Author Archives: ppicoito

We´ll always have Declínio

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Os meus compagnons de route, que vêm do anarquismo elegante (Dr. Vicente) e da esquerda festiva (camarada Jorge), anunciaram-vos a queda do Declínio com aquela displicência de modos própria dos filhos da igualdade. Mas eu, que sou um conservador e tenho em devido apreço os ritos tribais, digo-vos que tentes toda a razão em pedir um pouco mais de pompa e circunstância no encerramento da caverna platónica a que nos acoitámos. Assim a frio, à entrada do fim-de-semana e no meio de um temporal, não se faz a ninguém… Mas fez-se, e é mesmo o declínio e queda do Declínio e Queda.
O Luís vai à sua vida, o Filipe andará por aí e eu hei-de lê-los. Já os lia antes de os conhecer, continuei a lê-los quando nos tornámos amigos e tenciono manter leituras e amizades.
Dei pelo Filipe no Mar Salgado, onde ele escrevia – primorosamente – traduções de Marco Aurélio e sarcasmos sobre o Benfica. Fiquei logo fã, claro. Tempos depois, ele ridicularizou o “cheiro a Lepanto” de uns posts de direita, já não sei de quem (talvez do Acidental) nem porquê. Reagi nos comentários, muito veemente, e disse que o post não era digno do nível a que nos tinha habituado. Ele respondeu que não tinha paciência para quem nivelava os seus posts, ou qualquer coisa do género. Daí passámos ao insulto, depois à ameaça de duelo, por fim à troca de emails e, quando vimos as horas, éramos amigos.
Com o Luís foi ainda mais simples. Não me lembro como descobri o Franco-atirador, mas também me tornei um leitor compulsivo. Discordava do que por lá se escrevia, mas, caramba, o que por lá se escrevia era muito bem escrito. E eu perdoo quase tudo a quem escreve bem. Ou mesmo tudo. No segundo referendo do aborto, o Luís juntou-se ao Blogue do Sim, um frankenstein de bloquistas, socráticos e liberais, e eu passava por lá, resistindo à náusea, só para o ler. Perdemos nós, ganharam eles, ele abriu o Vida Breve, eu fui lê-lo para o Vida Breve. Um belo dia, encontrámo-nos nas escadarias de S. Bento em protesto contra a “asfixia democrática”. Aquilo estava cheio de passistas e vim-me embora depressa, não sem antes o conhecer pessoalmente. Trocámos telemóveis e umas semanas depois estávamos a almoçar na esplanada do São Carlos, ele a falar de Veneza e eu de S. Martinho do Porto.
O resto é história. Entretanto, e como já disse aí para baixo, ainda vos darei umas linhas sobre o Seis Nações e o Papa nos próximos dias. Não é o princípio de uma bela amizade, mas teremos sempre o Declínio.

PP

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Sic et non

Não me surpreende que o PSD expulse António Capucho.
O que me surpreende é que alguém queira ficar no PSD.

PP

Jogos Putínicos de Inverno

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Esquecam o slalom e o bobsleigh. Quem, por estes dias, ceder à tentação exótica de se informar sobre os Jogos Olímpicos de Inverno, descobrirá que só há duas modalidades: qualquer uma em que participem gays e qualquer uma que mostre o desastre da organização. Ontem soube que Putin anda a abater todos os câes vadios de Sochi, relevantíssima notícia só superada pela outra de que Putin beijou uma lésbica medalhada (suponho que na tal modalidade dos gays, não me perguntem qual – isso interessa?).
Demorei algum tempo a perceber a razão do duopólio olímpico este ano, talvez devido à minha ignorância em matéria de slalom e bobsleigh, mas cheguei lá. Ao que parece, o Parlamento russo aprovou recentemente uma lei contra a propaganda da homossexualidade, ou lá que é, e tanto bastou para que a imprensa ocidental decretasse o falhanço dos “Jogos Olímpicos do Czar”. Ainda antes de terem começado, note-se. De modo que o abate de cães vadios e os beijos a lésbicas medalhadas serão as principais notícias de Sochi 2014, excepto, claro, se houver um atentado tchetcheno. Nesse caso, os jornalistas informarão o mundo da loucura de entregar os jogos a um país onde se proíbe a propaganda da homossexualidade.
O mais exótico, porém, mais exótico do que o slalom e o bobsleigh, é que, se não houver nenhum atentado, os mesmos jornalistas hão-de declarar Sochi um triunfo de Putin. E esquecerão a terrível organização, as leis contra os gays e até o abate dos câezinhos. Vai uma aposta? Se perder, faço o slalom de bobsleigh, ou lá que é.

PP

Um ano depois

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Há um ano, para surpresa de todos, Bento XVI anunciava a sua decisão de abdicar. Na altura, escrevi um balanço pessoal do pontificado. Aqui fica. Se tiver tempo, deixarei em breve as minhas impressões sobre o Papa Francisco e estes últimos meses.

PP

Um país, dois sistemas

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Anda toda a gente a bater no Seguro e na sua proposta de criar tribunais para os investidores estrangeiros. Com razão: a coisa soa um pouco absurda. Paulo Rangel, no Público de hoje, compara-a cruelmente à célebre sentença chinesa “um país, dois sistemas”, o que não deixa de ser injusto para os chineses, que têm sentenças muito melhores (por exemplo “o que é bom para a General Motors é bom para o Império do Meio”, ou “a igualdade perante a lei é um tigre de papel”, ou “um tribunal para o capital é a uma revolução cultural”).
O caso seria apenas uma chinoiserie, e nada mais, se não revelasse o estado da oposição por estas bandas. Entre Seguro, a Aula Magna, os órfãos de Sócrates e a unidade da esquerda, Passos tem as mãos livres. E assusta pensar o que fariam os ex-jotinhas rosas no Governo. Brincar aos referendos?

PP

Mirones

Todos os portugueses são por estes dias mirone dos Mirós, e eu também. Não apenas porque o extraordinário facto de o Estado luso ter, ou ter tido, oitenta-e-cinco-Mirós na mão, entretanto aberta, me faz abrir a boca, entretanto fechada, como se visse um nevão no Terreiro do Paço ou um tsunami na Ajuda, mas porque a relação dos portugueses com os oitenta-e-cinco-Mirós pode resumir-se ao coloquial “ficar a ver navios”, lendariamente nascido do azedume do Marechal Junot enquanto chegava a Lisboa e contemplava ao largo o Senhor D. João VI, mais a baixela, de partida para bué longe.
Bem sei, a frase está comprida, mas vou resumi-la para quem confunde o Miró com um central do Barcelona: nunca mais veremos os oitenta-e-cinco por cá. Já o tinha dito e estou cada vez mais certo. O Senhor D. João VI, pelo menos, voltou com parte da baixela. Quanto à Christie`s, espera só que se resolvam os problemazinhos legais criados pelo Ministério Público para fazer o leilão. Claro que o Primeiro-Ministro garante que não há problemazinho nenhum, mas eu, conhecendo o rigor do Governo na matéria, acredito mais nos gajos que querem mesmo fazer dinheiro com os quadros.
Aliás, também sou mirone do que de mais semelhante tenho visto a um tsunami na Ajuda – a fúria com que sucessivos Secretários de Estado da Cultura arrassam a lei e a prudência para pôr fora do país qualquer quadro que valha uns centavos. O caso Crivelli repete-se.
Dir-me-ão que não temos dinheiro para luxos. E eu, sempre mirone, que via na defesa do património uma função de soberania, vejo-me obrigado a concordar. Sim, temos luxos a mais. Sim, temos dinheiro a menos. Que tal vendermos o Palácio da Ajuda (sem Secretários de Estado, para não desvalorizar)? Ou o de São Bento (sem o Primeiro-Ministro, para não desvalorizar)? Têm uma rica história, estão ao abandono e, se a Dra. Gabriela ficar caladinha, talvez ninguém dê pela falta.

