Monthly Archives: Junho 2013

Por fim, o tédio.

Suponho que era inevitável. Nenhuma terra consegue indignar-se muito tempo. Primeiro foram seis anos de Sócrates, dos compagnons de route de Sócrates,  dos esquemas, das maquinações, das fortunas mal contadas de Sócrates. Depois foi esta gente, esta coisa que nos governa como uma neoplasia, estas criaturas que não julgávamos que pudessem existir tal como existem, estes frutos do ressentimento, da secura, de uma miséria ancestral. Os cratos, as jonets, os betos e as sopeiras, os magalas e os capatazes, a tralha e os despojos do ultramar — enfim, as ervas antigas agarradas às pedras que espreitavam um minuto de abandono.

As pessoas como eu perderam o país. Queríamos uma Finlândia e saiu-nos o México, ou uma daquelas merdas do corno de África cheias de larvas, com hotéis de cinco estrelas em esgotos a céu aberto. Não gostavam da “esquerda”? Era má, era “pseudo”, tinha sarna? Então embrulhem.

Para mim, amigos, é igual. Sempre tive jeito para ganhar a vida.

Luis M. Jorge

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Isto é que é desvalorizar as vitórias do FCP

Já passaram mais de dois meses desde que o tractor  a pedal empurrou, insultou e quis ir às  fuças do Superbe Mullet e tudo como dantes em Abrantes.

Bem, tudo, tudo, não. Dois da cantera ( Miguel Rosa e Miguel Vítor) já foram despachados para  dar lugar a mais dois ( sérvios  ou argentinos)  benfiquistas instantâneos.

FNV

Os pequenos génios discretos atacam outra vez

Ler o Sérgio Lavos, até porque diz tudo e  desta vez sem envolver  a moral  das mães dos visados.

Depois da rábula  ” O Banif não custará nada aos contribuintes”, a sobremesa.

FNV

Nova teoria do caos

Em resumo, porque fomos capazes de regressar à essência das coisas foi possível preservar o essencial e promover o desenvolvimento e a redução das desigualdades a nível mundial.

Ou seja, o desemprego definitivo  do Marcelino,50 anos,  de  Proença-a-Nova,   melhora  a vida dos sakalava de Madagáscar.

FNV

Estucha

Uma vez dediquei uma crónica da Ler toda ao assunto: começou o binómio calor-praia. Ele há torturas melhores.

O meu dia ideal de fim de semana,  quando está calor e a abriu  a época balnear,  começa no Américo. Tomates, azeitonas reais,  pepinos, coentros. Um salto à peixeira e venha de lá um cantaril . Depois, ainda pela fresca, o primeiro café do dia, na minha biblioteca ( um salão grande no sotão),  a espiolhar o CM e  A Bola. Tratar da boxer e voltar para o salão. Ler, escrever, fumar.

Quano a jolda acorda, orgástica  de planos veraneantes, estimulá-los a seguir o seu caminho sem olhar para trás.No fim da matina, preparar o gaspacho e dar-lhe frio. 35 graus e com sorte a jolda partiu para piscinas, rios, praias. Almoçar, café, Romeo y Julieta Mini e sesta de persiana fechada.

Três da tarde, nem o vento se mexe. NatGeo no sofá, a histórias do Zambeze, um Benfica gravado do extinto RTP -Memória, rever o Scharwz, o Ricardo Gomes.  Salão. Um bocadinho de L. Cohen, ler, escrever, jogar FM. Seis da tarde, boxe com a boxer ( pesos não que está de ananazes) , duche  morno e uma man best friend na mão. Ver blogues, rever textos.

Quando a jolda chega,queimada da areia,  já a mesa está posta e a vazia açoreana ( a melhor carne … de venda livre) à  temperatura ambiente.

Era bom era…

FNV

Sortes

Que apanhem o cornalón que o colheu  à sorrelfa, eu fico com a memória de o ter visto, ao vivo e a cores,  ainda ele era um simples ajuda.

FNV

Matar, matar

Kai-hui foi  uma das mulheres de Mao e  morreu às mãos dos nacionalistas, em Changsh, em 1930. Escreveu, nos últimos meses de vida, várias cartas e poemas. Ah! matar, matar,matar! Tudo o que ouço é este som nos meus ouvidos.

