Verdades, referendos, argumentos.

Os intérpretes românticos da história das ideias acreditam em polémicas alimentadas pelo mérito dos argumentos. Mas desde os anos sessenta do século passado que um punhado de intelectuais procedeu ao mapeamento dos limites políticos da reflexão desinteressada.

Thomas Khun ofereceu-nos o conceito de “mudança de paradigma” para contrariar a credulidade de quem via o progresso como uma revelação paulatina da realidade objectiva, independente das crenças entranhadas nas comunidades cientificas. Ou seja, demonstrou que as crenças, mesmo em áreas identificadas com o método experimental e a razão, eram decididas por factores independentes, rupturas políticas e institucionais.

Nos anos setenta e oitenta as teorias de Khun foram usadas, e adulteradas, para propor que o cerne de um conjunto coerente de ideias não era a relação com qualquer realidade identificável mas, antes, o poder político que as suportava. “O que importa”, escreveu Sheldon Wolin, “não é sabermos que paradigma é mais verdadeiro, mas que paradigma será aplicado”.

Esta relativização da descoberta experimental abriu caminho a manipulações várias, intencionais. Uma das mais irónicas, iniciada em 1996 na Califórnia, chamou-se “The Wedge Project” e propunha a “substituição do materialismo e das suas heranças culturais destrutivas por uma alternativa científica positiva”, de matriz religiosa, a que se chamaria mais tarde “intelligent design” após um bem encenado “julgamento do darwinismo”.

Em breve alguém fará a história do neorepublicanismo, do ataque aos consensos científicos sobre alterações da temperatura, etc., e descobriremos novas e interessante manipulações. Mas não é isso que me traz aqui.

O que me traz aqui é a convicção de que muito dificilmente podemos defender ou contestar propostas como a do referendo à co-adopção por homossexuais sem ter em conta a antecipação do resultado prático dessa consulta popular.

Ou seja, este é um dos casos em que faz sentido a inversão de Clausewitz  ensaiada por Foucault: a política é uma continuação da guerra por outros meios.

Sendo que em guerra os argumentos respondem pelo nome de propaganda.

Luis M. Jorge

3 thoughts on “Verdades, referendos, argumentos.

  1. caramelo diz:

    Luis Jorge, essa da mudança de paradigma está bem achada. Porque o Hugo Soares é o Duchamp da politica. Durante séculos a arte teve duas componentes: uma representação, natural ou mental, e o talento do artista. Sem isto, a arte não era arte. Um dia, o Duchamp enfiou uma roda de bicicleta num banco de madeira e estilhaçou o paradigma. Ora, o Hugo e o seu colectivo “JSD”, têm uma concepção de politica sem o tradicional fim, o de influir, mal ou bem, na vida das pessoas, e sem qualquer talento, ultrapassando os seus velhos mentores que à falta de talento apenas aliam a militante falta de vontade para melhorar a vida das pessoas, o que não é ainda suficiente para uma alteração da matriz. Muitos outros seguidores da vanguarda também andam por ai a fazer ready mades e até cadavres esquis só com eles próprios, escrevendo coisas que nem os próprios percebem. Olha, eu, que sou liberal, até um pouco racional, por insistência de dois neurónios enamorados que comunicam comigo de uma circunvolução distante, saiu-me isto, que giro. Isto provoca natural perplexidade e perguntas de “porquê?” ou “para quê isto?”, por parte dos parolos agarrados à arte antiga, é natural.

  2. caramelo diz:

    Só um esclarecimento, que prezo muito o sossego. Eu não meto aqui o nosso Pedro Picoito, a quem não falta talento. È irracional a sua posição, mas é humana. O Pedro tem medo. Medo que isto seja o começo de uma reação em cadeia que, passando rapidamente pela adoção plena, não só altere o paradigma das relações humanas, como o paradigma da existência, ela própria. O medo bloqueia, e assim como quem tem medo das alturas mais dificilmente dá a mão a alguém que está à beira do precipício, no caso, nem sequer se atende ao facto de apenas se pretender dar alguma segurança jurídica a crianças numa determinada situação, que ninguém impediu. O que se faz em estado de ansiedade é olhar-se para o céu.
    A pergunta teria de ser mais ou menos como segue, para a população não se deixar enganar e ver bem o que está em causa:
    Dois adultos do mesmo sexo, uma criança. Posto isto, concorda com a inversão da polaridade dos núcleos dos átomos de carbono nas moléculas orgãnicas?
    Referia-me eu no comentário anterior ao Hugo, que pretende perguntar à população que valores deve ele, Hugo, ter, o que o torna nem bom, nem mau, antes pelo contrário e vice versa, o que faz do Hugo um elemento novo ainda não colocado na tabela periódica. O Hugo e aqueles que fazem likes ao Hugo. Ou daqueles, os liberais, de quem nunca suspeitaríamos que aceitassem consultas populares sobre o casamento e educação de crianças, como por exemplo o Vítor Cunha, a quem, se lá perguntarmos, ó cunha, porquê, cunha, o cunha não responde coisa com coisa e deixa-nos no mistério.
    Já perceberia se o fizessem para chatear a esquerda, mas não esclarecem. Há quem diga que a esquerda defende a causa para chatear a direita, mas ainda que assim fosse, custa-me um pouco censurar a hipocrisia que tem como resultado direto um benefício.

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