprescindível, ao contrário da opinião do Estado, não se mobilize para os comprar e disponibilizar ao público.
        Repare como o post, involuntariamente, mostra os riscos da opção de não ter critérios no uso dos dinheiros públicos, achando que tudo é importante: o quadro da Josefa de Óbidos está à guarda do Estado há anos. A mata do Bussaco foi um exemplo de incúria do Estado na conservação do património. Por acaso, exactamente quando um trabalho notável de recuperação de todo o acervo de património do Bussaco é bem visível (impulsionado por uma fundação e não tanto pela tutela directa do Estado central), é que o quadro ardeu. Teriam sido precisos 1,4 milhões de euros (e continuam a ser precisos) para a recuperação do convento onde estava a pintura.
        Ou seja, quantos Mirós seria aceitável vender para recuperar o convento e conservar o seu recheio?
        E há mais, muitas mais situações destas pelos país fora, com património em risco, sejam pinturas, sejam sítios arqueológicos, sejam muitas outras coisas.
        Insisto que o que me preocupa nesta discussão é a ideia de que manter um activo, em especial quando se tem uma dívida com custos brutais, é uma coisa que não custa dinheiro.
        Esta ideia distorce completamente a discussão.

      • caramelo diz:

        Henrique, eu estou disposto a discutir a racionalidade das opções do estado, como diz a Verónica, e se o estado não acha importante termos esta coleção de mirós, só me resta ter pena e lamentar que o estado tenha uma visão tão estreita da cultura e aliene um património de que estamos em falta, por tão pouco. Já admitia que se vendessem os quadros pelo preço total da dívida. É uma simples questão de ponderação, que no caso não me parece que tenha sido feita. Puro desleixo.
        Mas já passámos agora para outro plano e esse é uma questão de princípio que transcende o plano da gestão e opções politicas, o de que “quem quer, que o pague”. Do mesmo modo que para a justiça e segurança, a politica cultural também não funciona se estiver dependente da boa vontade e recursos de cada cidadão. Em tese, e no limite, poderia o estado colocar à venda o recheio do museu de arte antiga, ou o castelo de são Jorge (que rica pousada), lançando também esse repto aos cidadãos. Mobilizem-se para os pagar e ofereçam ao estado, se faz favor. Eu não teria grande voto na matéria e menos ainda alguém desempregado. Quem está desempregado ou a receber rendimento mínimo, nem sequer teria legitimidade para se queixar. Isto é um retrocesso civilizacional e aproxima-se perigosamente do antigo voto censitário, de tão má memória. Eu tenho pena, mas não me “mobilizo para o comprar”. Já fez as contas, a propósito, em quanto ficaria a brincadeira a cada um?
        Não percebi o que faz aqui a Josefa de Óbidos. Está a colocar as coisas em termos de opção? Eu julgo simplesmente que devia ter sido conservada a Josefa de Óbidos e mantidos os mirós.

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo, eu penso que a questão que se coloca é: e como é que se paga?

      • caramelo diz:

        Como é que se paga o quê, Verónica? Os quadros comprados na Christies? Eu acho que eles lhe dão a entidade e referência para pagar no multibanco; trata depois disso com a tesouraria dos gajos😉. Mas está a perguntar como é que se paga a dívida pública, ou os serviços prestados pelo estado? Não percebi bem.

      • veronica santos diz:

        Não Caramelo. Como é que paga a conservação do convento e já agora os 85 miros.

      • veronica santos diz:

        Ou seja, o que e que vale 85 miros? A saude, a educaçao, a segurança, a habitaçao, prestaçoes sociais, reformas, ordenados….

      • veronica santos diz:

        Mas tem razão Caramelo, eu sou suspeita….Se estivéssemos a falar de Rothkos a minha posição seria seguramente diferente;) Cumprimentos

      • caramelo diz:

        Está a perguntar como é que se paga uma sociedade civilizada? Não sei. Nós temos um sistema curioso, desde há uns anos: mandatamos representantes para gerir bem o dinheiro que lhes pagamos para fazer essas coisas todas. É uma espécie de pacto. Quando achamos que fazem asneiras, vimos aqui ao DQ protestar. Estes, por exemplo, estão a fazer asneira. Por exemplo: se agora vendessem ali na feira as carteiras da escola do meu filho, eu não me punha a perguntar onde arranjar dinheiro para os comprar de novo e oferecê-los à escola. Ia ficar chateado mesmo com o governo.

