Monthly Archives: Setembro 2012

A solidão.

Se exceptuarmos um punhado de ex-maoistas e três sobredotados que saíram de uma cova para frequentarem colóquios de empreendedorismo em Valongo já não há um português que defenda este Governo. Até os assessores regressam de monco caído às evocações maviosas de Oliveira Salazar e folheiam Torga e Herculano e meditam nas doçuras do exílio — o queijo de Serpa, as morcelas da Guarda, as pernas descobertas da Brígida guardadora de patos, sempre amiga dos estudantes… Ah, caralho, onde estão as neves de antanho?

Isto impressiona e faz rir em doses equivalentes, como um circo de pulgas, porque já sabemos onde acaba. Acaba numa nova fornada de senadores que em breve inchará os programas de comentário político entre os cadáveres do santanismo e do socratismo, tentando fazer esquecer o ridículo que desceu sobre gente tão sisuda. Acaba em dois ou três escritórios de advogados com negócios em Angola e o mesmo banco de sempre escondido atrás das cortinas. Mas rimo-nos durante a contagem porque os vemos nus, em pânico, aos saltos a resfolegar. Bonecos sobranceiros, robertos, ídolos de ópera bufa: nada nos dá tanto prazer como a sua solidão.

Luis M. Jorge

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“Estratégia”?

Ó meus amigos, qual estratégia?

Luis M. Jorge

Enchidos vazios

Não sabia que também tinha vindo do DN (  que alfobre), mas acerta no tom geral do contingente.

A táctica não é marxista nem tem nada  a ver com Marx ( nem com o assunto, mas isso já seria pedir de mais). O termo  foi cunhado por Matyas  Rakosy, na Hungria,  e serviu para ilustrar a destruição do adversário em fases sucessivas.  Em 1947,  estavam presos ou no exílio : Béla Kovacs,  Zoltan Tidly, Kovago ( presidente da câmara de Budapeste) e muitos  outros  inimigos do povo  ( leia-se, da URSS). O Partido da Independência  e o Partido  Democrático Popular foram aniquilados entre  1947 e 1949.

Com tanta bibliografia é difícil fazer esta figuras.

 

FNV

Suave Patria

“Yo que sólo canté de la exquisita
partitura del íntimo decoro,
alzo hoy la voz a la mitad del foro
a la manera del tenor que imita
la gutural modulación del bajo
para cortar a la epopeya un gajo.

Navegaré por las olas civiles
con remos que no pesan, porque van
como los brazos del correo chuan
que remaba la Mancha con fusiles.

Diré con una épica sordina:
la Patria es impecable y diamantina”.

Isto é um pedaço do proémio de Suave Patria, de Ramon Lopez Velarde ( 1888-1921) .

É um poeta especial, inclassificável, que fez a ponte entre os do Diario de Mexico e Revista Moderna  e os do  novo Ateneo ( impulsionado por Justo Sierra), por exemplo,  Rafael Lopez e González Martinez (que tem este final  de faena: ” Y me hundiré en el sueño inefable y profundo / para los hombres muerto y vivo para el mundo”).

Bons tempos para reler Velarde.

FNV

Não seria mais simples?

Quando António Borges chama “ignorantes” aos críticos do aumento da TSU, não se trata de um desabafo. Como diz o Filipe aqui em baixo, é mais uma estratégia. Também Moedas disse o mesmo e pela mesma razão:  falta de contacto com a realidade. Quem se opõe à iluminada política do Governo é “piegas”, não quer “sair da zona de conforto”, está “instalado”, faz de “cigarra”. Já ouvimos isso tudo. Lembra-me aquele poema do Brecht:

Por culpa sua

O povo perdeu a confiança do governo

E só à custa de esforços redobrados

Poderá recuperá-la. Mas não seria

Mais simples para o governo

Dissolver o povo

E eleger outro?

(Sim, já sei, o Brecht era comuna, mas o poema ataca as declarações do secretário-geral do Sindicato dos Escritores da RDA, um lacaio do poder, após a revolta de 17 de Junho de 1953 em Berlim-Leste.  Usem a parábola no sentido que quiserem: da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita.)

