Nota mental.

Estou trabalhar com uma empresa que faz medicamentos para o cancro.   E de repente noto em mim um desconforto ao perceber que boa parte da comunicação nesta área sublinha as qualidades morais dos pacientes ou de quem os auxilia. A jovem que revela oh tanta coragem perante a sentença que a consome, o empresário que articula os últimos pensamentos com brio e equanimidade, etc.

Tento analisar a minha repugnância por este tom elevado, repleto de virtudes, e recordo os últimos meses dos meus pais. Nem a moral nem a filosofia lhes valeram e abomino quem, mesmo por inépcia, se arrisca a insinuar que uma boa dose de “coragem” ou outra merda qualquer poderia ter feito a diferença. Há, entre os vivos, uma quantidade excessiva de palermas sentenciosos.

Luis M. Jorge

16 thoughts on “Nota mental.

  1. henedina diz:

    “Toda a nossa investigação vai no sentido de ser eficaz na cura ou no alívio do sofrimento”, e tudo mais o que disser só irritará médicos e doentes.

  2. Finalmente, acho-lhe Graça.
    Ponha-me na barra do spam, se assim entender. A sua barra do spam pode ir bardamerda, hoje como ontem, e salve-se quem puder.

  3. Carlos Duarte diz:

    Caro Luís,

    Li, há uns tempos numa publicação em Inglês (peço desculpa, não consigo precisar onde) um artigo revoltado, por uma pessoa que tinha cancro (da mama, salvo erro), em que se insurgia contra a ideia comum na sociedade de que tinha de ser uma lutadora, tinha de ser esperançosa, que tinha de ter pensamentos positivos. Ela, que padecia de uma doença que podia (e com alguma probabilidade) ser fatal a curto prazo, ainda tinha que se conforma com o “ideal social” da “nobre e abnegada luta” contra a criatura (mitificada) do Cancro.

    Todo este teatro faz-me lembrar o ars moriendi da Idade Média, aplicada aos supliciados no cadafalso, que tinham de se comportar de uma certa forma, dignificando a sua morte perante os outros. Se, na Idade Média, a religiosidade obrigava a essa arte – até compreensível, porque as pessoas achavam que iriam para algo melhor – nos dias de hoje é exigida igual “arte” mesmo a quem não crê, a quem dúvida, a quem é assolado por dúvidas e receios e, muito justamente, tem o direito de ser respeitado como tal, em vez de participar no teatro macabro das expectativas terceiras.

    Obrigado pelo seu post.

    • Que interessante, essa perspectiva. Eu é que agradeço.

      • Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

        Caro Luís, desculpe maçá-lo; e porque não dizer de modo singelo: «trata o medo»

    • manuel.m diz:

      O pior são as noticias da morte de alguém que “perdeu a batalha contra o cancro”, com a implicita acusação que se essa pessoa tivesse sido mais corajosa e lutadora teria “ganho” e se afinal morreu foi, de alguma maneira, por culpa própria .
      Não há nada a ganhar, apenas resta tentar manter a compostura. Fala um sobrevivente, (por enquanto).

  4. Miguel Direito diz:

    Grande comentário. No ponto, infelizmente. Passei pelo mesmo com os meus pais e sinto-me constrangido com esse tipo de vacuidades e superficialismos que somente tentam encobrir a realidade.

  5. IsabelPS diz:

    “… uma boa dose de “coragem” ou outra merda qualquer poderia ter feito a diferença”

    Curioso ponto de vista. De cancro não sei de conhecimento pessoal (ou seja, tudo o que dele sei advém de observar gente muito próxima de mim mas não eu própria). Mas nos meus 58 anos de vida (dos quais uns 56 com uma deficiência que impõe as limitações que impõe) acumulei a clara convicção de que a coragem (equanimidade?) FAZ a diferença. Não quanto ao fim, claro, mas quanto ao caminho até lá. Detestaria viver (e morrer!) com a sua repugnância😉

  6. A humildade escasseia .. Excelente post. E apreciei mts comentários tb Bom domingo..

  7. Hugo Rocha diz:

    Um livro que recomendo sobre o tema: “Mortality”, do Christopher Hitchens. Ele próprio que morreu de cancro do esófago.

    • manuel.m diz:

      Igualmente a ler : “When I Die- Lessons from the death zone” por Philip Gould, vitima do mesmo tipo de cancro que Chris Hitchens. Lord Gould foi o principal conselheiro politico de Blair e o arquitecto do New Labour e deixou um relato minucioso e comovente da progressão da doença. Não esquecer também o português António Feio e o seu livro.

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