      • veronica santos diz:

        Viva Caramelo. Quando os recursos são finitos…temos que fazer escolhas. Eu também gostava de ficar com os miros, como também gostava que o nosso património cultural,,histórico, arquitectonico não se desmoronasse…. mas temos contas para pagar….entre isso, e não ter dinheiro para poder disponibilizar um sistema de educação universal e um sistema de saúde minimamente eficaz….eu não tenho muitas duvidas sobre qual eu escolheria…

      • caramelo diz:

        Sim, Verónica, mas é que, precisamente, nem mirós, nem sistema de saúde e de educação eficazes, essa é que é essa. A Verónica não tem dúvidas sobre quais escolheria, nem eu. Que se fossem os mirós, se essa fosse a opção. . já passei uma vida inteira sem ver mirós ao vivo, mais miró menos miró… O pequeno problema é que essa escolha não nos assiste, estamos a ser puxados para baixo em todos os campos, e eu não consigo ser assim tão blasée. Portanto, pergunta a Verónica “como se paga?”, pergunta que é a irmã mais educada da malcriadona “não há dinheiro. qual é a parte que não percebem?“ e prima dos sonsos ”temos de viver com o que temos” e do “já não há bifes todos os dias”, irmãos atrasados mentais. Ora, se fosse o governo a perguntar-me “como se paga?”, eu dir-lhes-ia “pqpcvfat! (não pergunte), tenham mas é juízo!”. É que já os do parlamento europeu andam a dizer que estamos a ser vítimas de uma conspiração de estúpidos. Apareceu um deles na televisão no outro dia, quando cá vieram, que, pela cara, se lhe fosse transmitido o pensamento em powerpoint, saia assim “mas estes gajos ainda não repararam todos que estão a ser lixados?”. Tinha um ar entre a comiseração e o desprezo, o cabrão.
        É que há outra coisa. Vamos imaginar que o governo tinha uma politica cultural. Ah, nós gostamos é da Josefa de Óbidos e de castelos, não de arte degenerada como a desse miró. Ainda vá. Mas é que nem isso.

      • veronica santos diz:

        Não concordo, Caramelo. A questão, como e que se paga? e perfeitamente legitima, no meu entender, claro esta. Não consigo perceber como e que um pais com recursos finitos, se pode dar ao luxo de assegurar uma multitude de serviços praticamente a custo zero, tais como a educação, a saúde entre outros. Não consigo perceber.

        Acho muito legitima a pretensão de saúde, educação, habitação, segurança, emprego, universal e potencialmente gratuito, mas temos que fazer contas, porque se calhar não temos recursos próprios suficientes para patrocinar essa pretensão.

        E a questão como e que se paga poderia, caso fosse encarada com alguma seriedade, trazer alguma luz ao debate. Por exemplo, porque não estabelecer um
        sistema discriminatório em função de rendimentos no acesso a estes serviços.

        Ou seja, porque e que o custo de uma consulta medica num hospital publico há-de ser igual tanto para um cidadão que ganha 485€ mensais como para um cidadão que ganha 4,000€ mensais. já agora, porque e que o mesmo cidadão que ganha 485€/mês há-de pagar o mesma taxa IVA sobre bens e serviços que o cidadão que ganha 4,000€/mês?

        ?

      • caramelo diz:

        Verónica, o Estado Social é para todos, ricos e pobres, e todos devem pagar o mesmo. preço quando individualmente acedem a um serviço que o estado presta. Admito a diferenciação num certo patamar, no da universidade, por exemplo, com valores progressivos de propinas, não naquilo que constitui o núcleo mais básico na educação, na saúde, etc. Porque se assim não for, se obrigarem cada um a pagar um preço de um serviço do estado de acordo com os seus rendimentos, os que têm mais talvez então prefiram recorrer a alternativas no privado, pagando o mesmo por isso, deixando o estado para os pobres. Não só se criam guetos, destruindo as próprias fundações da sociedade moderna, desagregando-se o tecido social, como nem sequer para os pobres se poderia assegurar o estado social, porque os recursos iriam sendo cada vez mais escassos. A solução numa sociedade decente não é diferenciar o preço, são os impostos progressivos. Cada um contribui com o que pode, possibilitando o serviço a todos.
        Este pais não está a ser bem conduzido e já muitos reconheceram isso, inclusive ilustres membros de topo da troika, e agora membros do parlamento europeu. A Verónica parece aceitar o argumento deste governo de que não pode, porque não há dinheiro, daí a sua perplexidade do “como é que se paga?”, que é como um eco de mesmas perguntas feitas por membros do governo e dos seus apoiantes. O que nos diferencia é apenas que eu não aceito isso. Simples. Temos de nos perguntar porque é que não se pode, porque é que está a ser insustentável assegurar uma vida decente para os cidadãos. Já não há porque o Sócrates gastou tudo? Ou já não há porque este governo não sabe governar?
        Quanto ao IVA, nem sequer sei como funcionaria. Não passa pela cabeça de nenhum comerciante pedir a declaração de IRS a alguém para saber quanto lhe deve taxar de IVA. Nunca se inventou esse sistema e espero que nunca aconteça. Assim como não me parece que um cobrador da CP deva pedir ao cliente declaração de IRS para saber quanto lhe deve cobrar.