PP

Rugby, 2013

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Entretido com os gays, esqueci-me do rugby. Imperdoável. Mas é boa altura para rever 2013, que amanhã é outro dia e começa o Seis Nações. Foi um bom ano para o rugby. Grandes jogos, grandes ensaios, uma grande equipa que ganhou tudo (os All Blacks, pois claro) e uma viagem triunfal dos British Lions à Austrália, com vitória na série dos três tests (2-1). Até as novas regras da mêlée, o maior problema dos últimos anos, parecem estar a dar resultado. A única nuvem no horizonte, à parte as tentações comercialóides, é ainda a blindagem dos três-quartos, sobretudo os centros, em detrimento da imaginação ao poder. Mas o rugby continua a produzir artistas, como veremos. É esse o seu eterno encanto.
Assim sendo…

Melhor equipa: Nova Zelândia. Catorze jogos, catorze vitórias, um record na era profissional. Os All Blacks não perdem desde Dezembro de 2012. Não há muito mais a dizer. Ou até há. Mesmo sem Richie McCaw e Dan Carter, lesionados boa parte do ano, os homens dos antípodas mantiveram uma consistência espantosa. É o que os distingue dos outros. Há jogadores extraordinários em todas as equipas, mas os All Blacks são uma equipa extraordinária, ou seja, são mais do que a soma das partes. Só uma equipa extraordinária conseguiria perder Carter e McCaw e ganhar tudo na mesma. Há mesmo uma cultura all black, uma cultura em que um miúdo como Beauden Barrett é lançado às feras, aos 20 anos, e minutos depois está a fazer gato-sapato dos Springboks. O que nos leva a outra coisa: a força mental, a capacidade de nunca desistir, a vontade de virar resultados até ao apito final, aquela feroz convicção íntima de que a vitória será sua. Em Dublin, no Outono, estavam a perder por cinco pontos no último minuto, não tinham a bola e bastaria que a jogada acabasse para serem derrotados. E se fossem derrotados, como aconteceria a qualquer outro grémio de mortais, lá se ia o invicto 2013. Pois não é que os sacanas arrancam um turnover, partem para uma sequência ininterrupta de fase sobre fase sem uma única falha, marcam o ensaio muito depois dos 80 – e convertem-no? Os irlandeses nem queriam acreditar… Nem eles nem ninguém.

Melhor jogador: toda a gente votou em Kieran Read, decisivo no ano-maravilha dos All Blacks e um 8 clássico que faz tudo bem, do trabalho pesado na defesa ao apoio no jogo aberto. Corre que se farta, dobra a linha, está sempre onde deve, lê magnificamente o jogo e marca ensaios. Muitos. Acima de tudo, e à imagem da equipa, joga sempre a um nível altíssimo, mesmo quando não é brilhante. Se fosse uma personagem da Sophia de Mello Breyner, chamar-se-ia Mónica. Só que, ao contrário da Mónica dos Contos, nunca renunciou à poesia, ao amor ou à santidade. Leigh Halfpenny também teve um ano memorável, tanto mais que uma alta percentagem dos pontos de Gales no Seis Nações e dos Lions nos antípodas se ficou a dever à sua bota. Mas eu, que prefiro os artistas, escolho Israel Folau, o ponta/arrière australiano que espalhou magia pelos campos dois hemisférios. Chegou este ano à selecção e já marcou alguns ensaios de antologia. Não é tão bom a defender (foi várias vezes atropelado pelo galês George North nos quatro duelos entre eles), mas consegue abrir brechas em qualquer muralha com uma simples troca de pés. Já não há muitos assim.

Melhor jogo: África do Sul-Nova Zelândia, a 5 de Outubro, sem margem para dúvidas. 38-27 para os kiwis, nove ensaios, um marcador zonzo de tanta reviravolta e duas equipas em estado de graça. Há quem diga que foi o jogo da década. E foi.

Melhor ensaio: foi um ano de bela colheita, com os vintages do francês Fofana contra a Inglaterra no Seis Nações, o de North no primeiro Lions-Austrália, o segundo de Folau no mesmo jogo e o tal golpe de misericórdia dos All Blacks em Dublin, cruzamento entre a Ilíada e um tratado de mecânica dos fluidos. O meu voto, porém, vai para o ensaio do aussie Chris Leali`ifano em Cardiff, a 30 de Novembro, fruto de uma jogada colectiva brilhante. Recuperação de bola muito inteligente pelos avançados, rápida circulação pelos três-quartos, entrada fulgurante de Quade Cooper, o filho pródigo em boa hora regressado, que desequilibra a defesa vermelha com um truque de magia, variação do sentido jogo no último passe. Velocidade sobre a bola, cabeça levantada, procura do apoio, criação de espaços. Simples. Perfeito. As regras básicas e um toque de génio. E Gales defendeu sem falhas… Mas quando do outro lado está Quade Cooper, não basta não cometer erros. Dan Lidyate, um asa com a justa fama de não defender propriamente mal, disse depois que enfrentar Cooper nesse dia foi como perseguir sombras. Outro terceira-linha que nunca renunciou à poesia.

E o Seis Nações de 2014? Começa amanhã a doer, com os bifes em Paris, mas no fim vence Gales. Trust me.

PP

Referendos, memória e uma profecia

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Sem entrar agora na questão da democracia directa, que o Filipe e o Luís elevaram a novo patamar teórico e fica para outras núpcias (gay ou hetero, sejamos tolerantes), acho graça aos afrontamentos dos arautos do progresso com a última prova do génio do deputado Hugo Soares, a saber, a declaração universal “todos os direitos das pessoas podem ser referendados”. A declaração é absurda e não vale a pena bater mais no ceguinho – ainda que a única desculpa do ceguinho seja a de não querer ver. Contudo, pese o facto de o ceguinho ter prescindido para efeitos argumentativos do uso da massa cinzenta, há um ponto em que ele tem razão e outro em que, não a tendo, está de acordo com o Luís,
e os arautos.
O ponto em que ele tem razão é este: já houve, entre nós, dois referendos sobre a liberalização do aborto em nome dos direitos das mulheres. Na altura, os defensores do “sim”, entre os quais o Luís e os arautos, referendaram sem qualquer incómodo o que eles próprios definiam como um direito. Quem se opôs, haja memória, foram os defensores do “não”, dizendo que “a vida não se referenda”. Em vez de “vida”, escrevam “direito à vida” e percebem melhor onde quero chegar. O que é que mudou? Supondo que não foi a doutrina sobre a irreferendabilidade dos direitos, mudou que o Luís e os arautos esperavam ganhar descansadamente o primeiro referendo, e perderam, e não descansaram até ganhar o segundo referendo, e ganharam. O que diz alguma coisa sobre a doutrina.
E leva-nos ao ponto em que o Luís e o deputado Hugo Soares, não tendo razão, estão ambos de acordo. E tal ponto, the horror, the horror, é este: ambos consideram a coadopção um direito. O deputado Hugo Soares, prescindidindo para efeitos argumentativos do uso da massa cinzenta, coadoptou os efeitos argumentivos de quem se opõe ao referendo e marcou um golo na própria baliza (perdoem-me o plebeísmo, mas talvez assim ele perceba melhor onde quero chegar). Há um direito em causa, sem dúvida: o direito da criança a ter uma família. Mas esse direito deve ser defendido, com bom senso e caso a caso, pelos tribunais e pelas instituições. Não é um direito de quem adopta e muito menos de uma “minoria”. Se for do superior interesse da criança viver com alguém que é homossexual, ou vegetariano, ou até, Deus nos livre, deputado, nem a lei nem o referendo têm muito a dizer sobre isso. Basta que os tribunais e as instituições decidam com bom senso e caso a caso, repito.
Ora, o lobby gay recusa o bom senso casuístico porque quer a normalização da homossexualidade pela lei geral e abstracta. Quer uma lei aprovada pelo Parlamento, mas não um referendo de dúbio resultado, porque faz parte da sua estratégia de pequenos passos obter “direitos”, quase sempre através de maiorias parlamentares favoráveis, e assim o reconhecimento social de uma opção minoritária. É um caso de biopolítica, para usar o conceito de Foucault. Daqui até à criminalização da “homofobia”, por outras palavras de tudo o que os gays classifiquem no futuro como contrário aos seus “direitos”, vai mais um pequeno passo. Que será dado, tarde ou cedo, se a coadopção avançar.