PP

Patos mansos

A coragem nunca é senão uma distância ( Barthes): separa o acto do medo original. A existência de António  Borges ( está muito magro, espero que não seja  nenhum problema de saúde) assume o papel da marreca na caça aos patos. A ilusão atravessa o ar do pântano e esconde-se nos canaviais. Borges diz o que o governo não pode dizer, mas  o que diz não vincula oficialmente os mandantes. Os ingénuos atiram-se às suas palavras  de ordem ( RTP, empresários) e os caçadores  fazem boa figura.

A coragem  política  dispensa, em regra,  marrecas.

FNV

Nova História

Como diz ( e parece que ensina) Claudio  Torres, o Islão nunca foi, nem vai, a lado de nenhum de armas na mão.

O silêncio dos filhos de Fanon, dos anti-imperialistas, dos teóricos pós-coloniais africanos, dos multiculturalistas europeus ?

Ó queridos, toda  a gente sabe que  a culpa disto no Mali  é de Israel e que  a  África foi descoberta por Abu Bakr ( depois vieram os imperialistas portugueses, como sabem).

FNV

O lastro.

Espanta-me que não seja uma evidência: António Borges deve demitir-se ou ser demitido. Um consultor do Estado não pode insultar os maiores empresários portugueses nem as associações que os representam. Além disso, os responsáveis pelo Governo já devem saber que não é prudente optarem por uma estratégia de isolamento com consequências previsíveis. Até uma maioria absoluta necessita da sua base de apoio. A falta de bom senso da pandilha começa a inquietar-me.

Luis M. Jorge

O egomaníaco inofensivo e a aprendiz de tchekista

Esta reunião de 9 de Setembro de 2009 foi muito interessante e  original. Nunca se soube  o que  a motivou ( assuntos de interesse comum) , ainda que  saibamos  que pouco depois  houve eleições e um pouquito depois  rebentou  um escândalo judicial envolvendo elementos do PS.

Também se sabe que mal Paula Teixeira da Cruz tomou posse, o bastonário  começou uma fronda contra ela. Desde então,  a ministra tem beneficiado  da charanga do bastonário, que se tornou, por isso , no melhor amigo da governante.

Um exemplo: agora  que a ministra fez uma declaração intolerável  – “acabou-se  a impunidade” -, uma vez que não é adivinha e lhe falta  a estaleca para tchekista profissional, ninguém liga ao centésimo pedido  de Marinho Pinto para que  a ministra se demita.

FNV

Salazar, etc.

Isto é tão, tão bom.

Luis M. Jorge

7.

Sempre que escreveres uma coisa, deixa algo para a imaginação do.

Luis M. Jorge

6.

Os homens erram quando desprezam a inteligência das mulheres bonitas, tal como as mulheres erram quando confiam na inteligência dos homens bonitos.

Luis M. Jorge

Ética da morte

Sou doente oncológico em remissão desde  2008.  Algumas pesadas  consequências ( tratadas a Petrarca), jogo futebol e  faço pesos ( à antiga,  sem as mariquices das máquinas) e tomo uma catrefada de remédios. Pago impostos  como os outros mas  sou penalizadíssimo nos seguros de vida e habitação.

Se ( quando…)  o pulha regressar e já não houver nada  a fazer, dispenso de boa vontade dois  meses de prolongamento de vida a preço de platina, porque  há mais gente doente e com melhores hipóteses de se safar. Se me contrariarem,  moro  num andar alto e tenho uma 6.35 legalizada em casa.

Ou seja, sem histeria nem política vulturina, dois princípios:

1 Toda a gente deve ter acesso ao que há, independentemente da conta bancária ou da idade. Isto não está ainda bem claro nestes  dias de chumbo.

2) Não é necessário que  Estado nos ensine a ética da morte.

FNV

Avec precision

 

Então, hoje, em Portugal, quem são os verdadeiros anarquistas? Quem lança o mais longe possível et avec precision?

Não sabes? Vai ao Google e vê quem te lançou para onde estás agora.

 

FNV

Do progresso ideológico em Espanha

Homenagem a Jdanov, Estaline e Voroshilov, no Portal de Alcalá, Madrid, 1936.

FNV

Médis.

Talvez a “mania da igualdade”, tão abundantemente denunciada por todos os liberais sem cheta da Damaia a Mira-Sintra, seja agora mais fácil de compreender. Ou talvez a Dra Isabel Jonet lhes leve umas sopinhas.

