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Ventos ( 5)

” Pareço um antisemita, eu? pergunta Karl Lueger

(Glühlichter. Humoristisch-satirisches Arbeiterblatt, December 20th, 1892. Österreichische Nationalbibliothek, Wien)

Assim se vai fazendo:

Several speakers said the demonization of Jews is both homegrown and imported. Hostility toward Jews comes from both far-left and far-right political parties, as well as radicalized immigrants from the Middle East who grow up on Arab and Muslim media infused with negative Jewish stereotypes.

O problema é que a caricatura do cristão-socialista  Lueger é de 1892, altura em que, como saberão, Israel não existia. Uma maçada.

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Ventos ( 4)

Quando se dicutem modelos antigos para problemas novos, convém então fazer o exercício completo. Nos anos 50, a URSS era a grande mentira,  mas uma  mentira  piedosa. Toda a gente sabia o que se lá passava, apesar de , por exemplo, em Portugal, pessoas com Zita  Seabra só terem descoberto a verdade… nos anos 90. É evidente que a grande e  duradoura alternativa ao imperalismo-capitalismo era um sistema policial de terror, mas o caso é bom para não esquecermos outros aspectos. O método  da desqualificação pessoal,  sim ( bêbado, drogado, vendido à CIA etc), mas outros ossos.

Ao contrário do que se passou em regimes fascistas, nos regimes comunistas não houve, nem há, julgamentos. Não há Garzons que queiram levar Fidel a tribunal,  não há notícias de julgamentos políticos dos grandes carrascos da ex-RDA, da Polónia nem, claro , da ex-URSS. A superioridade moral da esquerda revolucionária faz-se destas coisas: foi só  um enganozito, o espectáculo retoma dentro de momentos.

A literatura sobre o affaire Kravchenko era razoável ( quando vivi em França recolhi alguma qu e entretanto perdi). Aqui têm um bom resumo, quando o ler darei novas:

Au regard de l’Histoire, les moyens de défense des communistes français, totalement inféodés au système soviétique et acritiques mais qui se drapent dans leur qualité d’anciens résistants et sont soutenus par de multiples intellectuels connus, sont de piètres et minables palinodies, et, Victor Kravtchenko, très isolé malgré son succès public, parvient néanmoins à faire comprendre la tragique réalité des procès de Moscou et du goulag”.

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Ventos ( 3)

Em 1920, Joseph Roth  testemunhava  (  Neue  Berliner Zeitung, 23 de Setembro 1920)   o processo instruído  ao cidadão P.B. Tratava-se de um  sem -abrigo ao qual tinha sido aplicado o artigo 361 da subsecção 8 do Código da  Lei Criminal do Imperio Germânico. Se em seis dia não encontrasse  residência seria  condenado  a seis semanas de cadeia. Jovens sem-abrigo e outros solidários promoveram uma reunião em Weinesse, na Frobelstrasse ( andei por essas zonas há uns anos, mas não consigo localizar  com exactidão).Roth conta que meses depois da revolta, passavam mais de mil desgraçadso por noite na casa -abrigo. Na tradução inglesa  fica melhor:
“The provisional or the contingent has become  their normal way of life, and they are  at home – in their homeless”.

As pessoas desinteressam-se, uma sensação  de que os acontecimentos não dependem  do indíviduo, que pode ser  substituído por qualquer outro: Arendt apanhava bem , em 1951, o  capinzal que agora se adivinha.Esta sensação também combina com nevoeiro europeu que vai pousando  com suavidade. Olhamos para a esquerda e para a direita , para cima e para baixo e não vemos  uma lógica, uma  direcção. Por enquanto levemente psicótica, a ausência de  intenção,  de uma finalidade, qualquer  finalidade, começa a espalhar outra sensação:  nada conta, nada pesa realmente.

Gide escrevia a Valery ( 28 de Abril de 1918) sobre os tempos difíceis: (…) mais ne somme-nous pas comme les roses; nous n’avons jamais vu mourir de jardiniers. Il y a toujours un jardinier. Uma boa imagem esta, a de um jardineiro que vai lentamente compondo o jardim. Cortando e regando, regando e cortando.
Ernst Thalmann ( num discurso proferido na sessão plenária do Comité Central do Partido Comunista da Alemanha, a 19 de Fevereiro de 1932) apoiava-se em Estaline para caracterizar o SPD e os nazis como gémeos. Thalmann acusava a pequena burguesia de esquerda de ser a principal base de apoio , e factor transformador, do fascismo hitleriano( sim, este termo exacto).
Trago esta leitura porque parece disparatada nos dias de hoje, mas reflecte um elemento tradicional na análise do percurso dos projectos inovadores. Em tempos de perturbação, os quadros ideológicos esbatem-se em favor de valores primários. A segurança, a direcção, o cortar a direito. Trabalho de jardineiro, pois então.
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Ventos (2)

É conhecida a analogia que Schmitt faz do parlamentarismo com as lareiras artificiais ( labaredas  vermelhas pintadas num irradiador para simular  o fogo real). A ideia é que a discussão parlamentar não passa de um aparato propagandístico no qual  os grupos socio-económicos  calculam os seus interesses mútuos. Ou seja, a democracia parlamentar é um agendamento potestativo dos interesses da classe dominante.

Os neo-trotskystas dizem o mesmo por outras palavras:

“Nenhuma classe dirigente habita num vácuo; ela se ergue em relações definidas com outras classes. Todo regime político, numa sociedade em que subsiste a propriedade privada dos meios de produção e a acumulação privada dos meios de subsistência dos homens, possui suas bases nessas relações de classe específicas, apoiando-se na posição prevalente de uma classe dirigente que visa a manutenção de seus privilégios no domínio tirânico das relações econômicas. Neste caso, deve-se constatar que um regime democrático, uma democracia, não fica suspensa no espaço: na moderna sociedade burguesa, ainda mais incisivamente numa época histórica produto recente da conversão do capitalismo em imperialismo, a democracia também está com os pés cravados no regime ditatorial de uma das duas classes fundamentais da sociedade industrial: ou ela é democracia burguesa ou democracia proletária. Não há uma democracia “pura”, sem classes”.

A diluição do poder dos partidos funcionará como um par de boas pantufas  sem dono numa casa invernosa: alguém as usará.

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Ventos (1)

Em 1926, os líderes do Partido Nacional Democrático organizaram o  Grande Acampamento e a Pogotowie Patriotów Polskisch ( qualquer coisa como “Prontidão patriota polaca”)  e Pilsudski trabalhou para acabar com o regime parlamentar. Em Maio, marcha sobre Varsóvia.  A tentativa de estabilização  monetária falhara e  a inflação cresceu , impante  e atemorizadora. Em Lvov, Lodz,  Lublin e Varsóvia, o desemprego atingiu um terço da população activa. Porque  Pilsudski,  como muitos proto-fascistas, tinha um passado  socialista,  Berend recorda que  os operarios apoiaram  a greve geral por ele convocada ( 19 de Maio).  Warski, o líder comunista,  viu o golpe  de Pilsudski como uma oportunidade  para a instalação da ditadura  revolucionária democrática.

Rapidamente, no entanto, Pilsudski estabeleceu a sua orientação proto-fascista.  O objectivo era  superar a corrupção  e caos criados pelo multipartidarismo. Criou o Bezpartyjny Blok ( Bloco não-partidário) como apoio para  sua sanacja ( reabiitação económica do regime) incubida de estabelecer a centralização do poder do Estado. Uma memória de Pilsudski:

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