Ilações das eleições

O Luís e o Filipe já disseram o que havia a dizer, mas acrescento umas coisas.
1. Não foi só no Porto que Passos sofreu uma derrota humilhante. Convém recordar que o PSD perdeu (ou não ganhou) Sintra, Oeiras, Gaia e Matosinhos – e que em Lisboa nem sequer foi realmente a votos. Ou seja, o Grande Porto e a Grande Lisboa estão nas mão da esquerda, à excepção de Cascais. Se a isto juntarmos Loures, Odivelas, Amadora e a margem sul (Almada, Barreiro, Setúbal), vemos a real dimensão do “pior resultado de sempre do PSD”. Passos apenas ganha eleições nacionais ao Sócrates de fim de ciclo…
2. O famoso “cartão vermelho” ao Governo não explica tudo. Alguns candidatos péssimos: Pedro Pinto e Carlos Abreu Amorim são cartoons que aterraram de pára-quedas nas autárquicas. E Seara está para além de qualquer descrição. Até na hora da derrota falou como um boneco da bola: “A democracia é mesmo isto…” Isto? A “isto” chegámos?
3. Nota para eleições futuras: os eleitores não são estúpidos. Na São Caetano à Lapa, deviam escrever isto mil vezes à mão, num caderninho, até aprenderem. Dá mau resultado aumentar impostos, descer pensões e sacar o subsídio de férias aos portugueses em nome da dívida – e depois apresentar candidatos que prometem estacionamento gratuito e túneis sob o Douro. Já que não respeitam o nosso dinheiro, respeitem pelo menos a nossa inteligência.
4. A vitória de Rui Moreira no Porto é uma excelente notícia para o país. Não creio que este resultado seja facilmente replicável, mas prova-se que um independente pode ganhar eleições se tiver peso específico, boas ideias e uma base de apoio transversal. Ajuda se o adversário for um demagogo incorrigível, claro.
5. A vitória de Isaltino, perdão, de Paulo Vistas em Oeiras é a outra face da moeda dos independentes. Mas não se trata de uma mudança real, pelo contrário. Vistas é um exemplo grotesco do velho caciquismo. Com uma diferença: os velhos caciques não iam para a cadeia. O futuro? Espero que não. Parece-me mais a Sicília.
6. Nem tudo é negro para o PSD. Ricardo Rio, com quem partilhei um blogue (o Cachimbo), ganhou finalmente em Braga. Eis um caso raro na nova geração: um pragmático de convicções. Se não se estragar no exercício do poder, o que já tem acontecido, talvez o futuro passe por ali.

PP

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17 thoughts on “Ilações das eleições

  1. Carlos Duarte diz:

    Caro PP,

    Em relação ao PSD, não diria uma derrota do PSD mas de um certo PSD (“menezista”, “passista”). O outro (e basta olhar para o Porto) está bem vivo e recomenda-se.

  2. vortex diz:

    ‘os votos da catarina andaram de mão em mão
    foram ao caixão do seu amigo joão’

  3. João. diz:

    Outras ilações é o uso manipulador de sondagens tentando inclinar o terreno para os amigos. Que sondagem apontava à derrota de Menezes, ainda por cima em terceiro lugar? Que sondagem apontava a vitória da CDU em Loures?

    “Sondagem: Socialistas «arrasam» Bernardino Soares em Loures”

    http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=646614

    “PS mantém Câmara de Loures”

    http://expresso.sapo.pt/ps-mantem-camara-de-loures=f827716

    A proibição de sondagens públicas durante a campanha eleitoral seria uma lufada de ar fresco na política portuguesa. Nesta matéria estou de acordo com o CDS:

    Como é evidente o PS nunca concordaria uma vez que é um dos que mama deitado os benefícios dados pelas sondagens, aliás, o PS e o PSD que, com certeza, já parasitam cada um as suas agências de sondagens.

  4. VF. diz:

    O mais engraçado é que o caciquismo, normalmente descrito como um fenómeno boçal dos ruralóides do norte, aparece replicado com requintes de malvadez mesmo no meio, sei lá que horror que giro, da classe média alta suburbana. É tão engraçado ver preconceitos a ruir.