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Sábado, às 21h, no S. Jorge

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Depois não digam que não avisei.

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Com os pés para a Zukhova

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A senhora supra sentada chama-se Dasha Zukhova e é mulher do milionário russo Abramovich, proprietário do Chelsea e outras obras de arte (não, não era uma piada machista, juro).
Parece que a senhora também colecciona obras de arte, uma das quais é aquela sobre a qual surge, enfim, sentada. A fotografia correu mundo e a senhora foi acusada de racismo, por razões que até um Camilo Lourenço em arte moderna percebe.
Só não se percebe que alguém tenha o mau gosto de se sentar, já nem digo de gastar dinheiro, em semelhante trambolho. Mesmo sendo a mulher do proprietário do Chelsea e outras obras de arte (não, não era uma piada machista, juro).

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Notícias do bloqueio

A notícia de que o défice das contas públicas baixou para metade no último ano devia ser bem recebida por todos, sem estados de alma nem ranger de dentes. Mas não se deve esquecer que a carga fiscal continua obscena, que o Governo tem o dever moral e político de a descer, que a ciência portuguesa está incompreensivelmente a saque, que a política cultural se resume aos “cortes”, que há muito por fazer na educação, que somos regidos por gente que contribuiu activamente para o buraco onde estamos graças a boys como o Sr. Primeiro-Ministro da Tecnoforma, o nunca esquecido dr. em equivalências Relvas, o Sr. Branquinho do lobbying e outros que, apesar de toda a conversa do empreendedorismo, sabem pouco da vida real e muito de referendos para lixar a oposição e perfis de candidatos a eleições distantes. Em suma, que estamos a ser mal governados. Se os indicadores económicos e financeiros estão a melhorar, o Governo bem pode agradecer a quem os pagou com o aumento do IVA e do IRS e a diminuição de salários e pensões: nós.
Consta que Passos já vê a luz ao fundo do túnel, por outras palavras a vitória em 2015. Talvez. Entre ele e o PS de Seguro ou, pior ainda, as aulas magnas de Soares e as idas de Sócrates à escola, talvez os portugueses escolham o mal menor. De novo. (E eu nem acredito que acabo de escrever isto.)

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Da série “O som e a fúria”

“He [Hugh Trevor-Roper] knew Albert Speer well, since he interviewed him many times in prison. He always found Speer an enigma: how had such a cultivated and intelligent man come to serve the Nazis? After many long conversations, he eventually asked Speer whether, if he could have his life again, he would choose to be like his father, a respectable bourgeois architect in a provincial German town; or whether he would choose to be what he in fact became, the armaments minister of undoubtedly the most evil and destructive man in the history of Europe, if not the world. Speer, who never answered any question in a hurry, paused for a long time, looked away and frowned. Then suddenly he turned his eyes directly on his interrogator, and said simply: You have to understand the irresistible fascination of power.”

Alasdair Palmer, “The letters of Hugh Trevor-Roper”, in Standpoint, Jan. 2014, p. 76.

“Espanta-me que o Pedro, um conservador, não concorde com isto”

Luís, há uma grande diferença entre ser conservador e ser partidário do poder não eleito da aristocracia, das elites ou, valha-nos Deus, dos sábios. Não sou eu que o digo: é o senhor de Tocqueville, quando explica que a nobreza britânica não acabou na guilhotina, ao contrário da francesa, porque tinha de passar pelo voto do povo para chegar à Câmara dos Comuns.
E há uma grande diferença entre ser democrata e ser partidário do poder não eleito da vanguarda do proletariado. Não sou eu que o digo: é o camarada Lenine, quando explica que a revolução pode chegar à guilhotina de todos os aristocratas sem passar pelo voto do povo.
Espanta-me que tu, não sendo um conservador, estejas mais perto da aristocracia do que eu. Não me espanta que tu, sendo um democrata, estejas mais perto da vanguarda do proletariado do que eu. Lá dizia o Brecht, esse conservador: não seria mais simples mudar de povo – e abolir o referendo?

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Vamos brincar aos referendos. E a ser contra os referendos

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Diz o Luís, com algum exagero: ” Se o país confiasse no PSD para tratar dos costumes, ainda não existiria divórcio nem voto das mulheres em Portugal.” Sucede que o PSD está longe de ser monolítico nos costumes. É mesmo o partido cujas mudanças na matéria mais reflectem as mudanças do país, ainda que o grupo parlamentar tenha sido sempre mais progressista do que o seu eleitorado. Por uma vez, no entanto, concordo com o Luís. Quer dizer, em parte, um bocadinho, na medida do possível.
O referendo à coadopção gay é um dos tais imbróglios que só os políticos poderiam congeminar. Tresanda a último recurso do PSD para resolver um problema que o PSD criou: ter permitido, decerto por distracção, que o Parlamento aprovasse o projecto de lei do PS em Maio – nas barbas de uma maioria parlamentar contrária. Acresce que a pergunta aprovada é um imbróglio ainda maior porque mistura a coadopção e a adopção plena. Não sou ingénuo ao ponto de ignorar que, para o lobby gay, as duas coisas decorrem uma da outra (se não acreditam, deixem passar algum tempo). E não sou ingénuo ao ponto de ignorar que a mistura complica uma questão já de si complicada, tanto que levaria muita gente a votar “não”, ou até a não votar, por estar contra a adopção plena, mas não necessariamente contra a coadopção, embora o projecto de lei do PS fosse apenas sobre a coadopção. Confusos? Também eu. Quem andou com Passos ao colo, à esquerda e à direita, que o ature agora.
Posto isto, alguns dos argumentos que tenho lido contra o referendo à coadopção/adopção/whatever raiam o surrealismo. Há quem proclame que o amor não se referenda, ou que a lei fica à porta da intimidade de cada um, ou que o Estado deve abster-se de meter o nariz na vida das famílias – esquecendo (?) que estão em causa precisamente as consequências jurídicas da filiação e da paternidade, desde sempre objecto de direito, e em concreto a guarda da criança.
Outros rasgam as vestes com o tacticismo do PSD, esquecendo (?) que o primeiro referendo do aborto foi também uma jogada de Marcelo para entalar Guterres e o segundo uma jogada de Sócrates para entalar o Bloco. E que, em ambos os casos, a participação foi baixa. Ninguém, que eu saiba, pôs em causa a legitimidade de tais referendos. Porque será este ilegítimo, se aprovado pelo Presidente República e pelo Tribunal Constitucional? Têm assim tanto medo de o perder?
Debata-se o tema na sociedade e sem as histerias do costume. A adopção não está ao serviço da luta pelos “direitos” dos gays. Ninguém tem direito a uma criança e a homossexualidade não é fonte de direitos. A adopção está ao serviço do superior interesse da criança. Se o referendo vier lembrar isto, então que venha o referendo.