O regime pintou-a como fervorosa súbdita, ,como no retrato em cima, mas os textos dos últimos dias  foram cautelosamente omitidos. São de uma enorme elucidez diante do que a espera, mas também diante do abandono de uma filosofia de morte: Tenho de ter uma fé, Deixem-me ter uma fé (  Jung Chang, 2005). Se não tivesse sido morta em Changsh, este desvio antibolchevique custar-lhe-ia a vida  depois.

Quanto mais leio sobre a origem do maoísmo – em vez do período da  Revolução Cultural -, ou seja, sobre a artificialidade da  manipulação soviética e  a promessa demencial, mais desconfio dos cosmopolitas ilustrados  que abraçaram o projecto no sossego ocidental.

FNV

Calor sólido ( IV)

A professora chegou a casa e descongelou os rissóis de rissol. Sentou-se no sofá vermelho e deu o pé esquerdo a lamber ao Manecas. Depois  deu o direito. Manecas entusiasmou-se e a sua língua subiu  pelo gémeo direito, contornou o pequeno joelho redondo e tenso e seguiu pelo costureiro. Nesssa altura,  a professora lembrou-se que não tinha em casa Friskies para acalmar o Manecas e reivindicou o seu espaço.

Manecas também percebeu. Apoiou-se nas patas de trás e lançou-se à garganta da professora, que, sem mobilidade, só conseguiu tapar os olhos.

FNV

 

 

 

Com as etiquetas

Delícias.

Cavaco a receber com ternura o “amigo Maduro” da Venezuela.

O senhor primeiro-ministro a elogiar os investimentos da Embraer em Évora.

Paulo Portas a vender computadores Magalhães no México.

Ah, as pequenas ironias da História.

 

Luis M. Jorge

Extremos

As greves gerais, como a de hoje, ou as greves prolongadas, como a dos professores, revelam que muita gente lida mal com a conflitualidade própria das democracias. Curiosamente, ou talvez não, são pessoas que têm o hábito de se arvorar em porta-vozes da liberdade, embora em extremos opostos do espectro ideológico.

Veja-se este exemplo: insinua-se que os professores fazem greve pelos “direitos adquiridos”, enquanto os seus alunos correm risco de vida nas escolas. É uma insinuação desprezível porque relaciona a greve dos professores com o homicídio de dois alunos. Mas, além de desprezível, é politicamente pouco democrática. Dá a entender  que os direitos dos professores não têm a mínima importância ao lado de duas vidas perdidas e que exigir esses direitos, quando há problemas maiores nas escolas, torna os professores cúmplices dos crimes. Alguns “liberais” têm um tal ódio aos sindicatos que são capazes de os acusar de tudo. Sendo este “liberalismo” frequente na maioria que apoia o governo, pergunto-me se a direita compreenderá que a democracia não se limita ao mercado livre.

À esquerda, as dificuldades com a democracia são menos subtis. Aqui lança-se o velho manto da suspeita fascista sobre quem se oponha à greve, mesmo que a reconheça como um direito. Gente perversa “que, na sombra da sua disfarçada consciência, atribui ao protesto pacífico e à liberdade de expressão um carácter meramente facultativo”. Suponho que só quem reconheça à greve um carácter obrigatório não disfarçará qualquer coisinha na consciência, mas convido-vos a reler esta frase extraordinária. Parece tirada do 1984 de Orwell. Não por acaso: uma das características genéticas do totalitarismo sempre foi a vontade de controlar as consciências. Já sabemos o que se segue. Todos conhecemos a história das democracias populares. Mas que isto seja dito hoje, trinta e nove anos depois do 25 de Abril e em nome do mesmo 25 de Abril, ultrapassa a minha compreensão arqueológica.

PP

“Social tragedy”, indeed.

A greve geral vista do Financial Times. O artigo sublinha a unanimidade de patrões e sindicatos e a via sacra dos próximos anos. Nada que impressione a tertúliazinha escalavrada de Massamá, sempre tão exuberante nas nossas caixas de comentários.