  5. filipe diz:

    Pedro, gostava de saber quais são as boas ideias de Rui Moreira. É que para lá da bimbalhice enfatuada não avistei daqui a mais pequena sombra de uma ideia, boa ou má.

    • caramelo diz:

      O tio parece que é supé rico, o que pelo menos o livra de suspeitas de ir para a câmara do Porto para se encher. Vendeu a empresa da família para se dedicar ao que gosta, que é o associativismo, a escrita e o comentário (diz ele numa entrevista que está no corta-fitas), e isso dá-lhe aquele ar de serenidade beatífica que apresentou na noite das eleições. É uma espécie de monárquico republicano, à moda liberal do Porto, cultíssimo e refinado, uma Agustina da política portuense. Ainda por cima, tem o queixo quadrado e quem lê BD sabe que isso é um sinal de super-herói super-honesto, desde o velhinho Dick Tracy.

      • fnvv diz:

        supé ricos são os cidadãos independentes por Coimbra , eufemismo para Bloco de Esquerda, que prometeram que não seriam remunerados por quaisquer funções no executivo camarário.
        Supé riquissímos…

      • caramelo diz:

        A sério? O Ferreira da Silva, o que deve assumir funções no executivo camarário, lá sabe e se ele o diz é porque pode. Um amigo laranja que o conhece diz-me que é um tipo sério e trabalhador e eu fiquei contente por eles terem tido tantos votos. Ainda estou recenseado na Lousã porque me esqueci de mudar para Coimbra (também só me lembro de comprar chapéu de chuva quando começa a chover) mas se tivesse votado, votava neles ou na CDU. Olha, mas estarmos a falar aqui nisto ou nos eleitos para o clube recreativo do calhabé é a mesma coisa para estes bárbaros aqui à volta. A Henedina até pergunta acintosamente se “o machado” é o do ps. Até Ponte de Lima tem mais atenção que a nossa querida cidade.
        Mas não se pode reduzir o movimento Cidadãos por Coimbra ao BE, longe disso. Não sei sequer se o cabeça de lista é do BE.
        A propósito, olha que a queda nacional do Bloco de Esquerda não é coisa para ser tratada com leveza. Mesmo nos mais alucinados projetos fraturantes, ou mesmo por isso, cumprem um papel importante numa sociedade moderna. Não vale a pena isolar coisas como o piropo, pretendendo reduzi-los a uma caricatura, porque até nisso são úteis. Eu assisti à evolução do bloco em Coimbra, desde a meia dúzia de alucinados revolucionários da ala mais radical do PSR em convívios no ateneu, até ao quadro atual, e olha que têm gente com muito valor.

      • fnvv diz:

        De certeza, com há em todo o lado, mas esse truque criptofascistóide, a dias das eleições, foi de uma falta de imaginação ao poder que nem te conto.
        Reduzir ao BE: pois não sei se serão os que costumam estar com o megafone na Praça da República antes das manifs ( uns estão lá que eu conheço) ou se falta algum ehehhe…

      • Caramelo, ser «supé rico» é algum handicap político?
        Quanto ao resto, fico surpreendido com alguns dos elogios (intencionais ou não)… Nem eu, que votei nele, iria tão longe.

      • caramelo diz:

        Carlos, não é handicap politico nenhum, pelo contrário, eu até disse que assim não recairão sobre ele suspeitas de enriquecimento ilícito. Handicap politico mesmo, logo se vê se tem, mais para a frente, depende de como vai governar a cidade. O resto, é o que vou lendo por ai, até por parte de adversários, apenas tomei algumas liberdades poéticas e às vezes exagero um poucochinho.

      • Caramelo, o que vamos ver a partir de agora é se ele tem competência desempenhar o cargo para que foi eleito, mas isso aplica-se a todos aqueles que foram eleitos pela primeira vez (os outros, para o bem e para o mal, já sabemos). E que fique claro: mesmo tendo votado nele, não ponho a mão no fogo, mas, pelo bem da minha cidade, espero que Rui Moreira seja uma boa revelação.

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