Luis M. Jorge

“Criar espírito de corpo”

Helena Roseta já tem mais uma história ( agora de ética republicana)  para contar daqui a uns anos num telejornal.

O caso do dia  ( a arte de massas , copyright  Barthes) resplandece na declaração do  responsável, Luís Natal Marques, pela contratação: “Quero lá saber do que o homem está acusado, não sou juiz”.

O homem não está acusado de ter afogado o gato, de um crime sexual   ou de condução perigosa: está indiciado pela prática de desvio de dinheiros públicos. E agora vai administrar dinheiros públicos.

FNV

Ó Tempo, volta para trás (IV)

Acabou o tempo da impunidade, diz a ministra. E eu acredito:

“O inquérito do MP foi aberto nos primeiros dias de 2005, após uma agência do BES ter alertado que tinham sido feitos 105 depósitos nas contas do CDS, em dinheiro vivo, em quantias que variavam entre os cinco mil e os 12.500 euros – num total de cerca de um milhão de euros. Os depósitos tinham sido feitos por um funcionário do partido e avançou-se para escutas telefónicas a Abel Pinheiro, vogal da direcção que tinha o pelouro das finanças, além de líder do grupo Grão-Pará. As escutas revelaram os contactos que desenvolvia junto dos ministros do CDS e as diligências de gestores de empresas do GES para que o Portucale fosse viabilizado antes do Governo seguinte”. ( ” Sol”)

Como dizia o padre Manuel ( do  Unamuno)  a Angelita: Crê no céu, no céu que vemos, filha.

FNV

Speculum Regis. Conselhos a um Jovem Príncipe Para o Governo do Reino, cap. VI

Nunca vás a bailes e serões depois de lançar tributos. Julgarão que és um tirano sem amor ao povo. E nunca, mas nunca, mas mesmo nunca, por Deus, te deixes fotografar a rir e a cantar sob uma luz azulada. Julgarão que és um tirano gélido e morto-vivo sem amor ao povo.

PP

O Stavka acrescenta ainda que

Como podem ver nesta lista, não há combatentes.  Ele é sociólogas,  profs.,  actores, psicólogos e outra gente educada. O meu favorito é o João Ferreira, técnico de reintrodução da Águia Pesqueira em Portugal.

Por outro lado, estes robots não  actualizaram  o manual .” Campos”? Coitados.

FNV

Paredes de vidro

Da extrema-esquerda.  Por fora, para inglês ver, muita discussão, muita transparência.

Por dentro,  quando debate aquece,  ou seja, quando discutem quem manda no povo,   fecham as caixas de comentários. E até fazem encomendas, como o artigo do Público que  Raquel Varela cita.

Iguaizinhos a qualquer Jota de alcatifa.

FNV

O Stavka acrescenta

À tese exarada pelo general  Picoito, o seguinte:

É muito mais simples. O Bloco Nero, os etarras, os radicais alemães e muitos outros  não são os choninhas portugueses. Fazem press de banco  com dez repetições acima dos 60 kg ( eu fico-me pelos  60kg), boxe, artes marciais, comem levedura de cerveja e soja ( 50% de proteínas ).

Os radicais-choninhas portugueses são de comunicação social e artes, só lutam no 5Dias, são fils a papa, pesam em média 55kg, abusam do trotil, do tabaco e do chamont. É por isso que têm de importar estrangeiros  para andar à porrada com a polícia.

A população em geral é igual às outras. Quando os 300.000 trolhas, ou a malta do Fim do Mundo,  que vão ficar sem o subsídio de desemprego se chatearem,  vais ver como é.

FNV

Da porrada.

Tal como o Pedro, não julgo que Portugal seja um país de brandos costumes. Para afirmar isto não me socorro de qualquer interpretação histórica (não sou historiador) mas da observação dos indicadores da violência doméstica. No ano passado, quando acompanhei mais o tema, verifiquei a certa altura que o número de assassinatos de mulheres em Portugal seguia de perto os de Espanha, com uma diferença importante: Espanha tem cinco vezes mais gente.

Sem poder dedicar agora muito tempo ao assunto (e tenho pena) eis aquilo em que acredito: não há menos violência em Portugal. Há sim uma violência difusa, privada, cobarde, que se exerce sobre os mais pobres e os mais fracos e poupa em geral os poderosos.

