Tag Archives: Crepúsculo da imprensa

O crepúsculo da imprensa (4).

Alberto Gonçalves a propósito de “causas fracturantes”:

os argumentos que sustentaram (digamos) a recente proposta de co-adopção por casais homossexuais tenderam para o sentimentalismo pelintra. Grosso modo, resumem-se no axioma seguinte: quem não está connosco é hipócrita e preconceituoso.

Óscar Mascarenhas, “provedor do leitor” do Diário de Notícias:

José Diogo Quintela, artista cómico atualmente circunscrito a ator de publicidade

No primeiro caso o autor caricaturiza grosseiramente os argumentos a favor da co-adopção para depois os “rebater”. No segundo caso, o árbitro da ética profissional do DN finge ignorar que o estatuto de José Diogo Quintela fora das páginas do jornal em que escreve é irrelevante.

Luis M. Jorge

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O crespúsculo da imprensa (3).

Outro lamento repetido ad nauseam nos jornais: “Ah e tal, ninguém fala da Europa”. Pois não. E, assim sendo, não seria melhor começarem?

O quadro que apresento em seguida foi exibido nos encontros de Davos de 2009, pouco depois do início da crise financeira internacional. Oito workshops em que participaram 250 executivos, reguladores, políticos e académicos permitiu traçar quatro cenários para a evolução do sistema financeiro até 2025:

europa-wef

Os cenários partiram de duas variáveis determinantes (“key drivers”), muito incertas: o ritmo das transferências de poder económico, principalmente para a Ásia; e o grau de coordenação das políticas financeiras internacionais.

O primeiro cenário, “Re-engineered Western-centrism” (aqui mal traduzido por “Um novo eurocentrismo”, mas a minha vida não é isto), propunha a hipótese de transferências lentas de poder para o Oriente e uma coordenação harmoniosa dos responsáveis pelas políticas financeiras. Era o mais confortável para as empresas ocidentais.

O segundo cenário, “Um novo multilateralismo”, admitia transferências rápidas de poder acompanhadas de uma coordenação harmoniosa das políticas financeiras. Era exigente para as empresas,  mas controlável.

O terceiro, “Regionalismo financeiro”, conduziria à fragmentação em três blocos, com domínio crescente do bloco asiático.

O quarto cenário, “Proteccionismo fragmentado”, ensombraria os próximos anos do Ocidente: nacionalismo económico, baixo crescimento, o colapso da zona euro.

O Fórum Económico Mundial não fez previsões. Quase quatro anos depois, onde nos encontramos? E onde se encontra a nossa imprensa?

Notas:

1. O quadro aqui exibido e a explicação dos cenários foram retirados deste livro.

2. Para mais informações sobre a importância da elaboração de cenários estratégicos podem ler isto.

 

Luis M. Jorge

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O crepúsculo da imprensa (2).

À medida que se adensa a plebeização do comentário político, sobram os actores e desaparecem as instituições. Por exemplo, Cavaco. É incontestável que a sua personalidade colorida ofusca o circo do combate partidário, mas será verdadeiramente digna do cuidado de todos os nossos comentadores? Não haverá ninguém que se debruce, por exemplo, sobre o velho sonho de Sá Carneiro — uma maioria, um governo, um presidente — e daí retire um naco de prosa escorreita sobre as dificuldades que a Presidência enfrenta quando esse sonho é finalmente cumprido?

Luis M. Jorge

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O crepúsculo da imprensa.

Uma análise rudimentar confirma que a imprensa escrita paga enfrenta há anos um purgatório competitivo. Escrevo “purgatório” em vez de “inferno” porque a rivalidade entre as empresas do sector, por efeito da sua concentração, não parece muito elevada (para uma avaliação mais objectiva podem usar esta ferramenta, em vez do achómetro). A fidelidade dos leitores também evita uma guerra de preços em banca, mas as margens são afectadas pelo decréscimo das tiragens e pelos descontos aos anunciantes.

Do lado mau, para os jornais existentes, temos ainda a concentração das distribuidoras e o declínio de algumas barreiras à entrada de novos títulos (tecnologias de impressão, pressão salarial, compra de conteúdos a agências noticiosas e cadeias internacionais, etc.), mas é difícil entender a importância relativa destes elementos sem um bom conhecimento do terreno.

A verdadeira tragédia, como todos sabem, reside noutro factor: as ameaças da substituição.

A TV por cabo, a internet e os jornais gratuitos permitem aos leitores alimentar a crença de que se encontram informados sem gastarem um tostão. Essa crença é multiplicada pelas estratégias da imprensa generalista, que reduziu os custos sem aumentar os benefícios oferecidos aos leitores. Ou seja, actuou-se apenas numa parte da cadeia de valor, e aprofundou-se assim a fungibilidade da informação: sem reportagens, sem opinião especializada, sem enquadramento dos grandes temas, sem verdadeira diferenciação, os jornais concentram-se nos furos da pequena política ou nas notícias a que teríamos acesso mesmo que não existissem jornais.

Isto torna a imprensa vulnerável e enfraquece a opinião pública. O “quarto poder” é hoje, em Portugal mas não só, a sombra de outros poderes. O poder dos grandes anunciantes inibe as redacções de investigarem práticas que lesam os interesses dos consumidores, o poder dos partidos políticos (através das “agências de comunicação”) distribui manchetes a jornalistas bem comportados, e a escassez crescente de recursos dificulta o investimento em modelos de negócio alternativos que os leitores estejam dispostos a pagar.

Neste clima de descrédito absoluto já não nos supreende que dez jornalistas do Diário de Notícias tenham sido recrutados para cargos de nomeação do Governo, nem nos revolta saber que uma “grande repórter” do Diário Económico invectiva em prosa indigente “os ignóbeis socialistas e bloquistas” que querem “dar crianças aos homossexuais”.

Para esta gente vale tudo, pelo motivo simples de que nada tem ainda algum valor. Sob o manto das proclamações ideológicas ocultam-se as pequenas estratégias de uma ruína anunciada em que se salva quem puder.

Luis M. Jorge

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