O Pedro toca no assunto com a inocência de um jesuíta: então os referendos são bons para umas coisas e maus para outras? Em suma, sim. Ou melhor, não. Embora tenha esquecido as aulas de ciência política (uma amnésia que atribuo ao fulgor de Jorge Miranda) tendo a considerar os referendos nefastos.
Participei na campanha do referendo sobre a despenalização do aborto por causa do tema, apesar do método. O veredicto popular agradou-me, a consulta não. Os referendos são a mais manipulável manifestação da democracia directa, que é em si mesma a mais demagógica excrescência da democracia representativa.
Quando os referendos incidem sobre temas de interesse geral é fácil erguer as massas recorrendo a efeitos retóricos que a plebe recolhe em estádios ou na Casa dos Segredos, sufocando os argumentos. Quando os referendos incidem sobre temas de interesse especial tornam-se confrontos pouco participados entre seitas adversárias, sem grande poder de representação.
Ou seja, a chatice que dão não justifica os benefícios que concedem. E o calor do povo deve ser temperado por um certo distanciamento das elites, antes de cair na rua.
Espanta-me que o Pedro, um conservador, não concorde com isto.
Luis M. Jorge
eheheh bem observado, mas não é uma questão de conservadorismo mas sim de elitismo. Do bom, entenda-se.
ok, fair enough.
E o calor do povo deve ser temperado por um certo distanciamento das elites, antes de cair na rua. Esta é que podia ser a frase dum elitista. E, com o resto concordo. O único em que participei foi o do abortamento. Quando a este considero-o um aborto.