PP

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Prioridades

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Duas notícias recentes mostram o esclarecido desvelo com que o Estado português trata o património cultural à sua guarda, que é o mesmo que dizer o nosso património.
No convento de Santa Cruz do Buçaco, na noite de Natal, um incêndio provocado por um curto-circuito, por sua vez devido a uma infiltração, destruiu por completo uma Sagrada Família de Josefa de Óbidos, acima reproduzida. Como sempre, houve alertas (ou assim se alega) e o inquérito oficial está em curso. Não sei o que é mais irónico: se a data do acontecimento, se o comunicado da Câmara Municipal da Mealhada a garantir que era imprevisível. Nunca se viu um quadro ficar irremediavelmente perdido por falta de condições… Já sei, a crise, e a falta de orçamento, e a Fundação não-tem-dinheiro-para-mandar-cantar-um-cego-quanto-mais-para-fazer-obras, e tal. Entretanto, um dos melhores exemplares da pintura portuguesa do século XVII ardeu por causa de uma infiltração. Obra magnífica, em que Josefa de Óbidos exibe o seu domínio da técnica e inova na temática, cruzando uma Sagrada Família com uma Virgem do Leite. Não conheço outra semelhante em Portugal. Talvez haja, mas deve estar num buraco qualquer – à espera do imprevisível incêndio.
A outra notícia é a venda em leilão dos oitenta e cinco Mirós do BPN, que o Estado tem na sua posse graças à nacionalização do banco. O Secretário de Estado da Cultura informou candidamente que a colecção “não é uma prioridade” do actual executivo. Um esclarecimento talvez desnecessário, pois ninguém duvida das prioridades do actual executivo. Executar, como lhe compete. Uma colecção de Mirós rende uma porradona de massa, e sabem Deus e o senhor Secretário de Estado como os nossos governantes precisam de massa para tapar os buracos orçamentais que eles, ou outros que tais, criaram em nome do nosso futuro.
Se os Mirós sairem, nunca mais os veremos por cá. Como nunca mais veremos o Crivelli que a “opção ideológica” do anterior Secretário de Estado deixou sair. Mas há uma diferença. O Crivelli estava nas mãos de um privado, os Mirós estão nas mãos do Estado. O Governo não tem que pagar nada por eles: só tem que resistir à tentação de fazer dinheiro imediato e pensar que o futuro também merece algumas “prioridades”. Se a perda do Crivelli foi uma negligência, a perda de oitenta e cinco Mirós será uma estupidez.
Não estou optimista. Somos um país pobre, mas podemos contar sempre com prodígios de obtusidade para o tornar ainda mais pobre.

PP

2013: Outros prémios

Bloggers do ano: Filipe Nunes Vicente e Luís Miguel Jorge, ex aequo. São um bocadinho de esquerda para o meu gosto, mas têm um blogue muito bom. Há por lá outro tipo, que não está à altura, mas poupo-me ao trabalho de o ler.

Livro do ano: Servidões, de Herberto Hélder. Quando todos querem fazer do velho Herberto uma estátua em vida, ele vem dizer que está longe da obra completa. Poucos escrevem em português com esta intensidade, este fogo interior, esta arte de extrair de uma língua com mil anos versos surpreendentemente belos. Ele bem avisa que espera “um dia inteiro para morrer completamente/ quando a fruta com seus muitos vagares amadura”. Ele bem pergunta “será que um poema entre todos pode ser absoluto? escrevê-lo e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas”. Ele bem se queixa do ruído do mundo, fechando-se cada vez mais na sua concha: “nunca mais quero escrever numa língua voraz,/ porque já sei que não há entendimento,/ quero encontrar uma voz paupérrima/ (…) quero encontrar uma língua tão restrita que só eu saiba,/ e falar nela de tudo o que não faz sentido/ (…) como quem fabrica uma festa, um teorema, um absurdo,/ ah, um poema feito sobretudo de fogo forte e de silêncio”. Pois sim. Continuaremos à escuta da “perfeição de poucas linhas” do maior poeta português vivo.

Filme do ano: To the Wonder, de Terrence Malick. Sou um malickiano primário. Este último filme do génio não tem o fôlego cósmico de The Tree of Life, mas não deixa de ser um grande, grande, grande filme. A sua má recepção geral, mesmo por parte da crítica, irritou-me, confesso, e levou-me a escrever uma série de posts, que abandonei porque ficava sempre demasiado por dizer. O cinema de Malick é hoje o que mais se aproxima da obra de arte total, uma rede de referências históricas, literárias, musicais e artísticas que só em conjunto nos dão o verdadeiro sentido das imagens (belíssimas). Não contam uma história linear nem dão as personagens de bandeja. Por isso fogem ao nosso “horizonte de recepção”, desenhado pelos romances do século XIX e pelas séries televisivas do século XX. Mas as obras-primas alargam as fronteiras da experiência. To the Wonder faz jus ao título.

PP

Da série “O som e a fúria”

“It has sometimes been alleged that Cumming`s poetry failed to develop. Certainly, he carried on until the end writing about love, sex, God, beauty and eternity: for some bizarre reason, he never discovered any more interesting subjects.”

Daniel Hitchens, na Standpoint de Dezembro, sobre a recente edição dos Complete Poems de E. E. Cummings.

2013: Mais prémios

Ia-me esquecendo de dizer, mas um dos protagonistas de 2013 foi o PCP. Partido necrófago, prospera em tempo de crise. Conceda-se-lhe, no entanto, o mérito – talvez seja mesmo o seu único mérito – de ter resistido a todos os cantos de sereia do aggiornamento. Antes, os jornalistas chamavam “renovadores” às sereias, que acabavam invariavelmente por dar à costa no PS ou no Bloco de Esquerda. Agora, já não lhes chamam nada. Sintomaticamente, os “renovadores”, certos e regulares como as marés há uns anos, desapareceram da paisagem. Os comunistas eram uma espécie em extinção e o futuro pertencia às “terceiras vias”, em versão socialista ou bloquista. O Muro de Berlim caíra, o capitalismo vencera e a democracia liberal prometia mil anos de paz e felicidade ao universo. O consumismo triunfara sobre o comunismo. Os ingénuos mais recentes previam o “fim da história” e os mais antigos, como sempre, o “fim das ideologias”. Depois da luta de classes e da Guerra Fria, a esquerda pós-moderna redescobria nas “causas fracturantes” e nas “questões de género” os amanhãs que cantam.
A crise económica, porém, lembrou que ainda havia umas contas a ajustar com o capital. E que a notícia da morte do PCP era um pouco exagerada. Quando todos vimos que a história afinal não tinha acabado, eles mostraram ter ainda os recursos ideológicos e sobretudo institucionais, através dos sindicatos, para organizar a revolta. Hoje, os camaradas somam mais intenções de voto do que no PREC, a oposição socialista limita-se à paulada magna do Dr. Soares e o Bloco voltou a ser o que sempre foi: meia-dúzia de burgueses a brincar aos revolucionários, nos quais o povo real não confia para enfrentar os seus reais problemas.
Uma ironia da história, a tal cujo óbito também não passou de ligeira hipérbole, porque o PCP já deixou de acreditar na revolução. Não sei desde quando (25 de Novembro? 1989? sucessão de Cunhal?), mas os sinais acumulam-se. Por exemplo, o processo revisionista em curso, evidente no centenário de um Cunhal de rosto humano no ano passado, ou o branqueamento das intenções do partido em 75, a cargo de Raquel Varela e outros. Por amor ou por interesse, o PCP aceita hoje a democracia representativa.
De resto, só uma ínfima minoria dos 18 ou 19% que o PCP tem nas sondagens há-de sonhar com a ditadura do proletariado. O voto no PCP tornou-se um voto de protesto, ou seja, uma válvula de escape do próprio sistema. A boa saúde do PCP é um sinal de normalização democrática. É provável que estes 18 ou 19% desçam à medida que os indicadores económicos melhorem. Mas, até lá, são uma boa notícia para a democracia portuguesa. Os votos que vão para a Soeiro Pereira Gomes não vão para camaradas mais à extrema-esquerda, ou mais à extrema-direita, ainda mais necrófagos.