Ou seja, gosto mais de Espanha.

Luis M. Jorge

Subsídios para uma fenomenologia da porrada

Leio o que Luís e o Filipe escrevaram aqui em baixo e pergunto-me: seremos assim tão diferentes dos Espanhóis? E porquê? Sim, eles têm cargas policiais e a ETA, nós temos uma pequena que dá abraços ao robotcop e o Gualter que dá cabo de um campo de milho transgénico entre duas passas de haxe (o que é menos violento, sem dúvida, do que dar cabo de um campo de haxe entre duas passas de transgénicos). Mas as palavras de ordem são as mesmas. Eles queixam-se dos políticos, da troika e do desemprego, nós também. Eles descem a avenida aos milhares, nós também. Eles manifestam-se no Parlamento, nós também. Então porque é que lá acaba tudo à porrada e cá não?

Dir-me-ão que é por causa dos “brandos costumes”, mas não acredito. Primeiro, porque desconfio sempre de psicologias colectivas, sobretudo quando servem para explicar diferenças nacionais. Segundo, porque um olhar à história mostra que nem sempre fomos assim.  O final da monarquia e a I República foram momentos não só muito violentos, mas em que a violência era um meio político corrente. Basta lembrar as coisas que se escreviam nos jornais (Guerra Junqueiro sobre o rei D. Carlos, por exemplo), a ditadura de João Franco, o regicídio, o assassínio de Sidónio Pais, a brutal repressão do sindicalismo, a infame “Noite Sangrenta” que nada fica a dever à “Noite de Cristal” nazi ou à “Caravana da morte” chilena, a frequente liquidação de adversários sob os mais variados pretextos. Podemos até recuar à Revolução Liberal, à reacção miguelista, à guerra civil e aos correspontes ajustes de contas (que provocaram proporcionalmente mais exilados e presos políticos do que em qualquer outra época da história de Portugal, diz Rui Ramos, talvez para irritação do Dr. Loff quando ler essa parte),  à Patuleia, à Maria da Fonte, às guerrilhas durante anos activas por todo o país e aos golpes de Estado só caídos em desuso com a Regeneração. E às brutalidades da crise de 1383-85 (o linchamento do bispo de Lisboa, narrado por Fernão Lopes, entra para qualquer antologia do horror indígena), ao massacre dos cristãos-novos de 1507, às revoltas populares antes de 1640, ao motim dos lavradores do Douro contra Pombal, que pôs o Porto a ferro e fogo e o Marquês afogou em sangue,  à caça ao Francês aquando das invasões napoleónicas.

Brandos costumes? Não me parece. A explicação talvez seja outra. Ou outras, porque me ocorrem duas.

A primeira é ausência das polarizações políticas, étnicas, religiosas e nacionais que caracterizam tantas sociedades contemporâneas. Em Portugal, há uniformidade étnica e religiosa (a esmagadora maioria da população é branca e católica), não existem movimentos independentistas ou terrorismos contra o Estado central, a extrema-direita e a extrema-esquerda são pouco representativas, a própria violência da “rua” (a “tradição da barricada”, de que fala Furet, tão típica da França desde 1789)  concentra-se no século XX em pequenos núcleos operários facilmente controláveis pelo poder. Chegados ao ano da graça de 2012, ninguém tem razões identitárias para odiar o próximo. Excepto no futebol. Uma sensaboria doméstica que tira a vontade de bater na bófia,  a não ser como parte da animação cultural inerente à modalidade.

A segunda explicação é histórica. Ao contrário da ditadura franquista, que nasceu de uma Guerra Civil com centenas de milhares de mortos e em que se cometeram as maiores atrocidades, o Estado Novo impôs-se com um suspiro de alívio e pacificou a sociedade com o seu “viver habitualmente”. Não estou a “branquear” nada, mas a repressão tornou-se mais difusa do que nos regimes fascistas e comunistas comparáveis. Mais do que eliminado, o “reviralho” foi silenciado. A resposta à violência fascista com a violência revolucionária manteve-se (e mantém-se) na retórica do PCP e de outros grupúsculos da extrema-esquerda, seja nas FP25 ou na luta contra o “pacto de agressão” da troika , mas foi abandonada pelas restantes forças políticas. O que explica, por sua vez, que o 25 de Abril e a democracia tenham triunfado sem violência, ou com uma violência muito relativa. Esta renúncia a formas extremas de luta política marcou a nossa história recente. E ajuda a perceber os “brandos costumes” do bom povo lusitano. Quem quer pancada vai à bola, ora aí está. Valha-nos isso.

