AI, SE FOSSE NO TEMPO DO SÓCRATES (2).

O Miguel Abrantes, como peixe na água desde que chegou à oposição, faz a fineza de divulgar um relatório do Citigroup intitulado Global Economic Outlook and Strategy – Prospects for Economies and Financial Markets in 2013 and Beyond.

Para resumir a coisa, eis um quadro em que se assinalam as previsões dedicadas a Portugal:

Nao sei se estão a perceber. O Governo prevê no Orçamento de Estado a retracção de 1% do PIB em 2013 depois de ter passado ano e tal a prometer a retoma ao virar da esquina. O Citigroup discorda educadamente, e propõe-nos uma queda de 4,6% — quase cinco vezes mais, quase um vigésimo da riqueza nacional.

Por menos do que isto já vi a nossa direita defender a criminalização do exercício de cargos políticos. Mas era no tempo do Sócrates. Hoje existe uma lamentável falta de consenso em torno dessa ideia cada vez mais ajuizada.

Luis M. Jorge

17 thoughts on “AI, SE FOSSE NO TEMPO DO SÓCRATES (2).

  1. Carlos diz:

    1) Em 2011, o Citigroup previa para este ano uma queda de 5-6% do PIB portugues;
    2) Durante este tempo, o Citigroup, bem como o Goldman Sachs, aumentaram a exposição negativa através de vendas a descoberto à dívida soberana portuguesa. (vulgo short-selling);
    3) “Joder”, com tanto e tão boa coisa para atacar o governo, o Corporações tem que ir buscar dados a um banco falido (sim, ainda continua, basta actualizar no balanço Citigroup o valor real as casas “subprime”)
    4) Gosto particularmente do enlevo colocado no estudo do crescimento da Roménia, a partir de 2015: 3.3%, 3.3% e para o ano da graça de 2017, teremos não 3.3%, mas sim 3.2%. (para dar a impressão que o economista estava mesmo a estudar a economia romena…eu faço o mesmo quando tenho de preencher certos questionários)
    5) Os EUA aumentam o seu PIB em quase vinte por cento em 5 anos…com 100% de dívida do PIB, uma população sobreendividada (sim, o subprime ainda continua por mais 10-15 aninhos a dar cabo do rendimento disponível)…enfim, devem ter aumentado a exposição positiva à dívida dos EUA, por compra de obrigaçóes, para depois ir aos «quantitive easings» da FED buscar liquidez. Onde é que já ouvi esta estória?: ah, os bancos portugueses fazem o mesmo com a dívida portuguesa e o BCE…eheh que bicharada

  2. Fernando Cardoso Virgílio Ferreira diz:

    Caro Luís, criminalize-se os cargos políticos e os cargos “banqueiros” também: ai aguentam, aguentam…

  3. henrique pereira dos santos diz:

    Luís, existem dezenas de prvisões do PIB para o próximo ano. Uma, a do Governo e da troica, é -1%, a mais baixa das previsões. Depois entre 1 e 2% há uma grande variedade de fontes (ainda agora apareceu a da OCDE, -1,8%), onde se incluem muitas das mais sólidas e credíveis instituições financeiras que se conhecem. Entre os dois e três por cento estão menos previsões, mas ainda há algumas, incluindo algumas de instituições que vale a pena ouvir (a maior parte destas, entre 2 e 2,5%). E depois existe a previsão catastrófica que cita. Pode dar-me uma única razão para esquecer todas as outras previsões e ligar a esta? Que a previsão do Governo (e da troica) está provavelmente deflacionada, estaremos de acordo (pelo menos a julgar pela quantidade e variedade das previsões que vão até aos 2%). Agora que esta previsão que cita lhe mereça algum crédito é que me faz alguma espécie.
    henrique pereira dos santos

    • caramelo diz:

      Henrique, quais são essas “sólidas e credíveis instituições financeiras”, para eu colocar nos meus favoritos?

    • Conheço isso tudo: as sólidas e credíves instituições financeiras estão a multiplicar por dois e por três as previsões do Governo. Só que o orçamento de estado é feito de acordo com as previsões do Governo e não dessas sólidas instituições.

      Você não está a perceber o problema pois não?

      • jcd diz:

        O problema, caro Luis M. Jorge, é que se contam pelos dedos as pessoas que, não perdoando no tempo de Sócrates, continuam a não perdoar no tempo de Passos Coelho. Mas também não há nada de novo nisso. Até poderíamos fazer o jogo ao contrário que nada mudava.
        Joana

      • henrique pereira dos santos diz:

        Pode dar-me os exemplos dos que estão a multiplicar por dois e por três? por dois há alguns (não muitos) por três devem ser muito poucos. Há muitos (desde a maioria dos departamentos dos bancos, passando pelo banco de portugal e a OCDE) que fazem previsões acima das do governo, mas raros são os que as multiplicam por dois e menos ainda por três. É bem possível que seja por isso que não estou a perceber o seu problema (o nosso sei bem qual é).

      • Você sabe ler, não sabe?