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2013 in review

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

The Louvre Museum has 8.5 million visitors per year. This blog was viewed about 620,000 times in 2013. If it were an exhibit at the Louvre Museum, it would take about 27 days for that many people to see it.

Click here to see the complete report.

2013: Prémios

Personalidade internacional: Putin. Foi o único a ganhar com a guerra na Síria. Apoia o futuro vencedor e ocupou o vazio deixado no Médio Oriente pela retirada dos americanos. Um quarto de século depois do fim da União Soviética, a geopolítica da Rússia é cada vez mais a da Rússia dos czares. Como se está a ver na Ucrânia.

Personalidade nacional: Rui Moreira. Mostrou que os independentes, além do sucesso nas berças, também ganham eleições na cidade. Os partidos já não podem fingir que não vêem. A vitória sobre Luís Filipe Menezes, um dos grandes chefes do caciquismo luso, devia obrigá-los a reflectir. Não vai acontecer, mas fica o aviso.

Prémio Rosa-choque: Pacheco Pereira. Cantando o hino, enquanto Soares e Vasco Lourenço prometiam “paulada” ao Governo.

Prémio Irrevogável: Paulo Portas. Quem mais seria capaz de provocar uma crise política nacional, fazer-nos perder rios de dinheiro nos “mercados”, deixar o Governo de pantanas, trair o parceiro de coligação, mentir aos companheiros de partido e dar o dito por não dito em menos de vinte e quatro horas – apenas por amor à pátria?

Prémio Idiota Inútil: Fernando Moreira de Sá. A arte de irritar toda a gente, revelando o que já toda gente sabia.

Prémio Reviver o Passado em Brideshead: Sócrates. Os velhos habitués suspiraram com o regresso, mas só eles leram o livro. Ah, e um taxista que o Zorrinho encontrou.

Prémio De Besta a Bestial: Papa Francisco. Primeiro era cúmplice de ditadores de direita, agora é compagnon de route da esquerda, sabe Deus o que será para o ano. Talvez Papa.

PP

Obviamente, demitem-no

As palavras de Crato sobre a má qualidade de alguns professores (alguns, sublinhe-se) incendiaram as escolas superiores de educação e os seus representantes, que já exigiram a demissão do Ministro. Mas ele limitou-se a dizer o óbvio: há professores que, por falta de mérito, ou de motivação, ou e qualquer outra coisa, não deviam dar aulas. Como uma vez aqui referi, estou particularemente à vontade para regar com gasolina estas declarações incendiárias porque dou aulas a futuros professores do 1º ciclo. E sei que muitos (muitos e não todos, sublinhe-se) acabam os três anos da licenciatura com falhas graves no domínio da língua materna. Adivinho o que se passará com a matemática.
Pode-se dicutir a causa, ou causas, da situação. Até porque as universidades e politécnicos não conseguem dar aos alunos, em três anos, o que o ensino obrigatório não lhes deu em doze.
Pode-se discutir se o actual modelo de formação de professores, que os mistura na licenciatura com futuros educadores de infância, é o mais eficaz.
Pode-se discutir se Bolonha não veio piorar o que já estava mal.
Pode-se discutir se a famosa prova dos professores é a melhor solução.
O que me parece indiscutível são as consequências de tudo isto no ensino. Se quem forma os profesores está mais preocupado com o respectivo quintal do que com o país, então o problema, por uma vez, não está na 5 de Outubro.

PP

Nadir Afonso (1920-2013)

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Nadir Afonso foi um artista profundamente original no contexto da pintura portuguesa do século XX. O seu abstraccionismo contrastava com a nossa tradição figurativa, mesmo quando representada por herdeiros de vanguardas internacionais como o cubismo (Amadeo, Almada), o expressionismo (Eloy, Botelho, Hogan, Skapinakis), o surrealismo (Cesariny, Cruzeiro Seixas, Vespeira, Paula Rego) ou o neo-realismo (Pomar). Nadir Afonso fugiu a esta tradição e sempre procurou a simplicidade da linha, do volume, da cor, num percurso que apenas se pode comparar ao de Maria Helena Vieira da Silva, Fernando Lanhas e Joaquim Rodrigo. O que talvez se explique pela sua formação de arquitecto e pelo trabalho, lá fora, com Le Corbusier e Niemeyer, nomes maiores da arquitectura modernista. Sem grupo nem escola, embora com um público fiel, a sua morte deixa a cultura portuguesa mais pobre. Muito mais pobre.
PP

Libertem Mandela (do apartheid vermelho)

Morre Mandela e o mundo inteiro presta-lhe homenagem. O que é que faz a esquerda portuguesa? Aproveita para bater no Passos e no Cavaco. Faz sentido: os homens também se definem pelos seus inimigos. Mandela lutou contra um dos regimes mais iníquos do século XX, a esquerda luta contra dois políticos democraticamente eleitos. Diz muito sobre o seu amor à democracia.
Mesmo assim, a esquerda quer o monopólio da memória de Mandela. Ele, que defendeu a luta armada quando não havia outra alternativa, é o novo profeta da paulada magna. De nada servirá apontar a diferença entre o apartheid e um regime democrático. De nada servirá lembrar que Mandela renunciou à violência quando as circunstâncias mudaram. De nada servirá recordar que foi o fim do comunismo que levou à transição sul-africana. Os camaradas não perdem tempo com pormenores.
Mas até eu tenho pouco estômago para ver o Daniel Oliveira, militante de um partido totalitário em 87, acusar Cavaco de um voto ao lado de Reagan e Thatcher na ONU. Ou os órfãos de Sócrates, que andou com Kadhafi ao colo, acusarem Passos de leituras selectivas. E olhem que eu sou de direita: tenho um estômago muito tolerante a selectividades.