PP

Dá-me um ideal/ Syrizar por aí

Por um acaso em Espanha e por necessidade de distribuir lugares em Portugal, a polícia de choque na Ibéria depende de governos de direita ( Maomé me perdoe…).

Aguardemos  as manifestações em Paris.

FNV

Rumo aos 30% de desemprego.

Só em Espanha. Por cá temos Márisas a beijar polícias.

Luis M. Jorge

5.

É fácil prender uma mulher: basta mostrar-lhe que a ama. Também é fácil prender um homem.

Luis M. Jorge

Revoluções (II)

Qualquer assembleia só é democrática  e representativa da vontade  popular se  reconhecer o exercício  de direito  de revogação dos eleitos pelos  eleitores ( Lenine,  23 de Novembro,1917,  Izvestia). O que as centenas  de trudoviques que se confrontam com a polícia espanhola  dizem é  exactamente o mesmo (os mihares  que estão nas filas de trás , por enquanto,  hesitam). Traduzindo por miúdos, nenhuma  instutição burguesa é representativa: os “manifestantes” falam  de uma (il)egitimidade  assente  em apenas 11 milhões de eleitores. Negri, hoje, ( o tempo parece não passar)  diz o mesmo no Le Pouvoir Constituant: a democracia absoluta nasce da desinstitucionalização do poder constituinte, e assenta , portanto,   na destruição  sucessiva das figuras da modernidade burguesa.

A diferença entre os burgueses radicais das ruas e os velhos leninistas é esta: só a destruição da economia mercantil permite  a Revolução. O que seriam, no entanto,   os radicais burgueses sem os seus gadgets sociais, ganhos  precisamente à custa da cultura do  mercado? Querem ir cavar batatas,  trabalhar nos moldes, viver sem Blackberrys, não  hacer botellón e fazer a Revolução? Pois sim.

FNV

Carlos Vidal double shot

1) Aqui, mostrando como este pessoal  só se interessa pelo povo. E há lá mais zoeira, é só consultar ( tudo em nome do povo, claro).

2) Aqui e com toda  a razão. Não interessa se é a Maria Teresa  Horta ou  a Rita Madalena Porta, se tem razão ou se é birra.

O que é mais importante: a autora e a obra  premiada ou o PM de serviço? Enviar  o cheque pelo correio, como quem paga   pela escadaria lavada,  é de lapardões.

FNV

4.

Os sexos têm ouvido duro. Uma boa dose de charlatanismo fará maravilhas pelo seu casamento.

Luis M. Jorge

Lidos velhos & novos (I)

1) Premiado pelo Washington Post, um bom ensaio, com nervo e ritmo. Alguma imaginação no entrecruzar das vidas das três figuras, mas bom suporte de investigação. Tem mapas simples, faltam notas de pormenor, mas o tom geral é o de um livro acessível ao amador.

2) Uma  delícia. Deixei uns pedaços  para quando o frio começar. A descrição psicogeográfica do beirão e o artigo sobre o mel são de ir às lágrimas. Aquilino é como o algodão, não engana.

 

FNV

E é isto

If you were to write a book like The Satanic Verses now, it would probably be much harder to get it published. Probably be much harder to get booksellers to stock it,” he said.

Podem mascarar, torcer, meter judeus ao barulho ( como o Charlie Hebdo) , fingir que é um problema  sideral que também se passa em Marte. Podem fazer o que quiserem, as coisas são o que são.

 

FNV

Speculum Regis. Conselhos a um Jovem Príncipe sobre o Governo do Reino, cap. V

Foge a  prometer o que não podes cumprir. Os teus súbditos descuram a arte da memória, mas a ira toma-lhes o coração quando se descobrem traídos. Como todos – cristãos, pagãos e judeus.

PP

A cigarra, a formiga e o ministro tonto

Uma das coisas mais surpreendentes na trupe de Passos, que chegou ao poder alardeando uma capacidade de comunicação que Manuela Ferreira Leite supostamente não teria, é a abissal incapacidade de compreender a “rua”, ou lá como se diz.

