O horror, a tragédia, o esfíncter.

Por falta de tempo concentro-me nas afirmações principais deste post do Pedro:

E leva-nos ao ponto em que o Luís e o deputado Hugo Soares, não tendo razão, estão ambos de acordo. E tal ponto, the horror, the horror, é este: ambos consideram a coadopção um direito. (…) Há um direito em causa, sem dúvida: o direito da criança a ter uma família. Mas esse direito deve ser defendido, com bom senso e caso a caso, pelos tribunais e pelas instituições. Não é um direito de quem adopta e muito menos de uma “minoria”. Se for do superior interesse da criança viver com alguém que é homossexual, ou vegetariano, ou até, Deus nos livre, deputado, nem a lei nem o referendo têm muito a dizer sobre isso. Basta que os tribunais e as instituições decidam com bom senso e caso a caso, repito.

Ora, o lobby gay recusa o bom senso casuístico porque quer a normalização da homossexualidade pela lei geral e abstracta. Quer uma lei aprovada pelo Parlamento, mas não um referendo de dúbio resultado, porque faz parte da sua estratégia de pequenos passos obter “direitos”, quase sempre através de maiorias parlamentares favoráveis, e assim o reconhecimento social de uma opção minoritária. É um caso de biopolítica, para usar o conceito de Foucault. Daqui até à criminalização da “homofobia”, por outras palavras de tudo o que os gays classifiquem no futuro como contrário aos seus “direitos”, vai mais um pequeno passo. Que será dado, tarde ou cedo, se a coadopção avançar.

Cá vai a resposta possível.

1.  Ao invocar o direito da criança a integrar uma família, contrapondo-o aos direitos “de quem adopta” ou de “uma minoria”, o Pedro falsifica a questão, porque esses direitos, caso existam, não se excluem. Uma criança terá sempre direito a integrar uma família, mesmo que dois homossexuais vejam reconhecida a sua faculdade de aceder em condições de igualdade, como casal, a um processo de adopção. O Pedro cria dilemas onde eles não existem.

2. O “bom senso casuístico” não é “recusado pelo lobby gay”. Pelo contrário, muitos homossexuais adoptam crianças sem que haja notícia de tentativas de imolação. O que falta é “bom senso legislativo”, ou seja, falta que o “lobby de Fátima” e o “lobby da JSD”  que manipulam com redes tentaculares a nossa casa da democracia (estou a usar livremente a imagética do Pedro),  regulamentem sem mais pruridos uma situação de facto, dando-lhe protecção jurídica. Ou seja, que considerem um casal como casal e tratem a criança de que cuidam como sua.

3. É certo que os homossexuais preferem “maiorias parlamentares favoráveis” a “referendos de resultado incerto”. Chama-se natureza humana. Talvez o Pedro reconheça que os gays integram o género humano.

4. Ou talvez não. Como um Ezequiel das apostasias sexuais ele profetiza tragédias horrendas a quem permitir a mistura entre o uso indevido do esfíncter e a parentalidade:  nem mais nem menos que  a criminalização da “homofobia”, por outras palavras de tudo o que os gays classifiquem no futuro como contrário aos seus “direitos”. 

Um cenário apocalíptico, dantesco, capaz de horrorizar as almas puras e os herdeiros daquela boa gente  que nos deu a Santa Inquisição.

Luis M. Jorge

14 thoughts on “O horror, a tragédia, o esfíncter.

  1. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Luís, estou seguro de que a moção de estratégia global «Acima de tudo! Portugal» do PPD/PSD, da autoria moral do nosso (pr)estimoso Primeiro-Sinistro Passos Kandimba, resolve definitivamente a candente questão da gestão esfincterística a páginas 17 e 18 sob o título elucidativo de “Uma Agenda Para A Natalidade” (as maiúsculas são da autoria material da trupe anglo-americana himmelfarbiana pós-espadal): a virtude está, como é óbvio, nas sãs políticas públicas…!!!
    A ler:
    http://congressopsd.com/adm/anexos/eventos/evento1390007113.pdf

  2. ppicoito diz:

    Para quem está com falta de tempo, convenhamos que é uma resposta bastante eficaz. Não sei se te vou responder, não porque não mereças (mereces sempre apanhar alguma pancada, até porque é a única maneira de me vingar de quem escreve melhor do que eu), mas porque a guerra do referendo, em certo sentido, não é minha. Não concordo com o tempo, não concordo com o modo, não concordo com muita coisa. E já fui derrotado. A minha batalha era o casamento, e essa está perdida. Pelo menos por enquanto. Só três precisões. 1) os direitos em causa não seriam exclusivos se houvesse um direito à adopção; mas não há – é esse o ponto. 2) o cenário apocalíptico da criminalização da homofobia não é apenas futurista: já é uma realidade por essa Europa fora (na Suécia, há gente que foi presa por criticar a homossexualidade dentro de uma igreja – e não eram católicos). 3) eu não sou herdeiro da Santa Inquisição. Não mais do que tu ou os gays, o que também os torna humanos.
    Um abraço, enquanto não vamos beber um copo (antes que a tua brigada do politicamente correcto proíba tal coisa).

    • Uma pergunta, caro Pedro Picoito: concorda com a criminalização do racismo?

      • ppicoito diz:

        O racismo não é comparável à homofobia. Mas eu respondo: depende. Depende do que se classificar como racismo (e quem, como, quando, etc.). Se classificarmos como racismo uma anedota entre amigos e cervejas, não concordo. Mal estaríamos se todos os preconceitos e grunhices fossem criminalizados. Se classificarmos como racismo brigadas de espancamento de imigrantes africanos, concordo com a criminalização. Como de resto já acontece, mesmo sem invocar aquele altissonante amor à humanidade de que a esquerda tem o monopólio.

      • Sim, eu quando pensava em criminalização do racismo não falava de anedotas contadas entre amigos, mas sim de espancamentos. Portanto, ao dizer que a homofobia não é comparável ao racismo – eu diria que a primeira é uma discriminação de acordo com a orientação sexual, a segunda de acordo com a raça, mas a natureza é a mesma – acha que o espancamento de homossexuais não deve ser criminalizado?

      • ppicoito diz:

        Claro que deve ser criminalizado, como qualquer outro espancamento. De gays, de negros, de católicos arianos, de comentadores de blogues, etc. Qual é a dúvida? Mas não é disso que os gays se queixam quando falam em direitos, pois não?

    • Estou a ver que já te puseste à espadeirada com a esquerda caviar, sem querer ofender o Sérgio. Não perdes tempo. Abraço.

  3. Ah ah ah. Aquela parte sobre a “criminalização da homofobia” (entre aspas, note-se) estava a pedir uma resposta à altura. Muito bem, caro Luís.

  4. caramelo diz:

    O Pedro é demasiado ansioso. Eu acho que se deve tratar de um problema de cada vez, à medida que vão aparecendo. Quando começarem aqui a prender pessoas por dizerem que os homossexuais são uma das pragas do egipto, logo se vê. É uma coisa, entre muitas outras coisas, que não partilhamos com a Suécia; há lá mais cosas que não corremos o risco de ter demasiado cedo. Isto de aprovar leis a martelo num país, contra as as ricas tradições,nacionais é complicado. Para além de ser complicado arranjar fiscais suficientes para a coisa, há sempre muitas formas de exercer a homofobia, sem sequer ser preciso abrir a boca e muito mais eficazes.

  5. o Benfica é que não sei quê diz:

    alguém diga ao PP para fechar o itálico , que está o blogue todo torto.

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