PP

Nelson Mandela (1918-2013)

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Nelson Mandela é a prova de que os homens fazem a história e não o contrário. Não sabemos o que seria a África do Sul sem Mandela, mas sabemos o que não seria: não seria o que é hoje. Muitos têm louvado o seu amor à justiça, uma forma de reclamar para quem elogia a virtude de quem se elogia. E porque não? O amor à justiça é a medida da grandeza humana. Mas Mandela tinha uma grandeza ainda maior: o amor aos inimigos. Um amor que nada tinha de retórico, sentimental ou ingénuo. Era pura inteligência política. Ele conhecia bem os abismos de perversidade a que podia descer o apartheid, mas sabia também que uma África do Sul moderna e democrática não podia apagar a história nem apagar os brancos.
Por isso, teve a grandeza de ver os seus compatriotas e ler os sinais dos tempos sem um olhar turvo pelo ódio. Renunciou à luta armada e ao socialismo ainda na prisão, mas foi a Queda do Muro de Berlim que mudou tudo. Depois de 89, o medo de uma África do Sul comunista deixou de fazer sentido. O regime do apartheid, até aí legitimado internacionalmente por esse medo, ficou ainda mais isolado. De um dia para o outro, Botha iniciou – e de Klerk prosseguiu – negociações secretas com Mandela. O fim do comunismo não libertou só a Europa de Leste do jugo soviético; do outro lado do mundo, também libertou Mandela da prisão perpétua e o ANC da prisão ideológica.
Na verdade, o homem que sai da cadeia em 1990 não é o mesmo que tinha sido preso um quarto de século antes. Compreendera o profundo complexo de cerco da “tribo branca” e o papel do rugby, desporto colectivo de combate, na cultura afrikaner. Para os descendentes dos boers, o rugby não é apenas um jogo: é o reflexo de uma visão do mundo em que defendem o seu território contra tudo e contra todos, dos zulus aos britânicos. Os All Blacks jogam com o orgulho dos predestinados, os australianos com o fôlego dos grandes espaços, os galeses com entrega romântica, os irlandeses com fighting spirit, os franceses com intuição e flair, os ingleses com fleuma e sentido prático, mas só os Springboks jogam como se estivessem a lutar pela vida (e talvez estejam). O resultado é um estilo duro, áspero, fechado, assente na conquista de terreno pelo bloco de avançados, palmo a palmo, e no jogo ao pé. Antipático, mas eficaz.
Como se viu na final do Mundial de 95, “o jogo que fez uma nação”, assim lhe chamaram. Todos conhecem a história pelo filme Invictus, de Clint Eastwood. E todos sabem que Mandela, sempre atento ao símbolos, apareceu no estádio, diante de 70 mil espectadores e de 43 milhões de sul-africanos, com a camisola 6 de François Pienaar, o capitão dos Boks. A mensagem não podia ser mais clara. A África do Sul venceu a ultrafavorita Nova Zelândia de Lomu (com a melhor prestação defensiva que já vi, evidentemente, mas isso fica para depois) e o país inteiro saiu à rua. Pela primeira vez, brancos e negros estavam do mesmo lado. Graças a Mandela, que nem gostava de rugby.
Que descanse em paz. E que a nação arco-íris também tenha paz.

PP

Afinal, há vida inteligente no PS

Vale a pena ler a crónica de Francisco Assis no Público de hoje. Quando o PS parece divido entre o amorfismo de Seguro, o revanchismo de Sócrates e o panfletarismo de Soares, eis finalmente uma voz de bom senso por aqueles lados. Subscrevo Assis de uma ponta à outra, da belíssima citação de Magris sobre Norberto Bobbio e os “valores frios da democracia – o exercício do voto, as formais garantias jurídicas, a observância das leis e das regras, os princípios lógicos (…) que permitem aos homens, a todos os indivíduos de carne e osso, cultivarem pessoal e livremente os seus valores e sentimentos quentes, as paixões e predilecções de todos os géneros“, à conclusão certeira: “Se bem sabemos como pode ser desumano o capitalismo sem regras, também temos a obrigação de não esquecer como se revelaram aviltantes da dignidade humana todas as formas de organização política que, em nome de uma suposta democracia material, começaram por anular os princípios mais básicos no plano formal. É por isso mesmo que há pequenos passos, aparentemente inócuos, que nunca devem ser dados.”
Vocês sabem do que é que ele está a falar.

PP

O que eu vi na caixa do Pingo Doce

Anteontem, ao fim da manhã, passei pela mercearia da minha aldeia, também chamada Centro Comercial dos Olivais. Podia dizer que ia deixar uns sapatos a arranjar, o que é verdade e neo-realista, mas também fui comprar vinho ao Pingo Doce. Tinha convidados ao almoço e trouxe um Burmester de 2011, em promoção. Tudo muito pequeno-burguês. Ainda por cima, aquilo estava cheio de escuteiros a recolher alimentos para o Banco Alimentar.
Enquanto esperava para pagar a garrafa de tinto e os pacotes de arroz, magro espectáculo da minha generosidade, pus-me a pensar no que diriam dos jovens que tinha ali à frente os indignados profissionais dos blogues e das aulas magnas. Mário Soares diria que o Papa Francisco, por quem tem a maior admiração e concorda sempre com ele, lhe confidenciou que os miúdos não são bem católicos porque estão a fazer o jogo do Passos, aliás já era assim antes do 25 de Abril, houve uma abertura com a democracia mas estão a voltar ao fascismo, e felizmente os socialistas impediram males maiores no PREC, mas o povo nem sempre é sereno e prepara-se para correr o Passos, o Cavaco e o D. Manuel Clemente à paulada, ninguém deseja que isso aconteça, claro, mas quem te avisa teu amigo é. Pacheco Pereira diria, talvez em latim, que há muito deu pela existência de um contínuo blogues-Governo-escuteiros para promover Passos nos supermercados e que só um sobressalto cívico, a cantar o hino, pode acabar com o protectorado ou com o Passos (não necessariamente por esta ordem). Raquel Varela diria, com toda a quietude de quem escreve no Cinco Dias, que o ópio dos adolescentes, oculto sob a alienação do voluntariado, apenas perpetua a pobreza, o trabalho infantil e a política de baixos salários do capitalismo selvagem.
O que eu vi foi muito diferente. Vi uma dúzia de rapazes e raparigas a dar horas do seu tempo livre para ajudar os outros. Não anunciavam o fim da pobreza, não prometiam um mundo novo, não chamavam as televisões para atacar o Governo em nome do monopólio da virtude. Faziam coisas concreta por pessoas concretas. Ali estava a famosa sociedade civil. Sem sofás, sem trincheiras e sem pedir licença. E vi que o futuro está muito mais nas suas mãos do que em todos os discursos dos indignados.

PP

Ladrão que rouba ladrão

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Li este sábado o Expresso, hábito há muito perdido, para ver se alguém desmentia a tal notícia de um possível registo dos pais fumadores no Serviço Nacional de Saúde. Em vão, o que significa que houve mesmo um génio no Governo que teve a brilhante ideia e achou por bem testá-la nos jornais.
Um sinal certo de decadência é o rigor em questões menores de comportamento e o desinteresse pelos princípios realmente importantes, notava Chesterton. “Se há alguma coisa pior do que o moderno enfraquecimento da grande moral é o fortalecimento das pequenas morais. Conheço pessimistas ibsenianos que acham censurável beber cerveja, mas não ácido prússico.” Referia-se, suponho, ao paradoxo de alguns progressistas do seu tempo que desconfiavam do álcool, mas aplaudiam o suicídio.
As coisas não mudaram muito. A verdade continua a ser relativa, mas fumar tornou-se um crime. Permitimos experiências com embriões humanos, mas não a tourada e a caça à raposa. Queremos prender o misógino acidental que conta uma anedota machista e contamos anedotas sobre o homem que, por amor, quer prender-se a uma mulher no casamento.
Sou suspeito: tenho filhos e fumo perto deles (mas só ao ar livre, confesso; a minha vida à margem da lei é recente). Até agora, tinha um cadastro limpo – não por ser um cidadão exemplar, mas por falta de imaginação. Se a coisa avançar, avisem-me. Há vários crimes que gostaria de cometer, da evasão fiscal ao desrespeito à autoridade, para que a família possa orgulhar-se de mim. Roubar bancos também é uma opção, mas ouvi dizer que já ninguém vai para a cadeia por isso.

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Eu vi o futuro, e é belo

Há um ano, o Papa era cúmplice da ditadura argentina. Agora, é a última esperança da esquerda para defender os pobrezinhos.
Faz-nos acreditar no género humano, esta coerência, esta seriedade, esta pureza de convicções.
Mal posso esperar pelo ano que vem.