  4. NMP diz:

    Luis,
    Eu não gosto de intervir nesta discussão até porque estou envolvido nela profissionalmente e não devo fazer uso de informações selectivamente mas este post merece alguns comentários:
    – As previsões económicas são, por definição, uma actividade rodeada de incerteza.
    – O Citibank previa em 2011 uma queda de 5% do PIB português para este ano (2012). O Governo (e a troika) começaram por prever 2,5 % e vai ser 3% (o Governo e a troika há muito corrigiram as suas previsões).
    – O Citibank anunciou o nosso segundo resgate para o início de 2012. Enganou-se redondamente.
    – O Citibank tem muito trabalho de casa para fazer, nomeadamente apurar responsabilidades por previsões catastróficas que, entre outras coisas, os deve ter impedido de comprar dívida portuguesa que, saliente-se, entre Janeiro e Setembro deste ano foi o título de dívida soberana com maior valorização no Mundo (nalguns prazos mais de 40%). Ou seja, estas previsões desastradas fizeram de certeza o Citibank perder uma bela oportunidade de fazer muito dinheiro (outros investidores mais optimistas – ou quem sabe mais realistas, sobre PT aproveitaram e bem a oportunidade).
    – Há uma escola de argumentário que insiste que Portugal vai num caminho “grego”. E usa todos os dados que pode para sustentar esse argumento. Até previsões comprovadamente pouco credíveis como estas (a medir pelo track record recente).
    – Há seguramente bons argumentos para sustentar essa visão “helénica” – o desemprego que atingiu valores não previstos fruto de um ajustamento mais violento nos sectores não transaccionáveis, a consequente queda de receitas de impostos por redução de consumo e aumento das prestações sociais que tornam mais difícil o objectivo do défice e um juízo sobre o consenso ou ruptura social. Até se pode juntar o facto de poder estar a ocorrer o chamado “credit Crunch” que impede empresas e famílias de aceder a crédito essencial para a recuperação económica e as indecisões europeias e o ritmo lento nas trasnformações da arquitectura institucional do euro a nível europeu. Mas um dado que não permite o argumento de Portugal= Grécia é, até agora, o crescimento económico – em PT tem sido razoavelmente perto das previsões; até agora não há sinais de espiral recessiva (a Grécia desde 2009 já perdeu 25% do PIb e no último trimestre teve uma recessão de 7%.). Graças ao comportamento das exportações e dos sectores transacionáveis em geral, o comportamento da economia portuguesa tem demonstrado uma resiliência assinalável.
    – Claro que se ocorrer uma crise política e se comprovar, como muitos suspeitam, que o sistema politco português, por múltiplas razões, não aguenta este tipo de ajustamento económico e financeiro, estaremos mais perto do caso grego por contraposição por exemplo ao caso irlandês, islandês ou da Latvia. Mas isso ainda está para ocorrer. E todos nós podemos ter opiniões sobre isso. Pode até acontecer que, se acreditarmos em previsões tão pessismistas e deslocadas da realidade (pelo menos até agora) se crie aquilo que os anglo-saxónicos designam por “self-fullfilling prohecy”. Veremos.

    Um abraço a todos. Este blogue rapidamente se tornou a coisa mais preciosa da blogsfera portuguesa.

  5. Leitor diz:

    Não é que seja simpatizante, mas noto a determinação, ou como alguns disseram de Cunhal a coerência, do Câmara Corporativa.
    Nova lista de previsões revista e aumentada http://corporacoes.blogspot.pt/2012/11/ganhar-tempo-para-partir-espinha-ao.html (feita por um leitor do blog…).

  6. caramelo diz:

    Estas previsões económicas, ainda por cima a cinco anos, à décima, não fazem sentido. O máximo que se consegue é estabelecer tendências. Como dizia o outro, que era sábio, previsões só no fim do jogo. Nem sequer há instituições financeiras credíveis para tal tarefa ou outra. Sólidas, isso sim. O citibank, como outras do mesmo calibre, é tão sólido com a estátua da liberdade, basta ir enchendo as juntas. Esse recebeu biliões do governo federal, depois das aventuras, assim como os grandes bancos europeus, incluindo o deutschbank, tem acesso a um trilião a juros de 1% do BCE, depois de se empaturrarem com o junk food das dividas soberanas. Tudo igual, nunca ninguém acertou em nada. Não é só o citibank que tem muito trabalho para fazer. Entretanto a Europa tem estado a fazer o resgate dos bancos, não dos paises.
    Portugal não é a Grécia, como bem diz o NMP. Pois não, Nunca foi. Não foi num ano que se tornou diferente da Grécia, não é? Os problemas estruturais sempre foram diferentes, incluindo a natureza da dívida, com um peso muito maior da divida pública no caso da Grecia. As nossas PPP são uma brincadeira. Mas pode tornar-se a Grécia. Uma das razões pelas quais estas previsões são incertas é que existem variáveis que dificilmente se podem controlar, que isto não é uma máquina. E temos aqui um problema nisto da econometria, que é a fiabilidade dos números, a forma como são recolhidos. Por exemplo, a taxa de desemprego é maior do que aquela que vem do INE e do Instituto de Emprego. Desempregados que não se inscrevem nos centros de emprego, porque dão melhor empregue o seu tempo a procurarem eles mesmos o seu emprego. “recibos verdes” sem actividade, empregos que equivalem ao desemprego, quando o que se ganha não compensa sequer os transportes, etc. A taxa de falências também (tomo falência no sentido de fecho de portas, mais vasto do que o do processo de falência, propriamente dito). De forma que nem sequer se sabe bem o estado do país, e eu desconfio que está pior do que o que se pensa. Conclusão: obviamente, que se não houvesse pessoas, politica, etc, se fossemos um pais responsável, cordato, moderado, como deseja o PM, tudo isto corria melhor. Assim, desconfio que uma previsão de descida só de 1,8 ou 2% para 2013, seja um favorzinho, um sinal de optimismo para levantar a moral

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