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Nadar no ferro – blogue terapêutico ( VI)

Continuando com os casamentos ( ou as longas relações, para o caso é igual).

Digo muitas vezes que o casamento é anti-natural, ou seja, é um acto da cultura. Os mosquitos e os tubarões não casam, os neandartais  também não se metiam em tais veredas. Sendo assim, uma longa relação , com filhos, é uma  expressão cultural, construída, uma  rebelião contra os  instintos. Estes podem ser muitos: querer mais parceiros  sexuais e fundar novas famílias, não conter  a frustração, desesperar  diante de mudanças ambientais desfavoráveis etc.

Na linha do post anterior, i.é., não incluindo terramotos, as cidadelas do casal  têm de ser  negociadas. Uma  pergunta  que faço sempre, a cada um deles, é : O  que vale para si o seu casamento? Quando me dizem que vale muito, confronto-o /a com o muro de lamentações que desenvolveu. Pedra  a pedra, valem mais do que o casamento? Se valem, conversa acabada.

Quando a relação vale mais do que as zonas inegociáveis, estamos  num impasse. Uma vez  ajudei um casal que stava a separar-se fisicamente. Ele tinha ido trabalhar para o estrangeiro e a coisa corria-lhe  muito bem. Ela ficou cá, com dois filhos e um emprego mal pago. A  relação começou a azougar: desconfianças, da parte dela e  dificuldade em gerir os períodos em que ele vinha ( de três em três semanas), da parte dos dois. Ela sentia que tinha de estar bem disposta e sexualmente disponível “por marcação”, ele achava que estva a fazer um esforço,  “não reconhecido”,  pela melhoria ( espectacular) da qualidade de vida  da família.

Sugeri a mudança da família para o estrangeiro, para a cidade onde o marido trabalhava, porque me pareceu  a única possibilidade de nivelar o casal. Ela mostraria  o valor que dava  ao casamento, ele compreenderia que a relação só faria sentido se estivessem juntos, participando com mais do que transferências bancárias.

Aceitaram. Ainda lá estão, por enquanto, felizes e contentes.

FNV

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Nadar no ferro – blogue terapêutico ( V)

Na mediação conjugal pretendo isolar as áreas inegociáveis de cada um dos membros do casal ( ainda não me aparecem troikas). A partir da análise dessas áreas vejo o que se pode fazer e quase sempre há mato para desbastar. Não faço terapia conjugal porque não acredito em ter casalinhos à minha frente,  sessões  a fio, tentando melhorar a “comunicação”, a “compreensão” ,  as posições sexuais. e outras larachas. A mediação é curta ( uma ou duas sessões) e grossa.

Uma relação estável, com filhos, é um conflito político. O terreno comum já está definido há muito e funciona sempre, com mais ou menos dificuldade. As cidadelas  fortificadas é que são o nó que confrontou Alexandre   em Górdio. Excluo, claro, insurreições como viagens a lençóis exteriores ou terramotos ( morte de filhos, cancros etc).As fortificações  que trabalho na mediação são  territórios que o outro não quer, ou não pode, respeitar.

Ela é minha mãe e não a vou hostilizar por tua  causa. Este é um caso do dia. Ele não quer deitar fora  a mãe, ela não suporta a sogra. Como na primeira  guerra do Peloponeso, o problema está nas obrigações decorrentes das alianças. Ela entende que ele deve cortar com quem a desrespeita, ele sente-se amarrado a uma lealdade original. A mediação assenta as baterias nela, porque o laço dele com a mãe tem, pelo menos, um pressuposto natural, i.é., não-escolhido.

Costumo explicar á mulher que a sogra é um adversário imbatível: velha, frequentemente  viúva, não tem nada  a perder. A mulher tem tudo  a perder: a saúde, o casamento, uma família unida. Desenho uma fronteira que  a sogra não pode ultrapassar. Em casa deles, quem manda é  amulher e o marido deve aceitar o comamndo, porque o laço que o une à mãe não é válido nesse território. O marido exibe assim uns bons quilos de  solidariedade com a sua mulher, que é o que ela quer.  Ela, por seu lado , desobriga-se de exigir  a solidariedade, a que obriga o companheiro,  noutros países. Por exemplo, ele pode ir ver a mãe sempre que lhe apetecer sem ter de suportar remoques quando chega  a casa.

Costuma funcionar se as pessoas têm dois  dedos de testa.

FNV

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Nadar no ferro – blogue terapêutico ( IV)

Quanto mais lhe ralho mais ele faz birra. Esperneia, bate-me. Bato-lhe. Fico estoirada, ele fica  a chorar”. Esta descrição é comum a jovens mães com crianças de dois ou três anos. “ Fui à FNAC folhear livros . Dizem para sairmos do local, para inspirarmos  fundo, para mantermos  a calma. Não consigo. O que há com o meu bebé?”