Luis M. Jorge

Voltando a Montaigne

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Entre os usos que dizem respeito aos defuntos, julgo dos mais sólidos o que obriga a examinar as acções dos príncipes depois da sua morte. Eles são companheiros e não donos das leis, e se a justiça não se impõe à sua razão, impõe-se à sua fama e à dos seus sucessores, coisas que muitas vezes preferimos à vida. É um costume que traz singulares vantagens às nações que o observam e é desejável a todos os bons príncipes, temerosos de que a memória dos maus seja tratada como a sua. Devemos submissão e obediência aos reis, por causa do seu ofício,  mas a estima e a afeição só as devemos à sua virtude. É da ordem pública suportá-los indignos com paciência, calar os seus vícios, louvar-lhes os actos indiferentes enquanto a sua autoridade requer o nosso amparo. Mas, findo o  comércio entre nós, não há razão para recusar à justiça e à liberdade a expressão dos nossos sentimentos e para recusar aos súbditos a glória de ter servido fielmente um senhor cujos defeitos eram notórios, privando assim a posteridade do que teria sido um tão útil exemplo.”

Montaigne, Essais, Livro I, cap. III (tradução livre).

Sim e não

Guilherme de Oliveira Martins tem razão, mas o reconhecimento deve, como a república, começar em casa.

Por exemplo, não desprezar o sector público, que tem pago, com os outros, o preço do cumprimento das obrigações.

FNV

 

O futuro.

No Brasil, manifestantes sem filiação politica entoam slogans publicitários.

Luis M. Jorge

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flyer-frente(Clique para aumentar.)

PP

Avanços e recuos, etc. e tal

Admitamos, para atalhar razões, que o acordo entre o Ministério da Educação e os sindicatos de professores que desbloqueou a greve às avaliações foi uma derrota de Crato e uma vitória de Nogueira. É assim que tem sido visto, e na leitura dos avanços e recuos será realista. A mobilidade especial atira-se para 2015, depois há eleições, o PS pode ganhar ou não, mas mesmo que não ganhe dificilmente um ministro terá força para voltar à carga, etc e tal. Pelo caminho, ninguém perguntou se e em quê a mobilidade especial, o aumento da carga horária sem componente lectiva, os horários zero e outros mistérios alquímicos contribuem para dignificar o trabalho docente.

Os professores acham que foi uma vitória? Talvez. Mas, como já disse, para o ano há mais, e daqui a dois anos, e daqui a dez anos, e sempre. A vida de um professor é tão mais do que isto.

PP

Parsifal no Midwest (3)

TO-THE-WONDERTodo o simbolismo da sequência no Mont Saint Michel é reforçado pelo monólogo interior de Marina que a acompanha. Enquanto o casal sobe pelos degraus e ruelas, ouvem-se as suas palavras em off: “Recém-nascida, abro os meus olhos. Fundo-me na noite eterna. Uma faísca. Caio nas chamas. Tiraste-me das trevas. Levantaste-me do chão. Trouxeste-me de novo à vida. Subimos as escadas, rumo à maravilha. O amor torna-nos um só. Dois. Um. Eu em ti. Tu em mim.”

É revelador que isto seja dito em francês. Por um lado, a paixão contida nas palavras, que nos transmitem o ponto de vista de Marina, nasce e tem o seu auge em França (Paris e Saint Michel). Quando ela for com Neil para a América, onde o amor entre ambos diminuirá até quase desaparecer, o inglês torna-se a língua predominante (embora não exclusiva: muitos dos monólogos interiores do Padre Quintana, paralelos aos  de Marina na dinâmica do filme, são no seu castelhano natal). A expulsão do paraíso afecta não apenas o amor, mas a própria linguagem do amor.  Por outro lado, aparentemente ele não fala francês. Há, desde o início, uma dificuldade de comunicação com Marina que a mudança de ambos para Bartlesville, a terra de Neil no Oklahoma, apenas irá acentuar. Tal como Marina, também só conhecemos os sentimentos de Neil pelos seus actos. “Falavas pouco, mas podias ser extremamente terno”, diz ela. Daí a inexpressividade de Ben Affleck, perfeito para um papel em que a psicologia da personagem se resume à inexpressividade.

