Mirones

Todos os portugueses são por estes dias mirone dos Mirós, e eu também. Não apenas porque o extraordinário facto de o Estado luso ter, ou ter tido, oitenta-e-cinco-Mirós na mão, entretanto aberta, me faz abrir a boca, entretanto fechada, como se visse um nevão no Terreiro do Paço ou um tsunami na Ajuda, mas porque a relação dos portugueses com os oitenta-e-cinco-Mirós pode resumir-se ao coloquial “ficar a ver navios”, lendariamente nascido do azedume do Marechal Junot enquanto chegava a Lisboa e contemplava ao largo o Senhor D. João VI, mais a baixela, de partida para bué longe.
Bem sei, a frase está comprida, mas vou resumi-la para quem confunde o Miró com um central do Barcelona: nunca mais veremos os oitenta-e-cinco por cá. Já o tinha dito e estou cada vez mais certo. O Senhor D. João VI, pelo menos, voltou com parte da baixela. Quanto à Christie`s, espera só que se resolvam os problemazinhos legais criados pelo Ministério Público para fazer o leilão. Claro que o Primeiro-Ministro garante que não há problemazinho nenhum, mas eu, conhecendo o rigor do Governo na matéria, acredito mais nos gajos que querem mesmo fazer dinheiro com os quadros.
Aliás, também sou mirone do que de mais semelhante tenho visto a um tsunami na Ajuda – a fúria com que sucessivos Secretários de Estado da Cultura arrassam a lei e a prudência para pôr fora do país qualquer quadro que valha uns centavos. O caso Crivelli repete-se.
Dir-me-ão que não temos dinheiro para luxos. E eu, sempre mirone, que via na defesa do património uma função de soberania, vejo-me obrigado a concordar. Sim, temos luxos a mais. Sim, temos dinheiro a menos. Que tal vendermos o Palácio da Ajuda (sem Secretários de Estado, para não desvalorizar)? Ou o de São Bento (sem o Primeiro-Ministro, para não desvalorizar)? Têm uma rica história, estão ao abandono e, se a Dra. Gabriela ficar caladinha, talvez ninguém dê pela falta.

PP

2 thoughts on “Mirones

  1. caramelo diz:

    Valha-nos São Nuno Alvares Pereira, castelos e palácios é que não! Vão-se fechando as juntas com argamassa, caiando aqui e ali, reconstruindo as ameias, e ficam um brinquinho. Apesar de tudo, até o Palácio de São Bento, antes de ser ocupado pelos jacobinos, era um mosteiro… Do recheio, não fazem falta os mirós, que lembram as invasões castelhanas, podem ir até as josejas de óbidos, mas mantém-se os Painéis de São Vicente. Até ver. Está um grupo de assessores a investigar se lá está o retrato do senhor primeiro ministro Pedro Passos Coelho.

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