Nada.

Os ralhetes, nestas mães, aparecem quando a criança desarruma, corre nas lojas ou atira coisas ao chão. Também são frequentes quando o miúdo não se quer vestir de manhã ou não quer beber o leite. A criança faz o que  tem a  fazer. Quem está a errar é a mãe. Uma relação destas é uma relação  de poder. A mãe destas crianças é muitas vezes uma mulher pouco confiante, temerosa, frágil.É por isso que deixou a situação evoluir ao ponto de o filho jogar todo o arsenal que tem, inclusive o não temer as palmadas no rabo. Coisa séria. As crianças sentem a fraqueza e por isso muitas mães relatam, assarampantadas, que na creche ele é um anjinho. Elementar.

O que fazer? Virar a mesa. Lentamente, a mãe deve modificar a resposta ao arsenal do filho. Por exemplo, diante de uma birra matinal em que não se quer vestir, deve sentar-se ao lado e ler uma revista. Esperar. Isto implica mentalizar-se para perder meia hora durante uma semana – as vitórias dão trabalho. Com o leite idem. Nove em  cada dez crianças acabam por ceder, porque  a birra deixa de ser contra  qualquer coisa.

O ponto é este: o adulto,mesmo no limite, tem armas ( atributos, na linguagem da relaçao de poder) que a criança desconhece. Ela não sabe que  a mãe pode  decidir perder meia hora todos os dias durante uma semana.Pode mesmo?

FNV

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Nadar no ferro – blogue terapêutico (III)

Os mortos vivem? Claro que sim.

Se tomarmos  a existência na sua forma sensível, o assunto fica encerrado. Pelo contrário, se sentimos   a existência de alguém como ligada à nossa, o seu desaparecimento físico não impede a reminiscência. A falta , só por si,  já é uma forma de vida: siginifica que uma parte das nossas emoções  ficou sem destino, não quer dizer  que essa parte deixou de se produzir.

Curar significa vigiar, cuidar. O tempo  cura a perda? Claro que não: cuida dela. Os mortos vivem porque cuidamos  deles enquanto pensamos  que nos  estamos  a curar. Tenho na consulta  uma  mãe que perdeu a filha num acidente  há três anos. Dizia-me ela no outro dia: a minha filha preocupava-se muito comigo, queria que eu cuidasse mais de mim.

FNV

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Nadar no ferro – blogue terapêutico (II)

Numa altura  difícil da minha vida ( tinha-me morrido um filho), treinei  mal o meu cão. Era um braco alemão e  não segui o meu  livro. Não tinha paciência para ele ou então precisava dele. Batia-lhe porque não conseguia controlar aspectos que,  antes e depois, sempre  controlei nos meus cães ( ruído, trela  correcta etc).  Não consegui nada.Zero. Népias.

Com as crianças é mesma coisa: a pancada e a agressividade não funcionam. Podemos conseguir que uma criança  nos  tema nos minutos  que a temos  à nossa frente, mas ela  nunca internalizará  as normas que queremos impor. É curioso que mães que batem nos filhos porque de outro modo não conseguem nada deles, ficam aparvalhadas quando lhes pergunto se conseguiram que a criança  passasse  a fazer o cocó no penico, e depois  na sanita, à pancada. Claro que não! Pois.

Um ambiente calmo, poucas regras mas obrigatórias, com sentido e essenciais, para que o castigo  ( cama mais cedo, confisco do computador etc) pelo seu incuprimento não custe a aplicar. Dizem-me que por vezes o dia correu mal e  a neura é ferrosa, o casamento corre enviesado, o dinheiro  sumiu etc.  Bem, nesses dias o que há a fazer é que sejam poucos  e raros. Isto não é uma religião.

E , fundamental, entender as crianças como o oposto da nossa satisfação, ou frustação,  narcísica. Como dizia o Pedroto ( do FCP) : descontracção e estupidez natural.

FNV

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Nadar no ferro – blogue terapêutico (I)

A mediação conjugal não tem nada  a ver com a americana  terapia conjugal. Recuso-me a a ter casais sentados  à minha frente, sessões a fio,  ouvindo conselhos sobre como  melhorar o sexo e a comunicação. A mediação conjugal faz-se numa única sessão ( duas no máximo) e tenta identificar  as fortalezas irredutíveis. É nelas que  reside a distância e, normalmente, a origem da ruptura. Com tempo, darei exemplos.

Para já, um e simples.  O casal discute violentamente  à frente dos filhos. Ai e não sei quê não podemos evitar/  o que é que quer que a gente faça?/ não podemos estar sempre a ir para outra sala discutir.

O que lhes digo: Ai não podem? Quando querem fazer sexo também é logo ali entre os cereais do pequeno almoço  e a manteiga? Ou seja, se os casais  sabem obter privacidade para se enroscar, também o sabem para se atacar.

FNV

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