Começou com as telenovelas do Relvas. O homem ficou no Governo quando já toda a gente tinha percebido que era um cadáver adiado. Toda a gente menos Passos, o próprio e a trupe. O pessoal contribuinte tolera muito, mas não que um chico-esperto tire num ano o canudo que custa três, quatro, cinco ou mais ao resto da malta. É como passar à frente de alguém na bicha do super-mercado. Quando o chico-esperto é o braço direito do Primeiro-Ministro, a sombra do chico-espertismo estende-se a todo o Governo. Como é que eu sei, se não percebo nada de “comunicação política”? Ando de Metro e vou ao café. Experiências “comunicacionais” riquíssimas, garanto-vos.

Depois, foi o aumento da TSU. Tendo dito várias vezes, a última em dois discursos de Verão que só serviram para isso, que não haveria mais austeridade e estávamos no bom caminho, Passos mudou de opinião de um dia para o outro. Sem falar com os parceiros sociais, à pressa, antes de um jogo de futebol da selecção para ver se a medida passava no meio do fervor patrioteiro, anunciou na televisão que ia obrigar os trabalhadores a pagar mais para o Estado e as empresas a pagar menos. Ou, pelo menos, deixou que toda a gente percebesse isso. Não contente com o desastre, foi na mesma noite a um espectáculo de música ligeira. Talvez a ideia fosse desdramatizar o saque anunciado horas antes, mas o efeito foi exactamente o contrário. O efeito de contraste era demasiado visível. A cereja em cima do bolo foi a mensagem do “Pedro” no Facebook, um exercício de heteronímia lacrimejante que nos faz perguntar se o “Pedro” tem alguma noção, vaga embora, das consequências das suas decisões e das implicações do seu cargo. Tenho as minhas dúvidas.

Agora diz Miguel Macedo, ministro irritado com as grandes e pequenas manifestações dos últimos dias, que “não podemos ser um país de muitas cigarras e poucas formigas”. As palavras de Miguel Macedo não são apenas um desabafo – são a “narrativa”, para usar uma palavra bué da comunicacional, do próprio Governo. Nós, Governo, estamos a fazer tudo para reformar o país e acabar com a crise, mas há sempre uns privilegiados (funcionários públicos, professores, tvs privadas, empresários “instalados”, cigarras em geral) que protestam para manter os privilégios. Foi o que disse o Primeiro-Ministro, quando intimou os Portugueses “a não serem piegas”. Foi o que disse Carlos Moedas, no Sábado, aos empresáros que criticaram a subida da TSU para os trabalhadores porque iria afectar o consumo e, portanto, as empresas que vivem do mercado interno. Na cabeça unidimensional dos nossos governantes, incapazes de lidar com a complexidade de um país que só conhecem das reuniões partidárias e dos manuais de marketing, uma medida que aparentemente beneficia as empresas, mesmo que à custa dos trabalhadores, só poderia ser bem recebida por estas. Esqueceram o pormenor, talvez porque vinha no manual de marketing do 2º ano, de alguém ter de comprar o que as empresas produzem. Foram as cigarras a lembrá-lo: ainda servem para alguma coisa, afinal. Mas a narrativa é a mesma,  seja na versão jotinha de Passos, na de notável da província de Macedo ou na tecnocrática de Moedas. Se eu fosse assessor de comunicação ou outra ciência oculta, aconselharia o Governo a mudar de narrativa e não de povo, ao contrário do que sugeria o Brecht. Está na hora de partir para outra (versão Passos). Não é com vinagre que se apanham moscas (versão Macedo). Há que gerir as expectativas dos agentes económicos (versão Moedas).

Temo, no entanto, que o Governo não siga tão sábio conselho. Miguel Macedo e os demais discípulos de La Fontaine (ou dos manuais de marketing) devem estar convencidos que só as cigarras foram às manifestações do fim-de-semana. Enganam-se, mais uma vez, e é por estarem enganados que perderam “a rua”, ou lá como se diz. Aquilo estava cheio de formigas, fartas de pagar a crise. Ou o aumento da TSU era só para as cigarras?

PP

Convite

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PP

3.

Se os homens pudessem regressar à juventude sem repetirem os seus erros assistiríamos a um aumento inesperado da proporção de canalhas.

Luis M. Jorge