Por contraste, as palavras de Marina são  de uma densidade quase mística – e este contraste é a maior fractura tectónica na geologia do filme. A deriva dos continentes não vem da viagem transatlântica, mas da distância abissal e intransponível entre dois seres humanos, por muito que se amem. Nunca duvidamos da grandeza da sua paixão. Quem sabe um mínimo de teologia, identificará no monólogo de Marina várias imagens tradicionais do amor de Deus: o renascimento, o início da verdadeira vida, a luz que dissipa a noite e as trevas, o fogo que abrasa a alma, a centelha, a fusão dos seres e, mais uma vez, a ascese a um estado superior de contemplação (“subimos as escadas, rumo à maravilha”).

Malick assimila o amor humano ao amor divino, uma assimilação recorrente na cultura judaico-cristã. Sobre o matrimónio, Jesus cita o Antigo Testamento – “o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e serão os dois uma só carne” (Mt. 19, 6) –  e São Paulo, glosando esta passagem, compara o casamento à união entre o mesmo Jesus e a Igreja (Ef. V, 21-33). Espírito e carne, tal como em São Basílio, que refere “a chispa do amor divino depositada em nós” para definir a lei natural (Regulae Fusius Tractate, PG 31, 908, Resp. 2, 1). Santo Agostinho, nas Confissões, dirige-se a Deus, a “beleza antiga e nova” que ele “amou tarde”, em termos que Marina não desdenharia: “Brilhaste e resplandeceste diante de mim e expulsaste dos meus olhos a cegueira. Tocaste-me e abrasei-me na tua paz.” O austero São Bernardo dedica oitenta e seis sermões ao Cântico dos Cânticos, um longo hino conjugal do Antigo Testamento no qual, entre outros lirismos, a mulher diz do homem amado que “a sua boca é doce e todo ele é delícias”, ao que ele responde sugestivamente que “o teu ventre é um monte de trigo rodeado de lírios e os teus seios parecem os filhos gémeos de uma gazela”. Bernini figura o êxtase místico de Santa Teresa de Ávila com a máscara do êxtase amoroso, o único que por certo conhecia (ninguém se escandalizou, como pode ver-se na igreja romana de Santa Maria della Vittoria).

pedras_angulares_santa_teresa_avila_584px_2 Mais perto de nós, a primeira encíclica de Bento XVI, intitulada Deus É Amor, lembra que “entre o amor e Deus existe uma relação: o amor promete o infinito, a eternidade, uma realidade maior e totalmente diferente da nossa existência quotidiana” (I, 5).

Malick recolhe esta doutrina de dois mil anos de Cristianismo, que vê no amor humano o sinal da felicidade absoluta que só Deus pode dar, quando o Padre Quintana exorta os seus paroquianos a “despertar o amor, a presença divina em cada homem e mulher”. O amor é presença divina porque é a promessa de infinito de que fala Ratzinger. Mas o homem e a mulher não o atingem, apesar da paixão, porque foram expulsos do paraíso. Feridos pelo pecado original, a sua felicidade é sempre efémera e limitada. Humana, demasiado humana. (cont.)

PP

11 horas a falar

Para derrotar uma  lei anti-aborto (  proibição do  aborto depois das vinte semanas)  que até é bem razoável .

Agora vejam o percurso  da senadora Wendy e chamem-lhe esquerdista que não sabe o que é vida.

FNV

Tanto pior para os factos

É evidente, seja qual for a opinião sobre a justiça  das reivindicações, para todos?

Sim, excepto para quem, e agradecemos o espectáculo, derrota o real ( terá sido apoiante de Sócrates?)

FNV

Calor sólido (III)

O reitor do seminário  lembrou-se de ler o  Guia Espiritual . O Quietismo de Molinos excitava-o , não só porque era proibido mas  porque  era obrigatório. À sua original  maneira praticava a doutrina.

Quando Miguelito, numa travessa e com uma  maçã na boca,  se veio queixar que o  padre Lousada o amava excessivamente, mais de noite do que de dia,  o reitor recomendou-lhe quietude: Deus ama os quietos e protege os inquietos.