PP

Pub: Debate sobre a prova dos professores

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(Clique para aumentar.)

PP

E também deu a táctica ao Cristiano Ronaldo

Segundo o Público, Mário Soares fez ontem a seguinte declaração: “O Papa disse que isto vai resultar em violência dois dias depois de eu dizer”.
Ou perdeu a noção do ridículo, ou está definitivamente senil. Em qualquer dos casos, concordo que isto não vai acabar bem.

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Em nome do Pai (mas sem qualquer estereótipo de género, porque o Pai não existe e, se existe, não é deus e, se é deus, é com minúscula)

Os apelos bem-intencionados, ou nem por isso (como o que o Luís linca no seu último post), a que Igreja se pronuncie sobre a violência doméstica deixam-me sempre perplexo.
Primeiro porque são muitas vezes contraditórios. No segundo referendo do aborto, o Luís e a Fernanda Câncio escreveram num blogue em que houve quem negasse à Igreja o direito de se pronunciar sobre questões políticas. Sei que essa não é a posição do Luís, mas sei pelo que lhe li mais tarde. Quanto à Fernanda Câncio, suponho que só lamente o silêncio dos bispos quando dizem o que não gosta. Ora, vamos aceitar, por momentos, que o aborto é apenas uma questão política (não é) e que a violência doméstica é também uma questão política (e é). Se a Igreja não se pode pronunciar sobre o aborto, porque é que deve pronunciar-se sobre a violência doméstica? Porque a Fernanda Câncio manda? Mas a Igreja agora é o PS do Sócrates, em que a senhora sugeria nomes para deputados? Além disso, a vox populi concorda que a Igreja tem uma influência cada vez menor sobre o comportamento dos portugueses, incluindo os católicos. Voltando ao referendo do aborto, Francisco Louçã chegou a saudar a vitória do sim como uma derrota da Igreja. De tanto o repetirmos, talvez os próprios bispos tenham hoje menos fé no seu poder. Se querem usar a influência que a Igreja não tem, pelo menos decidam-se.
Também me causa perplexidade que os apelantes bem-intencionados (Luís) ou nem por isso (pois) acreditem realmente que a Igreja deve dizer o que eles querem. A velha esquerda queria calar-nos, a nova esquerda quer obrigar-nos a falar. Mas só do que eles decidirem. Violência doméstica e pobrezinhos, sim; aborto e casamento gay, não. Sucede que é a Igreja a decidir a sua “agenda”, e essa agenda não é a de quem quer convertê-la em porta-voz do politicamente correcto. Sim, a violência doméstica é uma questão grave. Mas por que raio a Igreja ganha um súbito crédito na matéria e o perde no caso do aborto? Mistérios da falta de fé.
Ou talvez o mistério não seja assim tão grande. O respeito da Fernanda Câncio pela Igreja é público e notório. Sem lhe reconhecer qualquer autoridade nem lhe devotar a mínima simpatia, quer agora que os bispos tenham uma palavra a dizer quanto a um problema complexo. Acredito que ela esteja mesmo preocupada com as mulheres (ou os homens) que sofrem e procure todos os aliados, até os mais pestíferos. Mas eu, cínico como sempre, vejo aqui outra coisa. Vejo uma oportunidade de marcar mais uns pontinhos na guerra cultural contra a Igreja, eterno ódio de estimação dos arautos do progresso. E com toda a franqueza, Luís, nem os bispos têm o dever de caridade de submeter-se ao imperativo canciano.

PP

Metáforas

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A complacência com que têm sido recebidos os apelos à “paulada” de Vasco Lourenço, ou a legitimação da violência de rua por Helena Roseta, ou as ameaças de Mário Soares ao Governo, é apenas um sintoma do tal desvio para a esquerda da nossa cultura política. Não é um caso exclusivamente português, de resto. Desde a Revolução Francesa que a esquerda é portadora da utopia e do progresso, mesmo que a utopia e o progresso se traduzam em milhões de mortos. A direita, pelo contrário, tem de provar sempre o seu amor à Humanidade, como se queixava Aron em causa própria, mesmo para exigir impostos mais baixos ou o direito de educar os filhos.
Exagero? Então façamos um teste. Imaginem, por momentos, que a expressão “vamos correr com eles à paulada” era usada por Paulo Portas. Não faltariam comentadores indignadíssimos nas televisões, nos blogs, nos cafés, a clamar que a direita lusa descende em linha recta do Salazar, do Sidónio e do senhor D. Miguel, que estamos à beira do fascismo e que “por menos do que isto mataram o D. Carlos” (esta também é boa, mas fica para depois). Aliás, nem sequer é preciso dizer algo de remotamente semelhante. Quase sem abrir a boca, Cavaco teve de enfrentar o labéu de cúmplice do salazarismo na sua primeira campanha para as presidenciais. Assim como os grupos pró-vida, no segundo referendo do aborto, foram acusados de ligações ao PNR e aos maluquinhos da America que põem bombas em clínicas. Lembro-me bem. Mas se é Vasco Lourenço a prometer paulada ao Governo, ah, então é uma metáfora.
Sucede que as metáforas não matam, mas moem. Dizer que se vai correr alguém à paulada não é o mesmo que dizer “matam-se dois coelhos de uma cajadada”. Ou, como já ouvi em versão ainda mais metafórica e pós-moderna, “matam-se dois coelhos com uma queijada”. À parte a referência dúbia aos coelhos, percebemos de imediato que, aqui sim, temos uma metáfora. Nenhum de nós tem a mínima intenção de andar por aí a matar coelhos à cajadada – ou mesmo à queijada. As exaltações supra fiam mais fino. Porque é razoavelmente claro que Lourenço, Roseta e Soares têm o firme desejo de que que este Governo caia. Não se trata de uma novidade e daí não vem mal ao mundo. A novidade é que, para eles, a violência voltou a ser um meio legítimo para passar das metáforas aos actos, como se um Governo e um Presidente eleitos fossem iguais a uma ditadura. O que talvez seja poético, mas nada tem de democrático.

PP

Reflexões sobre a violência*

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O que me surpreende nos apelos mais ou menos discretos à violência no conciliábulo da Aula Magna não é o tom antidemocrático da coisa. Em Portugal, desde o 25 de Abril que a esquerda põe em causa a legitimidade de qualquer maioria que não seja sua. Foi assim no PREC, foi assim com a AD, foi assim com os governos de Cavaco e foi assim com Cavaco na presidência. Para a esquerda, a democracia parlamentar só é “o pior sistema exceptuando todos os outros” quando o voto a coloca no poder. Se, por qualquer razão perversa e misteriosa, a direita ganha as eleições, então o governo tem de ouvir “a voz da rua” e a legitimidade formal de uma maioria em Belém ou em S. Bento cede de imediato a uma difusa legitimidade moral que, convenientemente, apenas os profetas canhotos sabem ler no céu. Em Portugal, a esquerda considera-se dona do regime democrático – sem compreender que a democracia é um regime sem donos. A direita tem de provar continuamente o seu direito de cidade. Qual é a diferença entre isso e as democracias censitárias do século XIX, em que só os ricos tinham o privilégio de votar e governar? Uma: os ricos tinham melhores maneiras.
Nada disto me surpreende. O que me surpreende é que gente sempre tão modesta a lembrar-nos o seu papel na construção do regime (inegável) não se aperceba do seu contributo para destruir o regime com os apelos à “paulada”. Já se esqueceram que houve outro capitão de Abril que passou das palavras aos actos, fundando uma organização terrorista? Já se esqueceram do PREC? De que a retórica era a mesma, mas os alvos eram eles – Soares, o PS, Vasco lourenço, o Grupo dos Nove, em suma, todos os moderados vendidos ao grande capital e à contra-revolução? Já se esqueceram da Primeira República, com os discursos incendiários que acabavam, tarde ou cedo, em golpes militares e “noites sangrentas”? E que levaram o o país, fartinho dos republicanos, a suspirar de alívio quando chegou a ditadura que prometia a ordem?
Talvez se tenham esquecido. Oxalá não tenham que recordar-se da pior maneira. E se isto parece uma ameaça, corram-me à paulada.

