Tag Archives: veneza

V.7

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Fora da Bienal é sempre compensadora a visita ao Palazzo Grassi, que hoje em dia alberga o espólio da Fundação Pinault. A exposição actual é dedicada a Rudolf Stingel, envolvendo o interior num casulo alcatifado. As imagens são do site, melhores do que as minhas.

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Luis M. Jorge

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V.6

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Sinichi Sawada. Sawada é autista profundo; exibiu centenas destas pequenas esculturas.

Cronologias desaparecidas. Os exilados: Judeus –> Ezra Pound –>Brodsky.

Para quem gosta de ironias históricas a cronologia é interessante. Os judeus vieram em massa de Espanha em Portugal no princípio do século XVI, e a seguir de outros locais ao sabor das perseguições da época. A “questão judaica” foi resolvida pela república com uma limpeza digna de um povo de comerciantes: acolheu-os, meteu-os no gueto e sangrou-os com impostos. O povo dos escolhidos preferiu pagar a incandescer nos autos-de-fé a que Candide e Pangloss assistiriam com tanto ânimo em Lisboa.

Muito mais tarde, o poeta americano encontraria refúgio num apartamento da praça de São Marcos após a ópera bufa da sua ligação ao nazismo. Brodsky chegou a visitar a viúva de Pound encerrada num palazzo em Dorsoduro (se a memória não me trai), numa época em que, não podendo regressar à Rússia, ele passou largas temporadas no Fondamenta Nuove.

Os exilados de Veneza incluíram homossexuais, poetas, activistas políticos e gente que teve a infelicidade de receber o baptismo com rituais exóticos. Alguns cultivavam a excentricidade — como Frederick Rolfe, reconhecido entre os apreciadores de Corto Maltese pelo apodo de Barão Corvo. Parece que apreciava muito os gondolieri.

Luis M. Jorge

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V.5

Angola triunfou entre as representações nacionais da Bienal, com um Leão de Ouro para a melhor exposição. Sim, Falâncio: Angola, pá. Edson Chagas exibiu os seus posters de objectos abandonados em Luanda em grandes pilhas enquadradas pela colecção permanente do Palazzo Cini. Os visitantes podiam adquiri-los a dois euros. Comprei dez, porque não me pareceu mau preço para uma obra de arte premiada.

Luis M. Jorge

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V.4

Demasiado humano. Vejamos, por exemplo, o capitel da sétima coluna do lado esquerdo a contar da água:

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Um rapaz e uma rapariga namoram à janela.

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Casam-se.

casam

Têm um filho.

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A criança morre.

morte

Luis M. Jorge

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V.3

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Jean-Frédéric Schnyder.

Porquê visitar a cidade em Novembro? Brodsky responde:

I would never come here in summer, not even at gunpoint. I take heat very poorly; the unmitigated emissions of hidrocarbons and armpits still worse. The shorts-clad herds, especially those neighing in German, also get on my nerves, because of the inferiority of their – anyone’s – anatomy against that of the columns, pilasters, and statues; because of what their mobility – and all that fuels it – projects versus marble stasis. I guess I am one of those who prefer choice to flux, and stone is always a choice.

Uma razão mais primitiva forçou as populações do Torcello a estabelecerem-se em Rialto — malária.

A Bienal inaugura habitualmente a 1 de Junho, e termina a 24 deste mês. No século XXI, como há mil anos, o Verão não é bom para os visitantes.

Luis M. Jorge

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V.2.

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Marisa Merz. As fotografias são de telemóvel, capturadas às escuras, sem grande tratamento. 

Cronologias desaparecidas. A Grand Tour: Thomas Coryat –> Byron –> John Ruskin –> Henry James –> Proust –> Jan Morris –> J. G. Links. Faltam inúmeros, claro.

A aventura veneziana de Coryat no início do Século XVII daria lugar à experiência canónica de Byron (corridas de cavalo no Lido, palazzo no Canal, narrações poéticas e amantes temperamentais). Depois, a cidade seria transformada numa extensão dos circulos sociais dos seus protagonistas ilustres. Os narradores de Proust e Henry James encontram-se em Veneza com herdeiras americanas ou gente do Seizième. Ruskin fez a transição da aventura para o turismo: deu-lhe verniz cultural e respeitabilidade.

Na verdade, a Grand Tour não desapareceu. Foi apropriada pelas classes médias e transferida para o Sudeste Asiático. Hoje em dia chamam-lhe “the gap year”. Os jovens que bebem até ao desvanecimento nas praias da Tailândia são os verdadeiros herdeiros de Byron.

Luis M. Jorge

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V.1

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Maria Lassnig.

Em década e meia assisti a três bienais de Veneza. Observei o crepúsculo (ainda em curso) dos rapazes da Saatchi, a consagração da China e esta espécie de enciclopedismo que tenta corrigir os excessos de uma actividade dirigida a yuppies e oligarcas russos.

A minha relação com a cidade também mudou desde que a visitei pela primeira vez. Nos próximos dias colocarei aqui alguns apontamentos sobre essa experiência.

Como todos os lugares-comuns Veneza resiste ao espírito crítico — principalmente o de quem se aproxima montado em reflexões genéricas sobre o sublime. Resta-nos uma estratégia de close reading, que tentarei ensaiar sem grandes promessas.

Tal como Ruskin valorizou as imperfeições do gótico, a sua natureza demasiado humana, o turista contemporâneo deve aproximar-se da região abraçando a vulgaridade. Veneza nunca será Las Vegas, e suporta bem o exercício.

Luis M. Jorge

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