FNV

Com as etiquetas

Novos partidos, velhos inteiros

A conversa da criação de novos partidos, que agora voltou pela mão do Rui Tavares, é tão recorrente como a das candidaturas independentes. À partida soa bem, mas a experiência mostra que o sistema político português tem pouco espaço para o aparecimento de novas formas de vida. Basta lembrar que o último “novo partido” com sucesso foi exactamente o Bloco de Esquerda, do qual o Rui Tavares foi compagnon de route. E teve sucesso porque havia um vazio ideológico entre o PCP e o PS, correspondendo grosso modo às célebres “causas fracturantes”, que o BE soube ocupar. Com a vitória no segundo referendo do aborto e aprovação do casamento gay, esse espaço já não existe. As causas fracturantes são hoje património comum da esquerda e de alguns deputados do PSD e do CDS, como se viu na coadopção, o que explica o esvaziamento do Bloco e desaconselha um Bloco II. À direita, o espaço é ainda mais limitado. O PSD sempre fez da flexibilidade doutrinária um trunfo eleitoral, característica que, por osmose, contagiou o CDS de Portas.

Na improbabilidade de um realinhamento de ideias, sobra um discurso moralista contra os políticos e os partidos, uma espécie de novo PRD ou Beppe Grillo à portuguesa. Também é pouco e já se viu como acaba. Concordo que os políticos e os partidos precisam de um banho ético, mas não tenho grandes esperanças. Primeiro, porque nenhum programa moralizador pode moralizar ninguém: a moral é uma coisa teimosamente individual e, se falta no Parlamento ou no Governo, não são partidos ou candidatos puros como a água das nascentes que a vão derramar sobre nós. Segundo, porque isto ainda vai piorar. À geração de Sócrates, Relvas, Passos e Seguro há-de suceder, na nossa pobre política, uma fornada de jotinhas ainda mais aterradora (que já andam por aí, a perguntar quanto custam os sindicatos e a berrar que não pagam a dívida). A única dúvida é quanto tempo falta para batermos no fundo. Cinco anos? Dez? Vinte? Cinquenta? Se olharmos para outras democracias do sul da Europa, como a Espanha e a Grécia, ou mesmo a Itália e a França, parece que o sistema aguenta muito tempo uma classe política mafiosa. Talvez nos esteja reservada a mesma agonia. Mas se olharmos para o nosso passado, a história ensina que a degradação do regime  pode ser muito rápida: duas décadas do Ultimato ao fim da monarquia, década e meia da Primeira República ao Estado Novo.

Em suma, é provável que a chegada de novos partidos seja mais um sintoma da doença do que um remédio. Cínico, eu? Parece que sim, mas não estamos em tempo de lirismos.

PP

Calor sólido ( II)

O gestor acordou bem disposto. Eram sete da manhã e ainda não tinha feito nenhuma asneira. Assobiou e o pai  apareceu à porta do quarto com o jornal na boca. Filho, larga isto tudo , eu sei que queres…

O gestor  foi de roupão até ao jardim, mirou a piscina de vinte e cinco metros, a mulher inanimada numa chaise longue esquecida da festa da véspera  e o Porsche Panamera estacionado no terraço . Bem queria largar isto tudo, mas o dever… o dever é uma cruz.

FNV

Com as etiquetas

Calor sólido (I)

A jornalista subiu no elevador com  doutor Montinha, o vice-presidente da comissão política. Entre, entre, tenho aqui pastor alemão gelado,mas beba qualquer coisa primeiro.  Sarita  sorriu e aceitou um copo de champanhe mas trocou-o porque vinha um deputado agarrado à borda.

O doutor  Montinha foi até à enorme janela panorâmica. Vem aí a democracia, querida.  Sarita, já despida em cima da cama, gritou do quarto: Sim, oh sim, meu querido  derrotado, mas despacha-te porque sou uma profissional independente.

No dia seguinte, a jornalista subiu no elevador com  doutor Sequeira Reis, o presidente  da comissão política.