      • veronica santos diz:

        Caramelo,

        1. “Porque se assim não for, se obrigarem cada um a pagar um preço de um serviço do estado de acordo com os seus rendimentos, os que têm mais talvez então prefiram recorrer a alternativas no privado, pagando o mesmo por isso, deixando o estado para os pobres.”

        Penso que não. Olhando para a oferta existente, dando um exemplo: uma consulta de urgência no publico custa 20,00€, no privado são 100,00€. Números redondos. Podia sempre existir um patamar intermédio ou vários patamares intermédios. E no publico, temos bons profissionais e bons equipamentos. Eu pessoalmente não tenho razoes de queixa. Isso para mim sim, seria um sistema mais justo e mais equilibrado.

        2. “Temos de nos perguntar porque é que não se pode, porque é que está a ser insustentável assegurar uma vida decente para os cidadãos.”

        Bem, podemos olhar para trás e tentar perceber a partir de que data deixou de ser sustentável. Basta olhar para os gráficos e perceber a partir de que data começamos a acumular divida publica. Talvez a partir de 75. Temos uma das constituições mais completa do mundo, mas também nos temos de perguntar se temos capacidade para a sustentar. Querer o estado social para todos considero um ensejo legitimo, querer que seja a custo zero, ou exponencialmente a custo zero, já acho difícil de sustentar.

        3. “Quanto ao IVA, nem sequer sei como funcionaria. Não passa pela cabeça de nenhum comerciante pedir a declaração de IRS a alguém para saber quanto lhe deve taxar de IVA.”

        Não precisaria de pedir a declaração de IRS, bastava pedir o cartão de cidadão, por exemplo.

        —//—-

        Caramelo, eu também defendo o estado social, mas entendo que o estado social deve servir, sobretudo, os interesses daqueles que mais precisam dele. Querer tudo, para todos, a preço zero ou próximo do zero não é, quanto a mim um bom sistema e assim, em vez de servir aqueles que mais precisam dele, acaba por não servir a ninguém.

        Cumprimentos,

      • caramelo diz:

        Verónica, o problema actual da divida pública tem algumas particularidades. Para saber como chegámos aqui teriamos de ir até 2007, 2008, ao deflagrar da crise financeira mundial, um problema não especificamente português, que provocou uma caríssima recapitalização dos bancos, um pouco por todo o lado. Grande parte do que estamos a pagar de divida e juros, serve para cobrir o risco assumido pelos bancos, o que é uma forma peculiar de economia de mercado. A Islândia, foi um caso à parte. Portanto, quando o Medina e outros nos dizem que desde há quarenta nos estamos a afundar, esquecem-se desse pequeno pormenor da história. E eu fosse mauzinho, diria que o Medina já estava meio surdo quando rebentou a bomba, e outros ficaram prematuramente surdos.
        Como um estado não funciona como a economia doméstica, não há estado social sem divida pública. O que explica porque é que não havia praticamente divida pública há 50 anos em Portugal. Entretanto, fizemos o SNS, construímos escolas, tirámos milhões da miséria e, ainda assim, em 2008, tínhamos uma dívida pública semelhante à da França, da Alemanha, da Austria e dos Paises Baixos (um bocado mais, aqui: http://auditoriacidada.info/facebook/docs/relatorio_iac.pdf)
        Mas como é que funciona isso de apresentar o cartão do cidadão no comercio para fazer as escalas do IVA, de acordo com o rendimento? Acho que ainda ninguém tinha pensado nisso.

      • veronica santos diz:

        Caramelo,

        Construir estradas, tirar milhões da miséria, assegurar SNS, SNE, e outras coisas mais, custa dinheiro. Não é por se dizer que em 2008, tínhamos uma dívida pública semelhante à da França, da Alemanha, da Áustria e dos Países Baixos, que a mesma passa a ser aceitável. E se tivéssemos as finanças em dia, não seria o esforço de recapitalizar os bancos que nos levaria a falência….

