Tag Archives: calor sólido

Calor sólido ( XII)

A custo, o reitor, o comunista ( quis ser ele a guiar), o jornalista, o actor e o anarca enfiaram-se no Range Rover e foram pelo país fora tentar perceber. Tinham posto um anúncio:

” Precisa-se de  revolução, levantamento popular e motim. A tempo inteiro ou parcial. Oferecem-se  regalias: tudo gratuito, camisetas do Che e um livro de Louçã sobre o modelo albanês”.

FNV

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Calor Sólido ( XI)

– Queria um acordo, faxavor, Dos pequenos.

– Só temos moles.

– Dos que incham?

– Sim. E sabem a treta.

– ‘Tá bem. Vou ali à minha lambreta buscar uma caixa.

– Não precisa. Entregamos no facebook.

– Mas assim os outros meninos ficam  a saber tudo…

– Também temos  para eles.

– Dos moles,  que incham?

– Não. Dos que apitam.

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Calor sólido ( X)

Centro de  Desemprego. 10.00h. Um técnico grande  e um utente magro.

– Então  diz o senhor que tem currículo…

– Tenho. Estive dois anos e meio desempregado, embora  com subsídio, depois consegui ficar três anos  totalmente   desempregado.

– Não  minta, não minta…

-Eeeehhh …

– Está aqui, pá, está aqui. Vocês esteve três meses na Churrascaria Abreu, pá, três meses…

– Mas…pois foi, uma falha, eu sei, mas só despejava o lixo e assim…

– Cale-se, pá, cale-se pá. Bem, não é vergonha por aí além, pronto, foram só três meses.

– Não volta  a acontecer..

– Espero bem que não.  Como é que vos podemos  ajudar se se põem para aí  a trabalhar? Como é que fazemos o ajustamento?

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Calor sólido ( IX)

O traficante abrigou-se debaixo do arco da governabilidade. Era um enorme pórtico com inscrições alusivas aos feitos da cidade. Um a um iam  chegando os clientes. Uma  jovem prostituta, vestida de freira, aproximou-se e soltou uma imprecação: Acreditem e percam-se.

O tempo piorou e, a certa altura, mais gente se juntou  sob o arco. Galinhas, jornalistas de economia, duas amibas e um ex-revolucionário cujo Mercedes avariara. O traficante pôs ordem na situação. Distribui tarefas, sossegou os perplexos e curou os cegos.

Quando as televisões  chegaram, o governo estava feito.

 

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Calor sólido ( VIII)

O mediador foi servido em cama de fava penca da Nigéria e salpicado com jus de jaquinzinhos macerados em vinagre de mirtilo. Um dos comensais declarou: Muito bom, mas já comi  melhores. E contou a célebre anedota do mediador que antes de ser já o  era.

Quando foi servido  o Caol Ila, bateram à porta. O secretário informou os presentes que, devido à crise das  toxinas,  todos teriam de passar no hospital para fazer análises. O conviva mais idoso suspirou: Nunca se chega ao bolo-rei depois de um mediador.

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Calor Sólido ( VII)

Algures na Mongólia Exterior, o argali  desafiador esfregava os enormes cornos doridos. O rival já se reunia ao grupo de fêmeas, impante e imaculado, depois da marrada certeira ferrada no pretendente.

O argali  vencido aproximou-se do grupo e pediu um segundo de atenção ao rival vitorioso. Deixa-me ficar aqui. Doravante serei uma delas. O rival , atónito, exigiu explicações. O vencido anuiu: Prefiro pagar pela reputação do que perder os cornos.

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Calor sólido ( VI)

Atravessava-se uma mulola, passava-se o leito seco do Limpopo e desembocava-se  numa mata sombria de chanato. Lá dentro, dezenas de dentes de elefante, alguns já amarelados, conversavam em surdina. O assunto: a salvação nacional.

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Calor sólido (VI)

O bebé tomou posse e foi logo posto na cadeirinha. Passearam-no pela avenida adjacente ao palácio, onde  povo se deslocava para lado nenhum. “Quem chão?“, perguntou o bebé. A presidenta  sorriu,  abanou a roca e respondeu: É o teu povinho, meu bebé, já dijia o  Kanti.

O bebé recostou-se na cadeirinha, ajeitou  a franjinha e suspirou. Apetecia-lhe uma cadeirinha mais alta, por cima do povo.

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Calor sólido (V)

O director, com uma arara azul pousada no ombro esquerdo,  não teve dúvidas: As drogas, quaisquer drogas, serão a partir de hoje obrigatórias nas prisões. Em nenhum outro lugar são elas mais necessárias”.

A medida foi bem recebida pela generalidade do pessoal,  embora a Albertina, da cafetaria dos funcionários,  tivesse escrito no facebook que” ele agora há amadores que se vão encher e os que já andam nisto  desde o dilúvio é  que ficam prejudicados“.

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Calor sólido ( IV)

A professora chegou a casa e descongelou os rissóis de rissol. Sentou-se no sofá vermelho e deu o pé esquerdo a lamber ao Manecas. Depois  deu o direito. Manecas entusiasmou-se e a sua língua subiu  pelo gémeo direito, contornou o pequeno joelho redondo e tenso e seguiu pelo costureiro. Nesssa altura,  a professora lembrou-se que não tinha em casa Friskies para acalmar o Manecas e reivindicou o seu espaço.

Manecas também percebeu. Apoiou-se nas patas de trás e lançou-se à garganta da professora, que, sem mobilidade, só conseguiu tapar os olhos.

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Calor sólido (III)

O reitor do seminário  lembrou-se de ler o  Guia Espiritual . O Quietismo de Molinos excitava-o , não só porque era proibido mas  porque  era obrigatório. À sua original  maneira praticava a doutrina.

Quando Miguelito, numa travessa e com uma  maçã na boca,  se veio queixar que o  padre Lousada o amava excessivamente, mais de noite do que de dia,  o reitor recomendou-lhe quietude: Deus ama os quietos e protege os inquietos.

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Calor sólido ( II)

O gestor acordou bem disposto. Eram sete da manhã e ainda não tinha feito nenhuma asneira. Assobiou e o pai  apareceu à porta do quarto com o jornal na boca. Filho, larga isto tudo , eu sei que queres…

O gestor  foi de roupão até ao jardim, mirou a piscina de vinte e cinco metros, a mulher inanimada numa chaise longue esquecida da festa da véspera  e o Porsche Panamera estacionado no terraço . Bem queria largar isto tudo, mas o dever… o dever é uma cruz.

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Calor sólido (I)

A jornalista subiu no elevador com  doutor Montinha, o vice-presidente da comissão política. Entre, entre, tenho aqui pastor alemão gelado,mas beba qualquer coisa primeiro.  Sarita  sorriu e aceitou um copo de champanhe mas trocou-o porque vinha um deputado agarrado à borda.

O doutor  Montinha foi até à enorme janela panorâmica. Vem aí a democracia, querida.  Sarita, já despida em cima da cama, gritou do quarto: Sim, oh sim, meu querido  derrotado, mas despacha-te porque sou uma profissional independente.

No dia seguinte, a jornalista subiu no elevador com  doutor Sequeira Reis, o presidente  da comissão política.

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