FNV

Com as etiquetas

Da série “A concorrência faz muito melhor”

Não sei se já vos aconteceu : tentar dizer uma coisa complicada durante semanas e, um belo dia, descobrir que já alguém o disse muito melhor. A mim, aconteceu-me hoje. Procurando luzes para revisitar  a Essência do Amor, o último filme de Terrence Malick, dei com esta crítica luminosa. Discordo aqui ou ali, e tentarei explicar porquê durante o milénio em curso (por exemplo, minimiza o papel do Padre Quintana, quanto a mim a voz do realizador,), mas revela uma compreensão do filme muito para além de tudo que li até agora. Leiam, e depois veremos se vale a pena acrescentar seja o que for.

PP

Ora aqui está

Um indivíduo que em 2010 vivia nas nuvens. Era giro entrevistá-lo agora.

O actual  responsável de tutela e o antigo, dr.Bagão Félix , que está sempre na SIC-N, também podiam  ser entrevistados sobre isto:  é só rir.

FNV

Sorriso

Durante meses fui sublinhando aqui o silêncio envergonhado dos media e de  muitos  comentadores de esquerda portugueses sobre a fabulosa teia de corrupção do PT de Lula/Dilma ( houve deputados que se recusaram  a cumprir ordens judiciais).

Não é nada de novo, este desfazamento entre o ascetismo ético-político entre portas e o assobiar para o ar aos  ventos de fora ( o equivalente ao silêncio conveniente dos beatos  taliban anti-gay  diante da pedofilia exercida no recato dos seminários ), mas desta vez a queda foi dolorosa.

É no que dá ter donos dentro do cérebro.

FNV

“Leis que marginalizam os homens”:

Eu já avisei várias vezes os homens portugueses para serem mais inteligentes. Os homens portugueses têm que se convencer que as mulheres portuguesas, a coberto de Leis que marginalizam os homens, não respeitam os seus maridos. Andam os desgraçados a trabalhar enquanto elas lhes metem valentes cornos. Depois no divórcio elas acabam sempre por alegar que são agredidas, quando muitas vezes na realidade não o são, afim de conseguir com isso tirar dividendos financeiros ou a custódia dos filhos. O que eu aconselho, e pelo que eu vejo nos vários países por onde já passei, é que o homem português continue trabalhador como sempre foi, mas que não case nem tenha filhos. Olhem por a vossa vida e sejam mais inteligentes. Não estraguem a vossa vida”.

Em mais uma mulher  assassinada.

FNV

Luso-tatcherismo de lacinho

E com trancinhas.

Fica por saber se tudo isto  era evitável e aguardemos:

a)  as piruetas dos que responsabilizaram exclusivamente os sindicatos pela confusão instalada,

b) a actualização  do “medo na sociedade portuguesa” ( a  versão 2.0 da apatetada   asfixia democrática e  última  explicação para o facto de só vermos motins pela TV), do qual pelos vistos os professores estão  a salvo.

FNV

Parsifal no Midwest (2)

Uma amostra da densidade de Malick pode encontrar-se logo nas cenas iniciais da Essência do Amor. Um casal percorre, em descapotável e em patente estado de felicidade romântica, a estrada que conduz ao Mont Saint Michel, o célebre mosteiro na costa da Normandia que os franceses conhecem por la merveille.

To_the_Wonder_Terrence_Malick_04 Ela vive em França com a filha, fruto de um anterior casamento, e ele é um americano de passagem, saberemos mais tarde. O filme, que começa com os dois em Paris, nunca nos dá a conhecer os seus nomes, nem como se apaixonaram, nem o que fazem ali, mas a sinopse diz que a mulher, interpretada por Olga Kirulenko,  se chama Marina e o homem, interpretado por Ben Affleck, se chama Neil. In media res, visitam o mítico local no pico do romance.  O título original do filme está já aqui: To the Wonder é o caminho que os leva à “maravilha”.

Mas a maravilha não é só o cenário paradisíaco do amor – é  o próprio amor. E este paraíso, por sua vez, cita outros paraísos, perdidos ou em vias de se perder pela inexorável marcha de uma tragédia grega, na filmografia anterior de Malick:

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a bucólica e isolada mansão no meio da pradaria, em Days of Heaven, antes da praga de gafanhotos e do homicídio do patrão/marido;

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a ilha tropical em que se esconde o soldado desertor, em harmonia com os homens e as coisas, antes de ser apanhado e devolvido ao absurdo da guerra;

The-New-World-2005-Newa aldeia índia em que o conquistador europeu, longe dos seus companheiros, conhece e ama a princesa nativa, antes da separação e do posterior afastamento de ambos;

The_Tree-of-Life_Terrence_Malick_still_photo_23   a casa da família em The Tree of Life, cheia de deslumbramento e paz antes da morte do irmão e do fracasso do pai.