*Com a devida vénia ao Sr. Sorel.

PP

Com um brilhozinho nos olhos

Ouço Mário Soares e Vasco Lourenço, com um brilhozinho nos olhos, saudarem a chegada da violência redentora. E fico na dúvida: a esquerda avisa de um perigo ou procura um atalho?

PP

O Homem que Era Quinta-Feira

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A propósito do Meeting de Lisboa: Sejam Realistas, Peçam o Impossível, a decorrer este fim-de-semana, os meus amigos do movimento católico Comunhão e Libertação pediram-me um artigo sobre O Homem que Era Quinta-Feira, o mais famoso romance de Chesterton. Aqui fica, esperando que dê a alguém a vontade de o ler (ou reler).

G.K. Chesterton publica O Homem que Era Quinta-Feira em 1908, curiosamente o mesmo ano de Ortodoxia, outro dos seus grandes livros. O inglês não era então um desconhecido. Escrevera já crónicas, contos, poesia, um romance (The Napoleon of Notting Hill) e sobretudo Heretics, volume de crítica a Kipling, H.G. Wells, Oscar Wilde, George Bernard Shaw e outros contemporâneos ilustres. A popular série policial do Padre Brown, que inicia em 1911, confirma-o como um mestre da ironia e do paradoxo. Nas décadas seguintes, viria a tornar-se um dos mais influentes autores do mundo anglófono e a sua obra marcaria Tolkien, C. S. Lewis e Jorge Luís Borges, entre muitos outros.
Mais de um século depois, O Homem que Era Quinta-Feira parece ter ganho nova actualidade com o 11 de Setembro e a “guerra ao terror”. Mas engana-se quem o leia apenas como uma história de espiões. A acção decorre em Londres e tem por protagonista Gabriel Syme, poeta e agente secreto da Scotland Yard que consegue infiltrar-se no Supremo Conselho Anarquista graças à imprudência de Lucian Gregory, o poeta da revolta. O Conselho dirige “uma conspiração intelectual que ameaça a própria existência da civilização”. Presidido pelo terrível Domingo, todos os seus membros têm o nome de um dia da semana. Syme é Quinta-Feira. A aventura que se segue é uma revelação. Ou a Revelação. Syme descobre que nenhum dos anarquistas é o que parece, que Domingo não é o que parece e que o mundo não é o que parece. Por fim, depois da mais delirante sucessão de acontecimentos, encontra resposta para a pergunta que o tinha levado a comprometer a vida na “batalha do Armagedão”: porquê? Porquê o mal? Porquê o mistério? Porquê a realidade, tão espantosa que “talvez nem os arcanjos compreendam o tucano”?
O Homem que Era Quinta-Feira é, pois, um thrilller metafísico. Os polícias são filósofos: não perseguem apenas criminosos, mas a verdade. A sua aventura é a busca de sentido. A defesa da lei e da ordem é a defesa do universo contra o absurdo. Quem é Domingo, que diz de si próprio “conhecereis a verdade sobre a última árvore e a mais alta nuvem antes de me conhecerdes, compreendereis o mar e eu serei ainda um enigma, sabereis o que são as estrelas e não sabereis o que eu sou”? Deus? A natureza? A Humanidade? E se Gregory é “o verdadeiro anarquista”, pois todos os outros – incluindo Domingo – não o são, significa isso que não podemos distinguir o bem e o mal? E as referências constantes ao sonho, desde o bairro de Saffron Park, para o qual somos convidados a olhar “na sua “atractiva irrealidade”, até ao jardim da última página onde Syme “acorda de uma visão”, caminhando ao lado de Gregory e “na posse de uma impossível boa nova que fazia de tudo o resto uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade”? E o intrigante subtítulo: Um Pesadelo? Um pesadelo para quem? Para Syme? Para nós?
A solução do enigma seria dada, em parte, pelo próprio Chesterton na Illustrated London News, um dia antes de morrer. A 13 de Junho de 1936, horas antes da “boa nova” definitiva, Chesterton confessava ter querido “descrever o mundo de dúvida e desespero dos pessimistas, mas com um raio de esperança no sentido incerto da dúvida que até os pessimistas sentem de modo vagamente certo”. O pesadelo é o nihilismo do seu tempo, essa visão de um mundo sem sentido do herege moderno.
A este pesadelo, só a fé na realidade, a que chama “patriotismo cósmico” na Ortodoxia, pode responder. Contudo, não é uma fé que o homem se dê a si próprio. “Desde o princípio do mundo todos os homens me acossaram como um lobo – reis e sábios, poetas e legisladores, todas as igrejas e todos os filósofos. Mas nunca me apanharam e os céus hão-de cair quando eu voltar a casa”, proclama Domingo. “O mistério de Domingo e o mistério do mundo”, em que vemos as costas das coisas e pensamos que o rosto não passa de uma máscara, ou vemos o rosto por instantes e pensamos que as costas são apenas uma piada, segundo Syme, só à luz de uma fé revelada ganha sentido. Quando os membros do Conselho chegam ao baile de máscaras final e vestem os trajes designados, sentem “uma curiosa liberdade e naturalidade de movimentos”. Estas roupas fantásticas “não escondem, revelam”, e a narrativa da Criação do Génesis explica a verdade de cada dia da semana, ou seja, a verdade cada homem na história.
Mas a fé sobrenatural não poupa os crentes ao sofrimento. É um salto tão heróico no desconhecido como a luta de qualquer revolucionário contra injustiça. Após a festa, Gregory comparece diante dos “filhos de Deus” e amaldiçoa-os “porque estais a salvo e nunca descestes dos vossos tronos de pedra”. Syme diz que é uma “mentira” e uma “blasfémia”. Ele esteve só no “terrível Concílio dos dias”, desceu “até ao inferno” e experimentou “a glória e a solidão do anarquista”. A dor humana ganha razão de ser no combate, nunca definitivamente vencido, por um bem maior. Um combate na incerteza porque nasce de um mistério: a encarnação. Fazendo-se homem, Deus participa no seu mistério das criaturas O Homem que Era Quinta-Feira termina no mesmo jardim de Saffron Park em que começara. Syme vê ao longe o cabelo ruivo da irmã de Gregory, “um motivo musical recorrente em todas as suas loucas aventuras”. Mas, antes, Domingo ascende aos céus e o seu rosto cobre o firmamento. Então, Syme ouve “uma voz distante repetir um lugar-comum que já ouvira algures: Podeis beber do cálice que eu hei-de beber?” Na cruz, a experiência do mal e o desejo do bem unem-se na pessoa de Cristo. O Criador é a resposta ao mistério da criação.

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Ronaldo 4, IKEA 2

Somos mesmo o país dos salvadores da pátria.
(Mas convenhamos – se o homem jogar sempre assim, até eu ponho a bandeirinha à janela…)

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Depois de amanhã

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Regresso a uma velha paixão – os moçárabes de Lisboa. Programa completo aqui:
Folheto A4_WEB

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