Rugby, 2013

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Entretido com os gays, esqueci-me do rugby. Imperdoável. Mas é boa altura para rever 2013, que amanhã é outro dia e começa o Seis Nações. Foi um bom ano para o rugby. Grandes jogos, grandes ensaios, uma grande equipa que ganhou tudo (os All Blacks, pois claro) e uma viagem triunfal dos British Lions à Austrália, com vitória na série dos três tests (2-1). Até as novas regras da mêlée, o maior problema dos últimos anos, parecem estar a dar resultado. A única nuvem no horizonte, à parte as tentações comercialóides, é ainda a blindagem dos três-quartos, sobretudo os centros, em detrimento da imaginação ao poder. Mas o rugby continua a produzir artistas, como veremos. É esse o seu eterno encanto.
Assim sendo…

Melhor equipa: Nova Zelândia. Catorze jogos, catorze vitórias, um record na era profissional. Os All Blacks não perdem desde Dezembro de 2012. Não há muito mais a dizer. Ou até há. Mesmo sem Richie McCaw e Dan Carter, lesionados boa parte do ano, os homens dos antípodas mantiveram uma consistência espantosa. É o que os distingue dos outros. Há jogadores extraordinários em todas as equipas, mas os All Blacks são uma equipa extraordinária, ou seja, são mais do que a soma das partes. Só uma equipa extraordinária conseguiria perder Carter e McCaw e ganhar tudo na mesma. Há mesmo uma cultura all black, uma cultura em que um miúdo como Beauden Barrett é lançado às feras, aos 20 anos, e minutos depois está a fazer gato-sapato dos Springboks. O que nos leva a outra coisa: a força mental, a capacidade de nunca desistir, a vontade de virar resultados até ao apito final, aquela feroz convicção íntima de que a vitória será sua. Em Dublin, no Outono, estavam a perder por cinco pontos no último minuto, não tinham a bola e bastaria que a jogada acabasse para serem derrotados. E se fossem derrotados, como aconteceria a qualquer outro grémio de mortais, lá se ia o invicto 2013. Pois não é que os sacanas arrancam um turnover, partem para uma sequência ininterrupta de fase sobre fase sem uma única falha, marcam o ensaio muito depois dos 80 – e convertem-no? Os irlandeses nem queriam acreditar… Nem eles nem ninguém.

Melhor jogador: toda a gente votou em Kieran Read, decisivo no ano-maravilha dos All Blacks e um 8 clássico que faz tudo bem, do trabalho pesado na defesa ao apoio no jogo aberto. Corre que se farta, dobra a linha, está sempre onde deve, lê magnificamente o jogo e marca ensaios. Muitos. Acima de tudo, e à imagem da equipa, joga sempre a um nível altíssimo, mesmo quando não é brilhante. Se fosse uma personagem da Sophia de Mello Breyner, chamar-se-ia Mónica. Só que, ao contrário da Mónica dos Contos, nunca renunciou à poesia, ao amor ou à santidade. Leigh Halfpenny também teve um ano memorável, tanto mais que uma alta percentagem dos pontos de Gales no Seis Nações e dos Lions nos antípodas se ficou a dever à sua bota. Mas eu, que prefiro os artistas, escolho Israel Folau, o ponta/arrière australiano que espalhou magia pelos campos dois hemisférios. Chegou este ano à selecção e já marcou alguns ensaios de antologia. Não é tão bom a defender (foi várias vezes atropelado pelo galês George North nos quatro duelos entre eles), mas consegue abrir brechas em qualquer muralha com uma simples troca de pés. Já não há muitos assim.

Melhor jogo: África do Sul-Nova Zelândia, a 5 de Outubro, sem margem para dúvidas. 38-27 para os kiwis, nove ensaios, um marcador zonzo de tanta reviravolta e duas equipas em estado de graça. Há quem diga que foi o jogo da década. E foi.

Melhor ensaio: foi um ano de bela colheita, com os vintages do francês Fofana contra a Inglaterra no Seis Nações, o de North no primeiro Lions-Austrália, o segundo de Folau no mesmo jogo e o tal golpe de misericórdia dos All Blacks em Dublin, cruzamento entre a Ilíada e um tratado de mecânica dos fluidos. O meu voto, porém, vai para o ensaio do aussie Chris Leali`ifano em Cardiff, a 30 de Novembro, fruto de uma jogada colectiva brilhante. Recuperação de bola muito inteligente pelos avançados, rápida circulação pelos três-quartos, entrada fulgurante de Quade Cooper, o filho pródigo em boa hora regressado, que desequilibra a defesa vermelha com um truque de magia, variação do sentido jogo no último passe. Velocidade sobre a bola, cabeça levantada, procura do apoio, criação de espaços. Simples. Perfeito. As regras básicas e um toque de génio. E Gales defendeu sem falhas… Mas quando do outro lado está Quade Cooper, não basta não cometer erros. Dan Lidyate, um asa com a justa fama de não defender propriamente mal, disse depois que enfrentar Cooper nesse dia foi como perseguir sombras. Outro terceira-linha que nunca renunciou à poesia.

E o Seis Nações de 2014? Começa amanhã a doer, com os bifes em Paris, mas no fim vence Gales. Trust me.

PP

8 thoughts on “Rugby, 2013

  1. manuel.m diz:

    Tudo muito bem mas quem é que vai ficar com a bola depois do scrum do referendo ??

  2. xico diz:

    Meter gays e rugby na mesma frase…!Hum. Cheira-me a fantasias inconfessáveis.

  3. o Benfica é que não sei quê diz:

    cuidado com o itálico, que está o blogue todo torto.

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