A associação entre amor, casa, natureza e inocência, por um lado, e violência, separação, orgulho e castigo, por outro, constitui um thopos literalmente central no cinema de Malick. O espaço e o tempo fluem entre esses pólos opostos.  De algum modo, os seus filmes são sempre variantes do mesmo tema: a expulsão do paraíso.

As citações, no entanto, não ficam por aqui e evocam os mais vastos recursos da alta cultura  para dar sentido(s) a narrativa. A própria referência ao Mont Saint Michel pode entender-se como uma citação. São Miguel, segundo a tradição cristã, é o chefe da milícia dos anjos. No início dos tempos, derrota Lucífer e lança no inferno os demónios, anjos caídos, como mostra uma iluminuras do Livro de Horas do Duque de Berry (c. 1410) em que se vê precisamente o monte do qual é padroeiro  e o diabo sob a forma de um dragão.

saintmichelducdeberry São Miguel guarda as portas do céu e pesa as almas dos mortos no juízo final, abrindo o paraíso aos eleitos e precipitando os condenados no abismo, cena que conhece inúmeras versões na arte cristã, entre as quais a seguinte, de Hans Memling, por volta de 1470.

440px-Das_Jüngste_Gericht_(Memling)O Mont Saint Michel remete, portanto, para as ideias de ascensão e paraíso. A cosmologia medieval, de resto, situa por vezes o jardim do Éden no alto de uma montanha, tradição de que a Divina Comédia de Dante se faz eco ao localizar  o paraíso no cume do purgatório, um monte pelo qual as almas sobem através da purificação (ou purgação). Em 1465, Domenico di Michelino representava assim o  universo dantesco, com o monte do purgatório ao fundo, encimado pelo jardim de Adão e Eva, e o poeta cá em baixo, entre as portas do inferno e as portas de Florença.

mount-purgatory-dante-5219Tal como as almas ascendem ao céu subindo uma montanha purificadora, tanto no sentido físico como simbólico, também o percurso de Marina e Neil no Mont Saint Michel é ascensional. Eles sobem à merveille (To the Wonder…) por degraus estreitos e íngremes como os círculos do purgatório de Dante, entre paredes milenares e arcos de pedra que simbolizam a eternidade do verdadeiro amor,

to_the_wonder_2abraçando-se e contemplando a paisagem encantada que os separa do resto do mundo, espaço exterior à sua felicidade,

To_the_Wonder_Terrence_Malick_07até atingirem a igreja, banhada pela luz celeste que entra por altos vitrais, e o claustro, jardim fechado que os une e encerra no círculo do desejo mútuo, símbolo edénico de um amor ao mesmo tempo nascido da graça e da natureza. (E atenção a este paradoxo caro a Malick, uma das chaves do filme.) Eis Adão e Eva antes do pecado original. O amor é um regresso ao momento da criação, uma ascensão rumo ao espanto renovado diante da maravilha – to the wonder. É Inverno, está frio e cinzento, a terra ficou para trás e as águas cercam o paraíso, mas o que a sequência nos transmite é o calor da paixão e a beleza do universo, porque tudo vemos pelos olhos de quem ama.  (cont.)

PP

TPC.

Paulo Portas escolheu bem o momento para ser democrata-cristão. Pode despachar a Bíblia durante as férias parlamentares e reler Maquiavel a tempo da rentrée.

Luis M. Jorge

Auxiliem o João Miranda.

Há dois ou três dias que ele não sabe quanto é que os sindicatos recebem do Estado.

Luis M. Jorge

Parabéns

À tal universidade com as suas  ruas  e tradições “bafientas”, “provincianas” etc …

Bem, pode ser que os meninos  das Repúblicas revolucionárias deixem de grafitar o património e as “forças vivas”  da cidade  reconstruam os casebres da Alta ( que ainda os há  e muitos) do património.

FNV