        Quanto ao cartao de cidadao, é uma ideia a pensar… introduçao de categorias de rendimento…um chip…et voila…

        Cumprimentos, Bom fds

  5. henedina diz:

    Excelente post.

  6. Justina diz:

    Não concordando com a lógica de vender tudo e mais alguma coisa para arrecadar dinheiro, consigo percebê-la.
    Algo que não consigo compreender de todo é o motivo porque, estando os Mirós à guarda da CGD, que tem uma fundação cultural com um curador de arte contemporânea a tempo inteiro e um grande espaço expositivo em Lisboa, nenhum dos oitenta e cinco Mirós foi exposto nestes últimos anos.

    • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

      Cara Justina, o que eu não consigo perceber é porque razão o meu antigo colega de curso Jorge Barreto Xavier, que até já foi noutra encarnação Drector-Geral das Artes do antigo Ministério da Cultura, se permite declarar publicamente que os 85 Miró do BPN não revestem valor para o acervo artístico do Estado português… Será porque o Museu Miró do BPN já foi efectivamente vendido a comprador(es) no estrangeiro e a operação agendada na CHristie’s de Londres para 4 de Fevereiro p.f. se destina exclusivamente a maquilhar o facto?

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Cara Verónica, a questão do “como se paga?” formulada pelo Henrique Pereira dos Santos é uma falácia: o povo já pagou (e mais que “repagou”) o Museu Miró do BPN em 2008 aquando na respectiva nacionalização, pelo que a venda agendada pela Dra. Maria-dos-Swaps é desnecessária (obter uns magros 7 milhões de contos, em moeda antiga, por uma colecção única que é propriedade pública devia fazer reflectir o cidadão contribuinte).
        O que V. e o Henrique deviam perguntar era antes: “porque carga-d’água anda o Zé Povinho a pagar as largas centenas de milhões de euros do contrato SIRESP ao consórcio liderado pela Galilei, SGPS (ex-SLN) quando o mesmíssimo serviço de comunicações de emergência pode ser assegurado pela rede der telecomunicações das Forças Armadas ou, no mínimo, por serviço VoIP, cujos custos são irrisórios?”

      • veronica santos diz:

        Caro Fernando, a divida não está paga. Essa é que é a falacia.

      • henrique pereira dos santos diz:

        Não vale a pena Verónica, quando logo de início se diz que será um leilão fechado, quando ele é um leilão publico, admitindo-se que a Christies se está nas tintas para a sua reputação de leiloeira só para fazer um jeitinho aos amigos do Governo, é sinal de que não se pretende discutir o assunto com nenhuma racionalidade, mas fazer o habitual tiro ao alvo que se escolhe. O que se demonstra mais abaixo com a extraordinária afirmação de que o povo já pagou a dívida, que é uma afirmação que evidentemente não tem a menor consistência.

  7. p D s diz:

    …e depois, para colorir o quadro, temos tambem os “quadros vivos” que se perdem:

    http://www.publico.pt/cultura/noticia/maria-joao-pires-renuncia-a-nacionalidade-portuguesa-1390053

    (com a “criminosa” agravante de que seriam certamente muito mais importantes, influentes, produtivos e dinamizadores da Cultura nossa, que uma tela estatica numa parede pronta a ser observada)

    • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

      Caro pDs, que estava V. à espera de um (Des)Governo em que um dos seus componentes coligatórios pretende reduzir a escolaridade obrigatória e uma sua “Ministra de Estado” (tb formada numa universidade-da-farinha Amparo e ex-professora do ectoplasma que provisoriamente serve de Primeiro-Sinistro) mente no Parlamento? Tudo mentes brilhantes, certamente…

  8. caramelo diz:

    A leiloeira atrai os compradores para o peixe chamando-lhe “one of the most extensive and impressive offerings of works by the artist ever to come to auction,” e “outstanding collection”. Pela descrição, parece-me ser de facto “outstanding”

    http://www.christies.com/sales/impressionist-and-modern-art-london-2014/miro/

    Isto dá alguma tristeza. A receita vai ser uma gota de água na dívida e não justifica de modo nenhum que os quadros saiam. Lembro-me de em criança ir ao Museu do Caramulo ver uns simples desenhos do Picasso, daqueles que ele desenhava em guardanapos de papel para pagar as refeições, mas que provocavam uma romaria à serra. Eramos quase um deserto no campo da arte moderna e não estamos agora melhor. Com sorte, o lote será adquirido pelo Américo Amorim para ele colocar num salão para os amigos apreciarem, enquanto bebem o conhaque. Ao menos, ficariam cá.

    • João. diz:

      O que é que você espera de um governo que tem lá um gajo que fica orgulhoso de ser chamado de alemão pelos gregos?

      O Lobo Antunes tem razão. O país está entregue a rapazolas.

      “Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual Governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento”.

      http://visao.sapo.pt/antonio-lobo-antunes-diz-que-o-governo-e-um-bando-de-meninos=f755354#ixzz2qU8ktfLN

      Agora andam a tentar passar a mensagem do êxito devido à reacção dos mercados. Mas alguém aqui percebe porque razão os mercados agoram baixaram os juros? O país está mais vigoroso? A sua economia está a gerar riqueza para dar confiança aos credores, como agora de se fala? O que é que melhorou ao certo? Temos melhores perspectivas de futuro?

      • caramelo diz:

        João, vamos pensar assim:
        Somos um povo cosmopolita. Tanto vamos ver teatro à Brodway, como, no dia seguinte, se nos der na cabeça, estamos a assentar tijolo num bâtiment em Paris. Então, tanto nos faz que os quadros estejam aqui como no Gugenheim, no Louvre, ou na sala de um executivo da Goldman Sachs, onde enceramos o chão ou bebemos um copo. O que é importante é que a mercadoria circule.

      • João. diz:

        Adquire uma nova dimensão aqueles momentos em que a polícia chegava aos bancos de jardim e mandava a malta circular…não era uma ordem, era um conselho para a vida.

    • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

      Caro Caramelo, talvez possamos “ex post facto” comprar o catálogo do Museu Miró do BPN que a Christie’s deve ter feito para esta ocasião, em vez de beneficiarmos do catálogo que a CGD/Culturgest já devia (desde 2008) ter elaborado há muito, não fossem as ilustres intervenções por acção e omissão do Sr. Viegas Ex-SEC e da actual Dra. Maria-dos-Swaps…

      • caramelo diz:

        Fernando, não carece. Vai-se ao google images e imprime-se quantos quadros do Miró quisermos; haja papel. Não há uma igrejinha em Espanha que se tornou famosa por causa de um restauro maluco feito por uma velhinha? Faz-se cá um museu de arte universal, desde as pinturas de Lascaux até… (o que é que se pinta agora?), digno da admiração universal.

  9. manuel.m diz:

    Cicero conta a história de Lucius Cassius que tinha a fama de ser um juiz sábio e honesto e que não se cansava de perguntar :
    Cui bono ? Cui bono?
    É na resposta a esta pergunta que está a chave da questão, e que PPicoito e os distintos comentadores devem procurar.

  10. Um pequeno comentário sobre a perda do quadro da Josefa de Óbidos: não é só “neste país”, nem são coisas que só acontecem a este governo, ou ao Sócrates…
    Lembro, por exemplo, o incêndio a Anna-Amalia Bibliothek em Weimar, também devido ao mau estado do edifício, no qual se perderam peças de valor incalculável.
    Para quem quiser saber mais: este artigo está cheio de disparates de imprensa cor-de-rosa, mas dá um ideia da dimensão da perda – http://www.abc.es/hemeroteca/historico-04-09-2004/abc/Cultura/el-incendio-de-la-biblioteca-de-weimar-una-catastrofe-nacional-en-alemania_9623433445500.html

  11. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Henrique, infelizmente constato que V.Exa. desconhece o facto de o Zé Povinho já ter pago (e “repago”) a dívida “colossal” do BPN quando em 2011, no malfadado PEC IV ainda disponível para consulta, o (Des)Governo de então declarou “urbi et orbi” que dos vinte mil milhões de euros (€ 20.000.000.000,00) que em 2008 provisionavam inicialmente o Fundo de Garantia Bancária, já só existiam nove mil milhões de euros (€ 9.000.000.000,00), isto é, depois do BPN e do BPP, menos onze mil milhões de euros (€ 11.000.000.000,00)…
    Quanto ao leilão, registo apenas o facto de a Christie’s ter elaborado para o evento (como, aliás, registou neste postal o comentador Caramelo) um catálogo pormenorizado sobre o acervo de Joan Miró “a mercado” que disponibiliza na rede, enquanto que as entidades públicas dependentes do actual (Des)Governo (CGD, Culturgest, SEC, MFAP) NUNCA o fizeram.
    Que V., caro Henrique, queira desculpar a ESTUPIDEZ deste (Des)Governo (e estou a ser mesmo muito meiguinho…) usando argumentário sobre a putativa dívida do BPN que já está mais do que paga – conforme ficou explicado acima – é um pouquinho…, vá lá… incompreensível (e continuo a ser mesmo muito meiguinho…).

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